O dia

Walter acordou com uma impressão estranha aquele dia. Como se a partir daquele dia tudo fosse renascer. E assim foi, mas ele só saberia muitos e muitos anos depois. Trabalhou braçal e mecanicamente, tinha tirado os dias para organizar os papéis daquele escritório lotado no qual era estagiário. Com quinze anos, a maioria das pessoas daquela cidade e naquela condição financeira, não dispunha de um emprego como aquele. Não era nem de longe aquilo que havia desejado para sua vida toda, mas havia a liberdade de poder ter as coisas que queria, o que naquele tempo não passava de livros e um computador em que pudesse escrever, mesmo que sem saber direito para que e para quem.

Oito horas de trabalho completas, ele deixava, todos os dias, sistematicamente, que os ponteiros ultrapassassem mais um quarto de hora. Assim sua consciência poderia lhe dizer que era sempre o primeiro a chegar e o último sair, e que então, era merecedor do que quer que fosse. Então ele colocava seus fones no ouvido e saia em direção à estação de metrô. Congestionada às seis e meia da tarde, ele sequer podia perceber o movimento na estação. Ouvindo música no volume mais alto possível, ele ia viajando por dentro de lembranças ou esperanças sugeridas pelas letras das canções, ou pelo que ele entendia delas quando tocavam em inglês e ele não compreendia. Naquele dia, ele optou por ouvir aleatoriamente. Às vezes ele fazia isso, porque gostava de se espantar com canções velhas e adormecidas que repousavam longe do que seus dedos podiam escolher.

Foi assim, naquele dia que ouviu aquela música. Já tinha a ouvido tantas vezes que até esquecera que ela ainda estava ali. E ouvindo e cochichando a letra em sua voz imaginária, uma catarse aconteceu. Aquela música nada tinha de especial, era só mais uma dentre várias músicas que gostava mas que com o tempo iam sendo mastigadas e mastigadas até perder a cor e o gosto e ele trocava como quem desembala outro chiclete. Mas daquela vez, para seu espanto, foi diferente. Walter ouvia e esquecia da vida à sua volta. E tudo lhe fazia lembrar aquele momento, cinco anos antes, quando numa bobagem que nem ele se lembrava o motivo, discutiu com seu amigo Martim e numa fúria que não tinha respaldo em nada na sua personalidade, o expulsou de sua casa, rindo com seus outros amigos.

O que foi aquilo? Por que? Naquele momento Martim não significava nada. Simplesmente influenciado por seus amigos que implicaram com Martim por qualquer bobagem e rindo-se dele o expulsaram de sua casa como quem expulsa um vira-latas só porque a sua efêmera presença por perto incomodava. Não tinha explicação, agora percebia, tinha sido apenas idiota. Idiota a ponto de não perceber que aquela pessoa gostava dele como ele era, e esse ele não era aquele ali. Agora, rodeado de amigos das mais variadas espécies de idiotas, ele havia se tornado um idiota também. Achava que aquilo significava estar se transformando num adolescente e amadurecendo até que pudesse se dizer adulto. Achava que aquilo era só a sua personalidade se sobressaindo. Quando o que ele realmente era, na sua essência, ele já era desde quando era criança. O Walter que pintava e utilizava as cores como que se nelas estivessem todos os seus mais profundos sentimentos. Aquele era o verdadeiro Walter. O verdadeiro que nem ele mesmo ainda conhecia, e que só iria entender um pouco de si quando reconhecesse.

Martim foi embora humilhado. Ele podia não perder muito tempo refletindo sobre as coisas que sentia, mas acreditava que Walter era, pelo menos, seu amigo. Ao que tudo parecia, isso havia sido aquele tempo todo uma via de mão única. Naquele momento, e em milhares de momentos depois daquele, Walter sequer havia pensado sobre se tinha causado dor ou qualquer tipo de desconforto a alguém. Até esse dia. Ouvir aquela música lhe fez voltar quatro anos no tempo e perceber que agora, todos aqueles que lhe acompanhavam naquele momento, haviam passado, se tornado nada além de lembranças de uma pré-adolescência que lhe era indiferente, porque ali nem ele mesmo ele era. Agora sozinho ele percebia. Então Walter fez uma aposta consigo mesmo. Se descendo a rua que dava da estação de metrô até sua casa, e naquela rua encontrasse Martim, o chamaria para conversar. Uma aposta que estava internamente em conflito. Parte dele desejava que aquela bobagem acabasse assim que ele passasse pela rua vazia e adentrasse o portão da sua casa. E pronto, aquele dia seria mais um dia como todos os outros.

