O conto da raposa vermelha – parte II

(leia a parte I aqui.)

Abriu seus olhinhos não entendendo aquilo que via. Bocejou lentamente e esticou todos os músculos que podia num impulso só. Onde estava? Quanto tempo havia se passado? O chão do lugar onde estava era um tanto inclinado, que precisou colocar força em suas patinhas para deixar aquele lugar. Ah sim! O barquinho! Risquinhos finos de água ainda desciam impulsionados pela gravidade até um ponto onde aquela pequenina poça havia se tornado uma grande poça. A raposa saiu do compartimento e antes que seus olhos se acostumassem à luminosidade ela só via um cinza sem fim e molhado. Ainda garoava e o barquinho havia se encrustado na areia da margem, e ali ficado preso dentre as conchinhas brancas e o amarelo do chão. Chovia. Era só o que conseguia ver. Chovia e chovia. A raposa vermelha saltou do barquinho e correu até debaixo de uma grande tenda verde a alguns passos dali.

– Bom dia, dona raposa! Qual é mesmo o seu nome?

Nome? O que era um nome? E desde quando podia entender palavras de uma foca falante? A raposa vermelha estava achando tudo muito estranho.

– Ah sim, os novatos… – disse a foca olhando por cima dos seus oclinhos como se aquilo tudo acontecesse corriqueiramente. – Você está na Terra dos Que Fazem Chover. Aqui você vai precisar de um nome. Ser só uma raposa vermelha não pode ser o que você é. Deixe me ver… Se quiser eu posso te ajudar. Sim, sim! Sou muito criativo ajudando os novos moradores da Terra. Hum… deixe me ver… – a foca andava em torno da raposa, com seus corpulentos movimentos, tentando sentir de que nome era aquele cheiro. – Hum, você tem cheiro de Goiaba! A propósito, meu nome é Peixe.

– Goiaba. Um nome. Eu nunca tive um, acho que serve. – disse a raposa enquanto refletia sobre o que significava aquilo tudo. Refletir aliás, ela refletia, se tornou uma atividade depois da noite no barquinho. Refletir e ter um nome já era um bom começo para uma raposa vermelha na Terra dos Que Fazem Chover.

– Goiaba, me diga. O que te traz aqui? Fugindo de casa, trabalho novo na horta do Senhor Alface, ou também está perdida?

– Acho que… hum… Acho que estou perdida. Mas acho que vou esperar a chuva passar e então descobrir como voltar para casa.

Peixe começou a rir inescrupulosamente. Ria enquanto seu corpo todo balançava em movimentos ritmados. Se segurava, colocando as patinhas perto da boca, o que fazia o som que ele emitia parecer um grunhido de sufocamento. – Minha cara Goiaba, não vai parar de chover. Aqui é a Terra dos Que Fazem Chover. Todos são acostumados com essa garoa e isso nos faz muito bem. Olhe em volta, quanto verde e colorido de nossas flores, nosso ar úmido e leve, nada disso existia antes d’Os Que Fazem Chover criarem esse lugar. Mas olha, não se preocupe, vou te dizer como fazer para encontrar o Senhor Alface. Ele é o mais sábio deste lugar e com certeza sabe o que deve fazer para você voltar para casa.

Todo mundo na Terra Dos Que Fazem Chover parecia feliz. Como assim, num lugar em que chovia constantemente? A raposa estava ali há poucas horas e ter de se proteger da água que caia do céu parecia uma atividade chata. Mas enquanto isso, ela percebia, todas as espécies pareciam conviver em harmonia com a chuva. Dois lagartos passavam e passeavam remando de cima de uma folha a superficial camada de água que os fazia deslizar pelas ruas. Uma borboleta passou por ele planando carregando perto de suas asas coloridas um sorriso úmido de quem era feliz por ser feliz, não por algum motivo. A raposa caminhava seguindo os apontamentos do mapa que Peixe havia lhe desenhado. Já toda encharcada da garoa, ela não mais tentava se proteger e estranhava o desconforto que não sentia como em normais dias de chuva no lugar onde morava.

