Felicidade cinza

Aurora olhava pela enorme janela aberta do alto prédio de sessenta andares, o maior da cidade. Enquanto fumava, ali no quinquagésimo sexto andar, o vento empurrava a fumaça para o alto e para fora, e junto com ela flutuavam seus pensamentos, um atrás do outro, enganchados como uma corrente de desesperanças, medos, momentos efêmeros de alegria e fracassos. O céu, como embrulhado em jornal por um Deus que descartava aquele mundo todas as tardes tristes como aquela, acusava uma tempestade iminente. Aurora sentia na testa, depois na mão esquerda que se apoiava no parapeito da grande janela da varanda, uma enorme gota d’água se esparramar na sua pele, com tal força como se tivesse sido lançada por alguém impaciente de esperar ela concretizar seus pensamentos.

Quando a garoa começou a se tornar pesada, Aurora se afastou da janela, deixando-a aberta. A cortina branca dançava e fazia sombras fantasmagóricas na parede oposta da sala, sob a luz amarelada do abajur em forma de globo terrestre entre a cortina e a parede. Com um só toque no som, Aurora fez Nina Simone cantar, enquanto ela bebericava aquele vinho intimamente guardado para ocasiões de solidão como aquela. Aurora tirou os sapatos e pôs-se a girar de olhos fechados no centro da sala, sobre o tapete, abraçando sua tristeza com dignidade e vivendo-a naquele momento ao som da música. Ela sabia que tinha um notável talento de girar e ainda assim não desperdiçar uma só gota de vinho no tapete, e de minuto em minuto entreabria os olhos para conferir seu feito. Ela girava, Nina cantava e Aurora passeava nas suas lembranças em preto e branco, esfumaçadas pelo tempo, como nos filmes setentistas.

Ela lembrava do passado, ainda menina, naquela cidade pequena e despovoada. Voltava todos os dias do escritório às seis da tarde, muitas vezes carregando a pilha de papéis que nada tinham do seu verdadeiro sentimento de futura escritora, apesar de terem passado pela habilidosa datilografia das suas jovens mãos. Aquilo, para ela, era uma habilidade e tanto. Dedos ágeis que facilmente poderiam entoar as mais clássicas melodias em um piano de cauda, se ela tivesse aquela vida que não era dela, e não desperdiçasse seus dedos de segunda a sexta-feira com papéis sem importância. Aurora partia no trem das seis e meia para a cidade vizinha, onde estudava Direito na maior universidade da região. Foi naquele mesmo trajeto que conhecera Antônio. Numa daquelas tardes, o charme de Antônio e ele mesmo sentaram-se ao lado de Aurora, perguntaram sobre o livro que ela estava lendo.

Afoita no galanteio do primeiro namorado, filho de um grande fazendeiro da cidade, o que era motivo de orgulho para seu pai, Aurora desistira do Direito e se casara seis meses depois naquela igrejinha da esquina, quase em frente à sua antiga universidade. O que era o caminho de sucesso para uma mulher naqueles tempos difíceis. Lhe doía ter abandonado seus planos, seu futuro de escritora, sua carreira no Direito que a tornaria bem sucedida e a permitiria escrever por amor ao que fazia, mas se ao menos o tempo não tivesse gasto o amor que ainda sentia por Antônio, talvez Aurora pudesse ser feliz. Do alto das suas lembranças Aurora podia recordar facilmente a igreja vista da janela da biblioteca, apesar de na realidade, a visão fosse apenas uma ordinária silhueta que poderia tanto ser uma igreja, um sobrado ou um grande supermercado. Olhando muito atentamente conseguia perceber o formato de uma cruz irrompendo do telhado, inclinada, como se estivesse há mais de cem anos prestes a cair. Ao menos a cruz, em mais de um século, nunca havia sequer mexido um centímetro, ao contrário do seu destino inglório.

Hoje, o que fazer consigo mesma quando tudo que lhe restava era meio curso de Direito e um ex-marido que prometera lhe fazer feliz e o máximo que fizera foi deixar contas a pagar e um filho, para depois sumir e ela nunca mais saber onde estava. Nina continuava a cantar e a pesada e rápida tempestade dava lugar à garoa novamente. Aurora voltou para a janela, sentindo o chão molhado sob seus pés descalços, acendeu outro cigarro. Em alguns momentos, ela odiava a si mesma, quase na quantidade em que se odeia a morte, simplesmente por ela ser desconhecida o suficiente para fazer doer. Várias vezes, a ideia de tirar a própria vida passava emaranhada em outros pensamentos de desesperança, mas então, se rompesse com seu destino, talvez nunca saberia que um dia pudesse ser feliz.