Walter desceu do metrô e colocou o capuz de sua blusa na cabeça. Adorava o sentimento de ser anônimo entre as pessoas. O capuz escondia parte do seu rosto, e o som alto nos fones de ouvido lhe dava subsídio para ignorar quem quer que lhe chamasse. Mas para seu espanto, assim que desceu a rua, a cem metros do portão de sua casa, estava Martim. Ele estava sentado naquela enorme escadaria de concreto que mais parecia uma arquibancada de frente para o palco dos carros em alta velocidade. Vestido como quem cansado durante o dia, dormira, acabara de acordar e tivesse ido para a rua respirar o ar da noite, Martim olhava para baixo e brincava mecanicamente com três pedrinhas, sentado na escada. Mesmo sem fones de ouvido ele também estava isolado do mundo à sua volta.

Martim nunca tivera uma família que pudesse chamar de família. Numa desestruturação que naquela cidade não era mais do que comum, reconhecia seu pai como um alguém que só trabalhava e destruía suas mãos lixando e pintando carros, mas ainda assim um pai. Não podia dizer o mesmo de sua mãe. Separados desde que ainda era um menino, Martim a via muito pouco, e carregava a lembrança de uma mulher que falava gritando e com raiva nos olhos, lhe batia praticamente todos os dias pelos motivos mais corriqueiros, e tinha dito, durante uma discussão qualquer com seu pai, “eu não tenho filhos”. Era o que eles tinham em comum quando ele sentia “eu não tenho mãe”.

O ar quente do verão fazia a testa de Walter suar quando percebeu que Martim sentado na escada. Os dois sem saber que estavam prestes a curvar uma estrada no destino que mudaria o curso de suas vidas. Nos segundos que antecederam a chegada de Walter perto da escada, lhe passou pela cabeça todos os tipos de argumentos pelos quais deveria esquecer aquela bobagem e simplesmente seguir andando reto, como fazia todos os dias, muitos sem nem olhar para aquela escada. Mas algo em seu peito dizia que depois de tantos anos, Martim ainda estava marcado, e era simplesmente sua culpa tê-lo humilhado aquele dia. Talvez aquela marca, que para Walter não passou de uma bobagem adolescente, tivesse sido muito mais profunda em Martim.

– Martim, será que posso falar com você? – disse um Walter nervoso e totalmente sem jeito tentando fazer aquela frase soar naturalmente.
– Pode. – respondeu Martim, visivelmente surpreso.
– Martim, eu estive pensando e…
– Tudo bem…
– O que?
– Eu sei Walter. Aquele dia. Tudo bem, aquilo foi uma bobagem.
– Olha, eu queria lhe pedir desculpas. Sei lá, não sei o que me deu. Mas acho que só percebi agora que naquela época você me tinha como amigo, mas acho que eu não. Por que a gente brigou?
– Eu não sei, não me lembro exatamente. Tudo bem, acho que a gente devia esquecer aquilo tudo. – respondeu Martim, visivelmente nervoso e tentando dar uma resposta que parecesse ao mesmo tempo que ele realmente se importava com o outro, mas que não estava chateado pelo acontecido. Mas ele não conseguia olhar para outro lugar que não seus pés e as três pedrinhas que estavam ali.
– Amigos? – disse Walter.
– Acho que sim. Não, tenho certeza que sim.

Conversaram por mais de três horas. Passados aqueles primeiros dez minutos de desconforto para os dois, a noite quente, o céu estrelado e uma graciosa e brilhante lua crescente que parecia sorrir diante daquele efêmero acontecimento, assistiram os dois meninos conversarem como se fossem amigos de longa data e que não se viam porque um deles tivera que viajar para longe. Naquele dia, eles não tinham notado, dois fenômenos aconteciam. No céu, a lua em conjunção com Vênus, fazia um belíssimo ponto azul brilhar ao lado da lua crescente.

O outro fenômeno era que aquele dia seria o dia que, ainda não sabiam, a vida dos dois mudaria. Poucos dias como esse são memoráveis e igualmente importantes para toda uma vida, e aquele era um desses momentos. Porque dali viria um período mágico de quase dez anos que antecederia a tarde em que, olhando nos olhos de Walter e segurando firmemente em suas mãos, Martim deixaria esse mundo para sempre, deixando nas mãos de Walter uma marca que lembraria o formato naquela lua sorrindo por se encontrar com Vênus no céu.

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