O conto da raposa vermelha – parte IV

(leia a parte I aqui, a parte II aqui e a parte III aqui)

O espelho d’água não podia mentir. Era mesmo um Leão. A Ovelha custou a acreditar. Tanto custou que nos primeiros dias não contou a ninguém sobre a sua descoberta. Se perguntava, como os outros nunca perceberam o que ela era, se conviveram com ela por tantos anos? Mas como ela percebeu dias depois, agora sabendo muito mais de si mesma, os outros estavam cegos pela banalidade cruel de uma existência simplesmente sendo, sem seus próprios espelho d’água. Se não conseguiam ver nem o que estava diante deles, como poderiam saber eles de si próprios?

Todo esse tempo passado vivendo sob a imagem de ser a Ovelha havia moldado seu ser internamente. Numa imaginou que diante dessa descoberta, poderia ser agora predadora e não caça. Achando que era feia simplesmente porque os outros a viam como diferente, a fez amargar a mais profunda das solidões. Mas também, todo esse tempo sozinha mesmo no meio de todos os outros, havia lhe dado a capacidade de saber mais de si que os outros. Foi descobrindo sobre si em meio à dor e ao desprezo dos demais, a cada eterno dia, não sem um grande sofrimento. E quanto mais estações vivia, mais tinha certeza de que seu lugar não era aquele. No entanto, ela desacreditava que pudesse haver um lugar melhor cujo qual verdadeiramente reconhecesse como sua casa. Os dias ainda continuavam eternos, e a espera de nada era mais eterna ainda. Tarefa árdua essa de se gastar a vida quando se está perdido. Mas agora, secretamente passava as tardes correndo como nunca imaginara que pudesse, sentindo o vento bagunçar e espalhar a sua juba, a cada par de movimento de suas patas, para um lado diferente. Experimentava pela primeira vez o real sentimento da liberdade. E tinha gostado.

Naquele ano, as Ovelhas tiveram um inverno dos mais rigorosos, mas sob o rico pelo que lhes cobria o corpo, elas estavam protegidas do frio. A Ovelha, que descobrira ser um Leão, não conseguia mais esconder o desconforto de não seguir os seus instintos. Mas agora ele, já Leão, sabia que se corresse diante dos seus irmãos, em poucos minutos chamaria toda a atenção para si, e todos saberiam que não era uma ovelha. Além de imaginarem que poderia se tornar o seu jantar: o que era uma ideia inconcebível para ele. Mas guardar a sensação de ser livre para apenas alguns momentos da sua tarde já não era mais suficiente. Queria ser. Ser em tempo integral. Então o Leão decidiu que precisava encontrar os seus, e naquele mesmo dia, sob o alaranjado do céu, se despediu de seu rebanho sem olhar para trás. Ninguém percebeu

Correu por dias e dias, se alimentando do que encontrasse. Seguiu em direção a leste até que após sete dias observou longe uma alcateia de leões. Eles se espalhavam em grupos de três ou quatro pela extensa planície coberta por uma grama alta e amarelada. O Leão os observava todos os dias, e tentava replicar o que seria a vida de um leão que ele ainda não sabia ser. Passado o sentimento de novidade dos primeiros dias ele percebeu que entre os leões o mesmo que acontecia com os seus irmãos eram também verdade, mas a seu modo: não importava se ali todos eram igualmente leões. A cada segundo da vida de um leão eles tentavam provar que eram uns mais fortes que os outros, ou que eram mais rápidos, ou que rugiam mais alto. Até mesmo na maneira de andar, existia uma arrogância de majestade leonina, seja para se mostrar melhores que os outros ou para conquistar as leoas mais cobiçadas. Ninguém ali se importava que com aquela rapidez, força e rugidos, todos eles podiam experimentar uma sensação de liberdade nunca imaginada pelas ovelhas e nem pela maioria dos animais, e nem que juntos eles poderiam ser ainda mais fortes. Duelavam e se machucavam quando havia algo pelo qual precisavam lutar: comida, fêmeas, o melhor lugar no campo. A violência dispensava qualquer outra qualidade que não lhes trouxesse uma vitória.

