Estranho no Espelho

Mário acordou de madrugada com medo do escuro. Que sensação esquisita, nunca fui de ter medo do escuro, pensou. Tateou em busca dos óculos, calçou os chinelos com os próprios pés que pareciam enxergar na penumbra e acendeu a luz. O quarto parecia um lugar novamente prazeroso e nada assustador. A máquina de escrever imóvel no seu canto, os livros nas prateleiras, sua mesa carregada de cadernos e canetas e tudo o mais que ele utilizava todos os dias. Virou de costas para sua cama e olhou no espelho. Ali estava ele. E dentro dos seus olhos, no reflexo da pupila, ele se viu. Não era ele. Pelo menos não esse ele de cabelos castanhos encaracolados. O que era ele? Era alguém que conheceu há muito tempo, e que pelas circunstâncias, esquecera de falar consigo de novo. E foi se esquecendo, até que esqueceu a fisionomia real que tinha, a cor dos seus verdadeiros olhos, o tamanho dos seus sonhos, a densidade dos seus sentimentos e vontades.

O medo que havia lhe acometido há pouco era um medo trazido pela memória já fria de tanto tempo. A lembrança de quem era e que não era mais o assustava, como um fantasma de lençol assusta a uma criança. Esquecer de si mesmo era a pior coisa que já lhe havia acontecido. De perto, dez minutos depois de toda uma profunda observação reflexiva, ele já não parecia tão assustador. Ele viu que aquele ele podia chorar de tão triste, mas o ser triste ali não significava algo ruim. O eu real é naturalmente triste, porque a realidade é triste. E essa tristeza tinha algo de bonito, porque ela vinha da percepção de que nada dura para sempre. Nem mesmo ele, e isso era triste. Mas enquanto tivesse consciência do seu eu, da tristeza faria imergir todo um colossal sonho feito de realidade, feito do desejo da sua alma colocado em prática.

Feliz por ter entendido a real face da tristeza, apagou a luz, retirou os chinelos, sentou-se por um tempo e depois se deitou na cama. Enquanto cobria seu corpo sentia cada centímetro físico da sua existência e se sentia feliz. Olhava para o teto sem nada enxergar e se lembrava do seu eu dentro da pupila, no espelho. De saber que era triste esse eu até parecia mais feliz que ele mesmo. Como era bom esse sentimento! Queria eterniza-lo para a manhã seguinte e todos os outros dias. Um sentimento de que a morte parecia pequena diante da imensidão do ser nesta vida. Bastaria se lembrar e saberia o que fazer, como agir, como viver. Ali estava o segredo de toda uma existência no escuro, enfim, revelado. Que sorte a dele.

Aos poucos os pensamentos pareciam desaparecer no complexo do ar do sono pelo seu quarto. Quando se está com sono, entre o cá e o lá, pensamentos são fluxos de ideias ininterruptos, que enchem a cabeça e quanto mais você pensa sobre não pensar neles, mais eles se entrelaçam em camadas e camadas de profundidade. Precisava puxar do emaranhado uma pontinha de um pensamento e ir acompanhando-o, tentando entender para onde ele queria levar. Uma piscada mais demorada e pareceria terem ido embora camadas e mais camadas como se nunca tivessem existido. Uma falácia, claro. Eles se escondem e se empoleiram nas gavetas da memória e voltam de repente sem nem ao menos serem chamados. Alguns desses fluxos vão dar no que é a maior escuridão da gente. Ali eu vou só até a porta e raramente tenho coragem de olhar. Permeando essa porta estão todas as coisas que escrevo. Elas são o mais próximo da verdade que meu eu me permite ver sem atravessar aquela porta. Eu poderia atravessar essa porta de uma vez, e ver tudo que existe lá, mas eu tenho uma profunda impressão de que morreria se o fizesse. Então não faço, vou tateando no escuro e buscando não mentir para mim mesmo aquilo que já sei, enquanto tento atingir a verdade estando vivo. Uma tarefa dura, cansativa e que leva uma existência toda.

Exausto, Mário desistiu inconscientemente de tentar lembrar e dormiu. Voltou para o profundo dos sonhos para no outro dia acordar para a vida. Na vida, cumprindo com tudo o que seu eu não faria se tivesse escolha, ele se esqueceu.

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