O conto da raposa vermelha – Parte V (Final)

A neblina entrava pelas frestas e deixava tudo cinza neon. A raposa tinha acabado de abrir seus olhinhos e identificar onde estava. Quanto tempo havia se passado dormindo dentro do barquinho? Como fora parar ali? A última lembrança que tinha era a conversa com o Sr. Alface e ter compreendido como a Terra dos Que Fazem Chover foi descoberta. Agora estava ali dentro do barquinho novamente. Será que estava perto da tenda verde do Peixe, onde havia deixado seu barquinho da última vez? Caminhou preguiçosamente para fora do compartimento e qual não foi seu espanto ao perceber que se encontrava novamente na margem do rio, do outro lado da floresta, de onde partira.

Saltou do barquinho azul descascado e olhou para o horizonte além do rio cerrando os olhos com delicadeza. O barquinho continuava amarrado à margem como da última vez, e o rio ainda lhe parecia infinito. Teria sido tudo um sonho que lhe aconteceu enquanto dormia dentro do barquinho? A raposa vermelha parou ali, deitou com o focinho encostando no chão, fitando o infinito horizonte, quando uma folha seca voou lentamente até cair bem na sua frente. Ao ver a folha seca, involuntariamente colocou sua patinha sobre ela e ouviu um “créc”, transformando a folha em pó. Ao som da folha seca se desmantelando na natureza, a raposa se lembrou da Terra dos Que Fazem Chover.

Provavelmente, pensou, ao ouvir a história contada pelo Senhor Alface de como a Terra dos Que Fazem Chover foi descoberta pela Ovelha que descobriu ser um Leão, ela havia adormecido e foi levada para o barquinho que lhe trouxe de volta à sua casa. Ou então, tudo aquilo se passou apenas dentro da sua cabecinha, o que parecia muito mais provável diante da impossibilidade de tudo que havia lhe acontecido. Contudo, aquela história ecoava desdobramentos mil em sua mente, cheios de significados. Assim que a neblina foi sumindo, a raposa se pôs a caminhar. Tudo estava igual, e ela continuava sendo só uma raposa. Na realidade, nem parecia que o tempo havia realmente passado.

Enquanto a raposa caminhava, uma forte rajada de vento bagunçou seu pelo vermelho mas ela não saiu do seu passo lento e contínuo. Apenas ergueu a cabecinha contra o vento e continuou firmemente olhando para frente. Sentiu as primeiras e fortes gotas de chuva caírem, primeiro na sua patinha direita, depois sobre as suas costas, e continuou caminhando como se não olhasse nada e ao mesmo tempo pudesse sentir a grandeza do mundo inteiro. As gotas foram ficando cada vez mais intensas e desciam em grupinhos de gotas d’água que começaram a deixar seu pelo vermelho todo pesado. Era o peso do mundo ao qual ela não mais queria ceder. De repente a chuva ficou tão forte, que noutros tempos, a raposa sairia correndo para se proteger da tempestade.

Mas não, daquela vez era diferente. Daquela vez ela estava diferente. A chuva continuava a mesma, veloz e gelada, mas agora ela não se amedrontava mais. Sabia que precisava dar algo de si para se sentir parte de alguma coisa. Fugir da chuva, depois de tudo o que viu, seria no mínimo incoerente. A forte chuva chegou ao ápice do adensamento e começou a retroceder. A raposa continuava caminhando lentamente. Até que aos poucos a chuva foi cessando e minutos depois cessou completamente. A raposa vermelha chegou à grande pedra cinza exatamente no momento em que a chuva terminou de cair. Sentia o cheiro do ar fresco e limpo entrando pelo seu focinho. Era um gosto de liberdade como a juba balançando enquanto o Leão corria pelo campo. Um gosto de liberdade como as borboletas sorrindo sob a chuva na Terra dos Que Fazem Chover. Um gosto de liberdade como uma raposa que deixara por um dia de ser uma raposa para refletir. Foi quando eu acordei.

E você me pergunta o que vai acontecer? Eu bem disse que podia apontar o tempo com o dedo, mas nunca disse que a espécie à qual pertenço – essa espécie dos que sentem demais, assim como você, se está lendo isso – poderia escolher o destino de algo ou alguém. Apenas posso contar o que eu vi. Ou pelo menos é nisso que eu tento acreditar enquanto aqui estou. Sinto o peso daquele mundo em minhas costas porque não consigo diferenciar o sonho da vida. Mas só quem sente o peso poderia sentir a grandeza do que quer que seja. Nesse momento sou eu quem deveria decidir o destino da raposa vermelha, mas sinto muito que eu não possa. Me sinto como um deus que ficou cansado. Eu, que sou mesmo incapaz de salvar ao mundo que eu mesmo inventei, como poderia fazer alguma coisa do meu destino?

Quando me trouxeram para cá, eu não podia entender o que estava acontecendo. Me fizeram acreditar que sonhar era loucura e eu, dos meus sonhos, fiquei assim, imobilizado. Não imobilizado como aquelas pessoas que não podem andar ou algo do gênero, mas muito pior. Imobilizado como alguém que foi proibido de sonhar. Imobilizado porque me fizeram acreditar que o mundo que eu estava tinha donos muito claros, e eu não era um deles. Porque mesmo se eu perdesse todos os meus membros, se pudesse sonhar, meu mundo teria algum jeito. Por isso estou enclausurado aqui e, só agora, vejo que a melhor e mais verdadeira fuga será para dentro de mim mesmo.

Eu não quero ser Eu. Quero ser eu. Não vejo beleza alguma em ter que existir um Ele quando temos tantos eles para cuidar e para cuidarem da gente. Não importa se somos sóis, leões, abelhas ou cascavéis. Talvez a vida seja apenas nosso barco azul descascado amarrado na existência, e só conseguimos alcançar alguma elevação se inventamos o sonho que ninguém tem coragem de inventar. Ninguém tem que suportar a vida por motivos cósmicos, e viver e desabrochar já é uma tarefa bem difícil. O mundo é um lugar impossível para ser, por isso eu preciso ser em outro lugar.

Anos atrás ainda vinham me fazer visitas, e confesso que apesar de me sentir melhor comigo mesmo, em vários momentos eu faria tudo para ter contato com outro alguém. Quem gosta de ficar sozinho? Mas isso nunca foi possível. Alguém é algo só. Assim como a raposa, eu também nunca havia ido tão longe de casa. Me fiz em lagartos, borboletas, abelhas, cascavéis, leões e ovelhas. Queria vê-los refletir. Hoje sou eu que quero me voltar à simplicidade instintiva e animalesca que habita uma caverna secreta em mim. Chegar em um lugar que só a palavra consegue morar e ver lá dentro. Ver com todos os olhos que possuo, e tenho tantos que vejo demais mesmo quando não posso fazer nada.

Bem sei que a raposa voltou outra da sua viagem. Ela viu tanto que fará do seu caminho um outro e nunca ninguém saberá. O amor é o sacrifício que ninguém vê, e só o entende quem já o sentiu algum dia. Mas ao mesmo tempo o amor não foi suficiente para salvar meu mundo. Nunca é. Ou talvez eu nunca tenha visto nem sentido o amor. O mundo está doente e nem raposa nem leões têm a capacidade de, sozinhos, curarem alguma coisa. A vida é inexplicável como as estrelas pendendo do céu. E eu, quero o sabor do meu mel intacto, ainda que poucos possam sentir o gosto que ele tem. Meus olhos de luz não conseguem enxergar muito longe, mas essa espécie dos que sentem demais precisa, pelo menos, tentar ser livre, mesmo que o custo disso seja nunca voltar para casa.

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