Decepcionado, o Leão continuou sua corrida em busca de uma terra que pudesse chamar de lar. Caminhou por oito estações, de inverno a inverno, observando os outros animais, enquanto crescia e sentia sua força e velocidade aumentarem com o tempo. Tinha passado por dezenas de espécies, as mais diferentes, cada qual com uma qualidade que poderia ser invejada por qualquer outra espécie. Todos, sem exceção, tinham algo de especial. Mas o Leão não conseguia entender como eles não percebiam isso, como desperdiçavam suas vidas com banalidades as quais realmente acreditavam serem algo de grande valor para eles, quando na verdade, diante da vida, aquilo não significava nada e não era nada em essência. Até que na nona estação, quando se encontrava em um vale enfeitado por muitas espécies de flores que continham todas as cores do mundo, o Leão, já cansado de todo um dia de caminhada e observação, decidiu descansar. Encontrou ali uma caverna secreta escondida entre uma pedra e outra, de onde podia assistir e contemplar como nenhum outro animal já havia feito antes, um pôr-do-sol que arrastava com ele e seus tons alaranjados toda a luz do dia, deixando aquela paisagem iluminada apenas com os milhares de vagalumes por toda a sua volta. Além dos cantos das cigarras, o silêncio era total. O ser que ousasse quebrar o silêncio, não mereceria estar vivo.

Ali, inspirado pelo brilho dos vagalumes, o Leão adormeceu, foi quando tudo aconteceu. Sonhou que estava em uma enorme planície cortada por um longo riacho, e havia um pequeno ponto cinza lá longe, que quanto mais ele olhava, mais se aproximava dele. O ponto foi chegando mais perto até que o Leão reconheceu-o como uma pequena nuvenzinha cinza. Essa pequena nuvem chegou muito perto, flutuando como uma bolinha de algodão no espaço. Se não estivesse em um lugar extraordinariamente bonito em sua paisagem, não acreditaria que aquilo estivesse realmente acontecendo. A nuvem chegou tão perto que o Leão se levantou, e começou a rondá-la, tentando desvendar, por um dos lados de seu formato enigmático, o que era aquilo.

Até que num rompante só a montanha de pedra às suas costas se levantou, dando forma a um imenso leão de pedra. Esse era uma esfinge leonina que agachada e encolhida com a cabeça entre as patas, se escondida sob o formato daquela montanha. O leão-esfinge olhou para ele fixamente, e a exemplo do que o próprio Leão estava fazendo em torno da pequena nuvem, que continuava ali, começou a andar pesadamente em torno dele, em sentido oposto ao Leão em torno da nuvem, fazendo, a cada passo, toda a terra ao redor estremecer. O Leão se sentiu capturado por aquele olhar, e agora não mais olhando a nuvenzinha, girava em torno de si mesmo, mantendo seus olhos fixos nos olhos do leão de pedra. Até que uma voz leonina soou muito alto, mesmo que os lábios da esfinge não se mexessem, e ele ouviu:

– Me dê algo de ti, e te darei tudo de mim.

O Leão não entendia o que devia fazer e continuava, lenta e redundantemente girando e mantendo seus olhos fixos no leão de pedra, ouvindo a voz que repetia:

– Me dê algo de ti, e te darei tudo de mim.

O Leão voltou a olhar para a nuvenzinha, e assim que seus olhos tocaram a sua superfície, a nuvem passou a derramar água, primeiramente gotas e mais gotas transparentes, até que a enxurrada começou a imergir da nuvem e molhar as patas do Leão. A esfinge continuava a girar pesadamente e repetindo sem parar, a cada minuto:

– Me dê algo de ti, e te darei tudo de mim.

