Lareira quentinha de um coração sem medos

O menino-sem-casa encontrou a ilha desconhecida. Foi uma sensação de reconhecimento mútuo. Ele pisou nela e ela entrou nele, num misto de alegria, solidão e saudade das boas, daquelas que lembram o gosto do bolinho de chuva mais gostoso que a vó fazia num tempo já preto e branco na memória, de tão velho. O menino fez sua casa no tempo, colocou as malas e a bicicleta, e saiu ver o que tinha à sua volta. O mais engraçado é que tudo era novo e familiar ao mesmo tempo. Como se lá no fundo, no baú mais escondido e trancado dentro de sua cabeça, houvesse fotos envelhecidas que lhe diziam “você já esteve aqui, em um tempo muito remoto, quando ainda se sentia livre e feliz de estar num mundo”.

E naquele mundo, onde as pessoas falavam outra língua, e ele podia realmente estar só em meio à multidão, ele finalmente se sentiu em casa: invisível. Se sentia livre e pleno, não realizado porque realizado é passado, e ele finalmente se queria no presente. Talvez há muito tempo já, ele não sentia medo de ser quem era e viver o que era. O que as lentes dos outros captavam a seu respeito, não mais importava como nos tempos de conflito e confusão interior. Mas ali, ele tinha a impressão, as lentes dos humanos pareciam voltadas a si mesmas, e ninguém achava estranho um menino que fala e canta sozinho, que decide escrever em qualquer lugar que se encontre, que deixa cair uma lágrima numa canção, ou mesmo um homem de barba que se autodenomina menino.

Ele olhou seu rosto na água do lago e viu a imagem de uma criança de rugas e cabelos brancos, uns óculos que retinha o pó da folha das árvores que caíam naquele outono intenso e dourado. Aquelas folhas traziam consigo o prenúncio de tempestade, frio e neve, que, obviamente, no ciclo da existência, tinham seu lugar e seu tempo. Não mais importava o frio, se consigo mesmo ele estava protegido de frente à lareira quentinha de um coração sem medos. Ele não sabia o que iria ser dali pra frente, mas finalmente havia plantado os pés o mais fundo que podia, para ver se criavam raízes, e folhas que não caíssem no próximo outono.

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