O dia em que me tornei amigo da angústia

De súbito, Angústia me pegou pela mão e me levou para dentro de sua casa. Eu que só passava pela rua a vislumbrar paisagens, às vezes acabava me aprofundando em minhas próprias contemplações e também eu virava a paisagem. Assim a Angústia me recebeu como uma amorosa anfitriã. Ofereceu-me um café: queria ter uma conversa séria. Era um café um tanto amargo, e às vezes eu gostava assim. Me sentei no sofá da sala observando a casa sem o demonstrar. Usava minha visão periférica para que não fosse preciso girar a cabeça – não queria mostrar para ela o tamanho da minha curiosidade. A casa dela era um tanto amontoada de móveis, na maior parte muito antigos. Mas era uma casa muito limpa, apesar de ser um pouco escura. Culpa talvez dos anos que ali pareciam congelados. Ou mesmo porque ela achasse que não precisava de tanta luz para enxergar o que era preciso.

Angústia era uma senhora, mas não aparentava. Olhava por cima dos óculos com ar de quem sabia até meus pensamentos mais obscuros. Sobre a mesa da sala havia um jarro de flores artificiais, e alguns porta-retratos de gente que eu parecia amar, pela palpitação do meu coração. Em outros retratos, apenas silhuetas de pessoas que eu sentia ter alguma ligação, mas não lembrava – faziam parte do meu futuro. Angústia, de pernas cruzadas e semblante sério me disse: te trouxe aqui porque quero lhe dizer que sou sua amiga. E ali, num tempo que até hoje não sei dizer quanto foi, contou a história da minha vida pela sua ótica, me provando que sempre estivera comigo. Ela sabia do meu medo de avião e dos meus conflitos entre a misantropia ou o sonho de ser Prometeu. Após isso, Angústia sorriu e saiu, voltou minutos depois com um quadro na mão: era um retrato meu, criança, e muito feliz segurando a mão da minha mãe. Na outra mão um caderno que continha minha caligrafia das épocas mais diversas. Ela podia até citar, com numeração de páginas e tudo, meus sentimentos embaralhados em cartas de mim para mim mesmo, que ela minuciosamente coletara e organizara na sua biblioteca de emoções intensas. Como era observadora, fiquei impressionado!

Conversamos, após isso, como velhos amigos que só agora eu podia reconhecer, envergonhado pela minha falta de atenção. Como eu havia aprendido com ela a minha vida toda sem perceber! Me despedi dela sem olhar para trás, mas já sabendo que em breve nos encontraríamos de novo. Dali em diante eu seguiria sem culpá-la por estar em minhas paisagens. Angústia era minha amiga e eu também era amigo dela. E seguiríamos juntos até o final.

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