O Senhor Alface era um senhor coruja, todo velho por baixo de suas penas acinzentadas. Ele tomava conta da Grande Horta que alimentava toda a Terra dos Que Fazem Chover. Ele também fora um dos primeiros habitantes da Terra. A raposa avistou de longe a Grande Horta, e como apontava o mapa desenhado por Peixe, debaixo da Pedra da Lua ela encontrou o senhor Alface deitado sob uma grande roda de madeira. Naquele momento o senhor Alface estava martelando enquanto ao seu lado um grande cano despejava água em um recipiente de pedra que lembrava um poço, que por sua vez canalizava a água que corria por tubos gigantes e alcançavam em seu comprimento mais do que a visão de raposa dela conseguia enxergar. Como se adivinhasse o momento em que sua solidão de todos os dias estava quebrada pela presença de outro ser, o Senhor Alface saiu debaixo da roda e olhou sorrindo para a raposa.

– Bom dia, o Senhor é o Senhor Alface? – disse a raposa um tanto tímida por ainda não estar habituada a dizer coisas que simplesmente saíam de sua boca e eram entendidas por outro ser.

– A pequena raposa vermelha… Então era verdade… – disse o Senhor Alface sorrindo misteriosamente.

– Ahn? O que? O se… senhor já me conhece?

– Ah não minha cara raposa! – gritou o Senhor Alface numa grande gargalhada que parecia ainda mais potente dentro daquele vozeirão de coruja velha – você eu não conhecia… mas já esperava que uma raposa vermelha viesse parar aqui na Terra. Minhas estórias nunca falham! Nunca! – continuou o Senhor Alface no que parecia uma gargalhada permanente a partir do primeiro segundo que abria sua bocarra.

– O Peixe me disse que o senhor saberia como fazer para me mandar de volta para casa.

– Para casa… pois bem… sim, sei como você poderia voltar para casa. E em algum momento isso vai ter que acontecer. Sempre acabamos no lugar de onde viemos. Mas eu tenho uma pequena desconfiança de que se você veio parar na Terra, você estava precisando dela.

– Como assim Senhor Alface? Acho que o senhor está me confundindo, foi um acidente, eu entrei naquele barquinho por curiosidade e saí de lá falando e refletindo, coisas que eu não tinha consciência de que poderia fazer. Olha só! Consciência! De onde vieram essas palavras estranhas? De repente acordei e estava aqui, e toda essa coisa de terra em que só chove, e meu nome ser Goiaba e eu realmente sentir que esse nome é familiar para mim. Não faz sentido algum. O senhor pode me explicar o que está acontecendo?

– Veja bem senhor Goiaba, não existem coincidências na Terra Dos Que Fazem Chover. É por isso que a palavra “sentido” é o passado de “sentir”. Só aquilo que podemos sentir pode fazer algum sentido, mesmo que na maior parte das vezes não saibamos explicar. Alguns chamam isso de intuição, eu prefiro pensar que a alma sabe mais da gente do que nós mesmos. Sente-se aqui, vou lhe contar o que muito provavelmente você já sabe mas ainda não sabe que sabe. Só podemos aprender nossas próprias coisas adormecidas dentro da gente. Como seu nome e essa Terra que já lhe espera a partir do dia em que passou a existir.

A raposa vermelha estava confusa, e ainda assim, a cada palavra do senhor Alface era como se ela fosse recuperando uma memória perdida. Algo podia explicar aquele sentimento que agora, ela sabia, podia chamar de saudade. Saudade de que? De quem? Ela se sentia cada vez mais perto de compreender. O senhor Alface sentado, olhava um ponto invisível à sua frente como se enxergasse o que estava contando, e por isso, Goiaba via também.

(continua).

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