O conto da raposa vermelha – parte III

(leia a parte I aqui e a parte II aqui)

Alface explicou que há muitos anos os animais conviviam no que se poderia hoje chamar de harmonia. O leão não sabia que podia se chamar rei, nem a ovelha sabia que era fisicamente frágil e que precisaria fugir do leão. Existia um sentimento de proteção que nascia com todos os seres, e dentro de seus corações eles entendiam que viviam num espaço sagrado, sem dono e sem deus, um mundo onde tudo estava disponível para todos e não havia necessidade de brigar para conquistar o seu espaço. Cada ser, desde a formiga mais insignificantemente pequena, até as flores que viviam apenas por alguns dias, eram uma manifestação da vida, e sabiam que tudo isso só fazia sentido se estivessem todos juntos, cumprindo aquilo pelo qual haviam nascido para fazer todos os seres: viver e desabrochar.

O girassol sabia que iria despetalar, mas nem por isso entregava um sorriso menor para o sol de todos os dias de sua existência. Ele sabia que deveria servir do seu pólen para a abelha, que fecundaria um novo girassol que por sua vez sorriria para o sempre novo sol de todos os dias. O girassol não pensava que a abelha lhe tirava algo, e sim que ele fornecia algo de si. Todos sabiam que era preciso entregar algo puro e valioso de si para o mundo sem pensar em receber nada em troca, e sabiam que só assim teriam direito àquela vida feliz que não precisavam pensar, porque não conheciam a infelicidade. O conceito de felicidade, se existisse, não passaria de um conceito, porque seria impossível traduzir em uma só palavra a sensação de ser pleno e desabrochar todos os dias. De que glória era feita a sensação de ser para o sol algo em que ele gastaria sua luz para iluminar e fazer crescer? Em que sonhos poderia se sentir a transcendência de existir por algum tempo e saber que esse tempo era único, precioso, exato e suficiente para que cada ser cumprisse seu papel para com a imensidão da existência?

Mas um dia, o sol que se punha sentiu que desejava um pouco daquele céu que durante a escuridão era só da lua. A luz de sua imponente grandeza ofuscava a luz das milhares de estrelas com quem a lua dividia seu céu, e sem saber disso, o sol quis ser aquilo que não era, e colocou uma coroa em sua própria cabeça, e se chamou de o Sol. Naquela madrugada, após o amanhecer que parecia o mesmo de todos os outros dias, o leão percebeu que era mais forte, rápido e feroz que os outros animais. Percebeu que ao som do seu rugido ensurdecedor os outros animais se curvariam para ele e o chamariam de rei. Assim, ele decidiu colocar uma coroa sobre sua própria cabeça, e se chamou de o Leão. A abelha descobriu que podia ferroar, e diante de qualquer aproximação, usaria sua arma para causar dor ao ser que demonstrasse avançar nas flores que mais cobiçava. Seu mel, a partir daquele dia, perdeu o sabor que tinha, e assim, ela colocou sobre sua pequena cabeça, a coroa, e se chamou de a Abelha. A cascavel descobriu que o som que podia produzir com sua cauda poderia ser condicionado à dor e morte causada pelo seu veneno. A partir de agora, os outros grandes animais iriam temer as cascavéis e assim ela teria sua coroa, a Cascavel.

Assim, os seres trocaram aquela vida plena e feliz pela sensação de ter uma coroa sobre suas cabeças. Eles acreditavam piamente que a tinham. Inventaram um deus que lhes havia providenciado essa soberania, e esse deus seria a justificativa para todo tipo de destruição que causariam a si mesmos e ao mundo. Cada ser, do seu ponto de vista, acreditava que era algum tipo de escolhido. Se esqueceram que não havia um escolhido, porque todos estavam ali e eram escolhidos. A coroa era uma ilusão que de tanto alimentada, se tornou verdade e foi uma não-verdade reproduzida por centenas de gerações. Havia muitos reis para poucos súditos, mas ninguém percebera isso. Assim, cada ser, usando da superioridade sagrada que cada um tinha sobre uma característica própria, isolaram-se em seus castelos de terra, areia, madeira e grama, como reis e rainhas presos em seus próprios palácios. Os poucos que nasciam filhos da liberdade, e que queriam sair e conhecer o mundo, nunca retornavam. O mundo havia se tornado um lugar impossível de ser livre. Havia se tornado um lugar impossível para ser.

Até que, em algum momento muito tempo depois, a Leoa, carregando o filho do Leão em seu corpo, correndo atrás de sua caça, ao saltar de um grande caule incrustado em uma pedra por força do tempo e da natureza, deu à luz seu filho acidentalmente, morrendo minutos depois com um graveto invisível cravado em seu coração. O pequeno filhote de leão passou algumas horas ali, até que foi encontrado pelo pai ovelha, que por instinto, levou o pequeno animal indefeso e irreconhecível para sua cabana, onde junto de seus outros filhos, tomou conta e o criou como se fosse seu. Seu nome agora era Ovelha.

A Ovelha carregou em seu peito a dor de não caber e ser diferente em um mundo que penalizava as diferenças. Era alvo do despeito das outras ovelhas e nunca se sentiu pertencendo àquele e nem a lugar algum, mas acreditava que estava fadada a ser assim, era essa a sua vida. A vida que deus havia lhe dado, a vida que por algum motivo cósmico, merecia e teria de suportar até que o sol não mais nascesse no horizonte. Resignadamente aceitava e crescia junto de seus irmãos, se sentindo inferior, feia e sozinha.

Por muito tempo ela tentou participar dos trabalhos junto dos seus irmãos, quando o velho senhor ovelha os faziam aceitá-la. Até que o velho pai partira desse mundo e a Ovelha foi completamente ignorada já que, para seus irmãos, sua feiura e excentricidade espantava as outras ovelhas. Após a morte do velho senhor ovelha, ela havia crescido muito mais que seus irmãos, de modo que caso eles resolvessem aceitá-la junto deles, então seriam eles isolados pelas outras ovelhas, por terem em seu grupo alguém tão estranho. Antes uma ovelha sozinha, do que eles todos. Seus irmãos que a carregavam por pena diante da presença do pai, passaram a nem pena mais sentir, e deixá-la entregue aos trabalhos que não fossem “coisas de ovelha normal”.

Um dia a Ovelha acordou muito cedo, como fazia todos os dias e ali ficava, esperando o tempo passar, sozinha. Dessa vez ela saiu sem que ninguém a visse e subiu a pedra cinza. Já no topo, assistiu em silêncio o nascer do sol. Observando a lenta aparição da bola de fogo sagrada no horizonte, ela pensou que nada podia ser realmente. Era insignificante diante da magnificência de um astro como aquele. O sol surgia e iluminava tudo enquanto os animais adormecidos se espreguiçavam de seus imponentes lares construídos com força e presunção. E ela ali, uma pedra sobre a outra pedra. Um ser que vinha de um provável erro de deus. Sentindo pela primeira vez o calor do sol avermelhar sua face, uma lágrima desceu o rosto da Ovelha e ela acabava de descobrir o que era chorar. Desceu a pedra lentamente, olhando suas patas marrons feias em comparação com os brancos pelos das outras ovelhas. Podia sentir a feiura vivendo em seu corpo e agarrada a ele como uma doença incurável que teria de suportar. Caminhou pela margem do lago até o máximo que podia ir sem ser presa fácil dos predadores, e só queria desaparecer dali, do mundo e da vida. Parou. Olhou em volta, nenhum sinal indicava que os outros animais haviam começado seu dia. Então a Ovelha olhou seu reflexo na água, e descobriu que era um Leão.

(continua.)

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