O segredo de Alicia

Alicia, minha afilhadinha, do altíssimo dos seus seis anos e alguns dias de idade e pura experiência, no sentido mais infante da palavra, olhou fundo em meus olhos, mas da forma despretensiosa de uma criança, e disse:

– Padrinho, vou te contar um segredo. Uma coisa que eu e as minhas amigas fazemos todos os dias quando a gente chega da aula.

Uau, pensei comigo mesmo. Será que havia chegado algum momento fatídico da existência dela e que ela queria dividir comigo? Não sabia o que sentir. Apreensivo, surpreso, curioso, lhe disse:

– Pode dizer, meu amor – tentando soar o menos curioso possível. Estávamos na rua, num momento de pausa do nosso passeio de bicicleta. Era um dia azul, sem uma nuvem de chuva, daqueles dias perfeitos para compartilhar segredos entre uma afilhada e seu padrinho.

– Não posso dizer aqui, tem muita gente. E é muito segredo, você não pode contar para ninguém! – Disse ela, séria, tentando gesticular uma seriedade adulta. Eu, adulto que sou, acreditava todo no seu mistério. Certo dia ela me havia dito que não era mais um bebê, era um “adulto que fala”, segundo as palavras dela. Acreditei.

Meu Deus, pensei, sem pensar em Deus. Que será que ela vai me dizer? Havia uma semana ela tinha dito que eu era seu melhor amigo, aquela parecia uma porta aberta. Uma porta aberta para o infinito de uma menina de pouco mais de seis anos e que eu não tinha a mínima ideia do que tinha atrás. Antes daquele momento, os nossos, mais íntimos, eram enfeitados com lápis-de-cor, desenhos, piscina e sorvete. Agora eu estava diante da minha afilhadinha, que havia crescido e tinha um grande segredo para me contar.

– Acho que vou te contar agora, padrinho, que não tem ninguém por perto – disse ela, de cima da garupa enquanto pedalando, eu ouvia e até pedalava com os ouvidos para não perder nada.

Eu nada disse, reticente, apenas esperando.

– Então, é o seguinte. Eu tenho um poder de gelo. A Manu tem um poder de fogo, e a Mariana tem um poder de terra. A gente sempre solta esse poder depois que a gente chega da escola. Não conta para ninguém, viu padrinho?

Eu prometi, mas quebrei a promessa. Que triste! Mas eu juro que o próximo segredo eu vou honrar a sete chaves. Afinal, é isso que os melhores amigos devem fazer.

 

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