Clarice e eu

“- Clarice, morrer dói tanto quanto viver?”

Eu comecei nossa conversa assim. Ela em silêncio, ainda me surpreendia, como se não estivesse ali por todos aqueles anos me fazendo companhia. Então Clarice levantou e foi até a cozinha. Voltou com dois chás de camomila sem açúcar, um para mim e outro para ela. Sentou-se novamente na poltrona e me atingiu com aquele olhar eterno, duro e leve. Nem sei quanto tempo ficamos daquele jeito, apenas olhando um para o outro.

Ela também sentira que fosse morrer jovem demais, e cá estávamos nós. Vivos e para sempre jovens, apesar das rugas que cada dia mais se afirmavam no espelho, ou os cabelos brancos que induziam o outro a nos encontrar envelhecendo. Nossa alma seguia infante e precisando escrever para se fazer comunicar, porque nossos sonhos nasciam sempre embrionários, para que pudéssemos fazê-los crescer na medida em que a nossa dual realidade permitia.

“- Clarice, qual a função dessa angústia que a gente sente e não sabe de onde vem?”

Mas que necessidade era essa que tínhamos de sempre querer achar nomes e personalidades para os capítulos da nossa vida? Escrevíamos essas linhas sem saber se teríamos tempo de relê-las. E isso não era um pensamento suicida. Era só um jeito de admitir a nós mesmos que mesmo jovens, não ignorávamos a força da impermanência das coisas. Eu e ela, que a meu exemplo, também sonhava em um dia se tornar escritora. Nunca nos tornaríamos.

“Clarice, escrever é o lugar onde me encontro com todas as minhas fraquezas abraçadas calorosamente pela minha força. É a voz que fala de mim e comigo, mas não sou eu. O exercício da pena em cumprimento. Minha auto condenação para me perdoar de tudo que as palavras faladas não podem alcançar. Meu portal de entrada para o meu passado e minha saída para o meu futuro. Meu único e universal jeito de acreditar em Deus sem precisar acreditar que Ele realmente exista.”

Clarice me pegou no colo, passou a mão nos meus cabelos e me passou o bastão dizendo:

“Está com você meu menino querido. Doer é só um jeito de viver que é bem melhor do que passar a vida anestesiado pela ignorância e sorrisos falsos.”

E então, eu dormi.

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