Aurora se perdeu em seus devaneios de tal forma que esqueceu do cigarro que começou a queimar seus dedos. Sem querer, deixou cair lá de cima a guimba, ainda acesa, do restinho de cigarro que minutos antes pintava seus pulmões de cinza. Aquele fogo era como a sua vida. Totalmente consumido, não mais tinha para onde ir, e ainda assim tinha a capacidade de queimar. Deve ser por isso que as pessoas se drogavam, pensou ela. A ideia de desaparecer de si mesma por algum tempo era um tanto atraente. Mas ela precisaria de alguns dias, talvez anos, para esquecer de quem era por tempo suficiente para poder descansar. Talvez mesmo só a morte a pudesse fazer sofrer esse suplício, e quando a sua vez chegasse, ela aceitaria de bom grado.

De repente tocou a campainha. Num rompante Aurora percebeu que a música já havia acabado há algum tempo, a garoa cessara, e o copo secara. Aurora correu calçar seus sapatos, conferiu se sua bolsa estava sobre o sofá e abriu a porta. Antônio sorria bondosamente para ela e, surpresa, Aurora se lembrou de como aquele rapaz que conhecera no mês anterior era bonito e, como diziam nos filmes, um gentleman. Envolto num ar de simplicidade e ao mesmo tempo profundidade que valeria a pena ter toda uma vida para adentrar naquelas obscuridades, Antônio a convidara para jantar dois dias antes. Não era um namorado, mas bem que poderia ser, na opinião de Aurora. Provavelmente será, pensou ela.

– Boa noite Aurora, o táxi chega em dez minutos, mas se quiser, já podemos descer. – disse um Antônio, um tanto surpreendido pelo ar surpreso da garota que lhe esperava no horário em que ele teve o devido cuidado de chegar pontualmente.

– Nossa, me perdoe Antônio, cheguei da biblioteca e me distraí completamente enquanto lhe esperava. É olhar cinco minutos para o caos dessa cidade e me perco totalmente de mim. Pode me dar cinco minutos enquanto termino a maquiagem no meu quarto? – disse Aurora mimetizando a expressão de mistério que, tinha muito orgulho disso, buscava mostrar quando ainda não lhe conheciam intimamente.

– Claro, posso lhe esperar na varanda?, disse Antônio já sabendo da resposta e, portanto, já andando em direção à grande janela da varanda.

– Sim, aceita uma água ou um suco? Estive bebendo esse aqui, é muito bom – Aurora indicou com o dedo, colocando a taça de vinho que usara para beber o suco, disfarçadamente dentro do armário.

– Sim, pode deixar que me sirvo, obrigado.

Aurora andou para o quarto, o ar mais naturalmente possível, e trancou a porta à chave tomando o cuidado de não ser ouvida ao fazer isso. De dentro da gaveta de seu criado-mudo retirou seu pequeno caderno amarelo, onde anotava fragmentos do que um dia, talvez, se tornaria seu primeiro romance. Sentou-se no chão, apoiando as costas na cama e escreveu em seu manuscrito perfeccionista:

“A felicidade me assusta. Ela chega de repente e eu não sei nem muito bem como me portar. Olho para um lado, para o outro, sorrio. Às vezes até mesmo choro como num estado de graça que dura alguns minutos apenas. Mas na verdade, na última camada dos meus sentimentos, eu sinto medo. Um medo enorme porque no fundo não sabemos muito o que fazer com a felicidade. A tristeza nos provoca e esse desassossego faz nossos pés apontarem para algum norte, nem que esse norte seja, por vezes, deliberadamente estar parado e só. Mas a felicidade, essa nos congela na devida posição em que nos encontrou. E como uma fotografia brilha seu sorriso de mistério que traz saudade desde já por aquele momento que está passando. Eu queria ser feliz, mas se eu for, talvez não saiba ser direito. Ou será que sou?”

– Aurora, o táxi acabou de chegar, viu Antônio da janela do sexto andar.

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