Isso continuou se repetindo por algum tempo. O Leão olhava para a nuvem e olhava para a esfinge, que girava e girava, sem conseguir entender. E a água que antes só molhava suas patas começou a subir, lentamente, até que o Leão precisou quase se erguer completamente sobre suas patas traseiras, para continuar vendo a nuvem e a esfinge que se movia ao seu redor, agitando a água e tornando o equilíbrio ali quase insustentável.

Então aconteceu a catarse. Toda aquela água ao seu redor, a sensação de agonia de estar se afogando, começaram a lembrar todos os sentimentos sufocados dentro dele. O desprezo de seus irmãos e de deus. A vida pequena, pesada e horrível de se sentir uma ovelha feia, anormal e insignificante. A água subia e quanto mais ele tentava se esquivar dela, a voz da esfinge repetia “Me dê algo de ti, e te darei tudo de mim” e se misturava com as centenas de memórias, dores, refugos de sentimentos que entupiam seu ser e ele nem lembrava que ainda estavam ali. A falta de proteção depois de perder seu pai. O julgamento das outras ovelhas que nem o conheciam e já faziam questão de lembrá-lo a todo momento que ele era menos. Lembrou de todos os seres do mundo que havia encontrado em seu caminho durante as oito estações. Toda a vaidade. Toda a crueldade. Toda a banalidade. Até que um raio de sabedoria sem igual atingiu em cheio o coração do Leão. Ele viu tudo o que viu e podia ver a si mesmo diante de todas aquelas situações e acontecimentos. Ele podia ver o tempo passando e podia sentir as estações se repetindo uma após a outra, mudando tudo à volta de suas memórias, enquanto a água já acima do suportável começava a lhe afogar, e a esfinge dizendo “Me dê algo de ti, e te darei tudo de mim”. Então ele disse à esfinge:

– Lhe dou o que eu tenho de mais precioso em mim. De tudo o que eu sempre tive, a única coisa que realmente me mostrou quem eu poderia ser e quem eu verdadeiramente sou. Lhe dou a minha Paciência.

Ao soar essas palavras, a esfinge parou de girar, e a água retornou rapidamente para dentro da pequena nuvenzinha. A esfinge tornou a olhar diretamente nos grandes olhos brilhantes do Leão e lhe disse:

– A ilusão da coroa se quebra. A Terra dos Que Fazem Chover é sua e de todos que a merecerem. Por tudo que deres ao mundo, é quanto terás desse mundo. Tudo que sentir é só seu, e tudo que se sente é o ouro que ninguém pode roubar. Essa é a minha sentença.

Assustado, o Leão acordou do sonho de sobressalto. Era um dia cinza e garoava levemente. Sem sinal das cigarras e dos vagalumes, só as flores continuavam a compor o mesmo cenário esplendoroso do dia anterior. E o silêncio fora substituído pelo som da garoa que caía mansamente. Enquanto ele caminhava, o som da garoa parecia aumentar enquanto ele via a chuva cair sempre na mesma intensidade. Curioso, o Leão saiu da caverna, seguindo o ruído que crescia até que visualizou uma nascente de onde um pequeno jorro de água nascia. Era dali daquela mesma montanha, sob alguns galhos floridos que junto com o som das cigarras ficaram ocultos na noite anterior. O Leão foi chegando perto, e vendo de onde saía o pequeno jorro de água, foi seguindo-o com os olhos, até que o pequeno filete se abriu em um imenso riacho às suas costas.

Era um riacho que cortava uma enorme planície, ali do outro lado da montanha. O Leão ficou maravilhado. A paisagem era inconfundivelmente a mesma do sonho que tivera na noite anterior, e não havia mais ninguém ali. Ele era o primeiro e de modo inexplicável reconheceu onde estava desde o primeiro segundo em que avistou aquela paisagem. De algum modo, a paciência de toda uma vida tinha lhe presenteado com algo maior do que ele mesmo: o Leão havia chegado na Terra dos Que Fazem Chover.

(continua.)

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