O conto da raposa vermelha – parte I

Era uma raposa desde a primeira primavera depois que nasceu, quando viu seu reflexo pela primeira vez. Uma raposa vermelha, como todas as raposas que eu já vi, que diferia de todas as raposas daquele lugar. Seus olhos de luz faziam parecer que buscava sempre uma direção para onde apontar, mas não, eram olhos sem segredos e cheios de mistério, que nos reflexos de poças d’água, se auto hipnotizavam por instantes que pareciam horas. Aquela noite, ela caminhava como quem vai para algum lugar. Digo aquela noite porque sendo eu o que escreve, posso apontar o tempo com o dedo indicador e dizer: é este! Dera eu ter podido ver o tempo assim quando ainda não escrevia, mas eu estava ocupado vivendo. Como ia dizendo, aquela noite a raposa caminhava, e procurava por um lugar que não sabia direito onde era. Anterior àqueles dias, se eu pudesse mostrar em imagens, veríamos traços elípticos em volta de nada, que se cruzavam e entrecruzavam, enquanto todos os dias, ela só caminhava para lá e para cá.

A pequena raposa dormia e acordava e gastava suas horas no campo que de tão esverdeado era quase amarelo, principalmente nos dias do outono. Quando se cansava de andar, subia ao topo da colina e começava a observar os outros animais em seus afazeres, caçando, fazendo buracos, demarcando territórios. Nenhum outro animal era vermelho também, o que fazia a pequena raposa aproveitar seus olhos de luz para só se alimentar à noite, enquanto os outros dormiam, para que não fosse vista. Quando jovem, caçava os pequenos roedores, coelhos e lebres, que mais lhe amedrontavam do que tinham medo dela. Foi ficando mais velha e descobrindo que algumas das flores do campo tinham um sabor e um cheiro infinitamente melhor em sua língua, e foi trocando seus velhos hábitos carnívoros por uma seletividade vegetariana. Claro que não sabia o que era ser vegetariana, era uma raposa.

Ela tinha vergonha de ser vermelha. Tinha vergonha de se alimentar das flores e ser tão diferente dos outros animais e das outras raposas de um modo tão dolorosamente natural. Tinha vergonha de ter vergonha. Ela não queria ser assim, mas não trocaria sua vida de raposa por nenhuma outra: ser é um fardo que devia ser carregado com dignidade. Havia algum tempo a raposa vinha até as redondezas de um lago, onde descobriu cavernas secretas escondidas entre uma pedra e outra. Em uma caverna em especial, ela vinha sempre que sua cauda de espécie de cão triste não queria mais subir, ou quando, em meio à caminhada, a chuva lhe pegava de surpresa. Certo dia, num desses passeios noturnos, percebeu um barquinho de madeira amarrado à margem do rio que ficava do outro lado da floresta, depois de passar os jardins e as grandes pedras cinzas. Era um barquinho que para as raposas, era de um azul descascado. Ainda me pergunto se para espécies como os seres humanos ou os escritores, o azul das raposas era o mesmo azul. A raposa olhou em volta, nada se movia, só o pequeno barquinho, se movendo microscopicamente no balançar da água turva, criando desenhos de circunferências que se ampliavam gradualmente, até sumir no azul escuro quase negro do rio. A raposa, curiosa para saber se alguém dormia dentro do pequeno barquinho, num salto raposal, mas feito um gato, entrou nele.

O barco cheirava a feno. Um cheiro que lembrava as cores das flores que mais gostava quando corria no campo em busca de comida. O barco, que parecia tão pequenininho do lado de fora, não era tão pequeno assim quando se estava dentro dele. A raposa dava passinhos de raposa dentro do barco, focinhando os restos de feno que encontrava e com o resto dos sentidos mais cheirando do que vendo. Além da estação primaveral no ar dentro do barco, nada mais se movia. Entrou numa pequena ponte de comando no meio do barquinho, aproveitando o mistério para tentar descobrir mais alguns novos cheiros, quando sentiu que o barco se movia. O barco, com seus detalhes curiosos aos olhos de uma raposa, a despeito do tamanho, mais parecia um navio em miniatura. A raposa correu para o lado de fora do compartimento e quando percebeu o barco já se encontrava no meio do rio, bem longe da margem, lentamente navegando. Ela ficou alvoroçada, como assim uma raposa no meio do rio? Correu de um lado para o outro dentro do barco, buscando um meio de fazê-lo parar e apesar da inteligência acima da média, não lhe passava pela sua cabeça de raposa o que era e qual a função de um leme. A única ideia que mais parecia uma ideia de não raposa, era esperar, e esperar, como se espera quando se quer crescer, que de tanto se medir nunca se percebe que já se cresceu um bom tanto.

Exilada no meio do rio sem conseguir enxergar quaisquer das margens a pequena raposa voltou à pequena ponte de comando e deitou no cantinho mais distante, olhando para a porta. Ficaria ali, escutando os silêncios enquanto o barco se movia lentamente, esperando para ver onde a levaria. Estava tão longe de casa que agora começava a refletir, coisa que raposa normal não sabe fazer. Deu-se conta que nunca antes havia ido tão longe. Onde quer que as águas profundas do rio que até aquele momento não tinha fim, a levassem, seria o mais longe que havia chegado em toda sua existência. De repente, uma garoa fina se tornou uma pesada chuva, que tocava sua sinfonia enquanto deslizava na madeira do barquinho. Enquanto isso, a luz da lua saiu de trás das árvores da floresta onde estava se escondendo, e a raposa conseguiu enxergar novamente seus olhos de hipnose numa poça d’água que se formava no chão. Ser uma raposa vermelha tinha suas vantagens de estar no meio da noite dentro de um barco no meio de um lago: como sua cor era bonita ali sob aquela luz! Sendo uma raposa vermelha ainda mais vermelha pela luz da lua, ela adormeceu pensando que não. E a chuva, que deixou de ser pesada para se tornar canção de ninar, continuou o seu concerto.

(continua.)

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