Criado mudo

O menino olhava por entre as pernas da mãe que se mexiam, inconscientemente, para lá e para cá enquanto eles aguardavam o ônibus chegar. O palhaço parecia um mágico! Soprava os balões que se transformavam de longos bastões de ar em coelhinhos, cãezinhos, gatinhos, numa velocidade mágica espantosa. Lindos os animais depois de transformados! Nem pareciam feitos de bexiga e ar.

O menino e a mãe, em silêncio na vida durante a maior parte do tempo, tinham uma conexão que só faltaria ser umbilical para ser completa. Essa, se desmanchara sete anos atrás, mas a conexão continuava ali. O menino que sentia, mas não sabia o que sentia naquele mundo. E a mãe que sentia, mas achava que o que sentia era, de fato, como deveria ser o mundo. E pronto.

Olhando o palhaço rodeado de crianças alegres, o menino tentava se esconder atrás da perna da sua mãe, de segundos em segundos, como se não ver pudesse reprimir o desejo de ter um animalzinho de balão daqueles, e confiante de que olhando só de vez em quando, a mãe não interpretaria aquela ação como a de um menino mal-criado que pedia para a mãe comprar tudo o que via. Até que em um instante, acabando com toda a sua estratégia, a mãe lhe perguntou:

– Junior, você quer um balão daqueles?

O menino sabia que não podia querer. Querer aliás era coisa errada. Ele deveria se contentar com o que tinha. Mas demorou tanto tempo para formular uma resposta que não envolvesse mentir para sua mãe (mentir também era coisa de menino mal-criado, e se mentisse para uma mãe o agravante acarretaria no fato de perder o convite de Deus para um dia morar no céu com a vovó) que sua mãe lhe disse em seguida:

– Olha, fique aqui com a tia Vani cuidando destas sacolas que eu vou ali e já volto.

Esconder alegria de mãe também devia de ser um pecado dos bem grandes. Sem esforço, Junior sorriu. Enquanto imaginava as brincadeiras que poderia fazer com aquele animalzinho mágico que tinha o poder de, nas mãos do palhaço, se transformar em qualquer coisa, a mãe já voltava com um balão em formato de alguma coisa em cada mão. Ela chegou e colocou um deles encaixado sobre a cabeça do menino. Era uma coroa! Enquanto o balão roçava sua orelha ele sentiu um arrepio gostoso seguido de um barulho engraçado. Os sons do mundo eram todos novos com aquela coroa. Ou outro balão lembrava Fofinho, seu primeiro cãozinho que fora roubado havia pouco tempo. A mãe contava as moedas e colocava na bolsinha dentro da sua outra bolsa grande. “Olha, ainda sobraram várias moedinhas, podemos comer um pastel amanhã, Junior.” Ou seja, semanas das boas e raras.

O menino ainda não sabia o que era ser pobre, mas ouviria dos outros por muitos anos que sonhar não era para gente como ele. Assistindo a mãe contar as moedinhas sob o som da coroa de balão e um Fofinho nas mãos, ele sentiu vontade de chorar mas não sabia bem por que. Ele e a mãe ainda permaneceriam em um gelado silêncio que ecoava de dentro de sua casa, e por muito tempo ainda não entenderiam porque a vida tinha que ser assim. A coroa murcharia em três dias. O Fofinho feito de ar estouraria no dia seguinte, quando sem querer, o menino o deixaria cair na grama pontiaguda. Mas o que existia entre ele e a mãe era como o ar que preenchia os mágicos balões do palhaço: estaria por toda parte, onde quer que eles estivessem no mundo.

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