Um astronauta delicado

Ele era um astronauta. Um astronauta delicado. Não existia elogio maior do que disserem que era delicado. Essa palavra parecia traduzir até nos seus fonemas a imensidão efêmera contida nos gestos. De-li-ca-do. Como soava delicada essa palavra. E foi por esse efêmero e imenso motivo que ele decidiu ser astronauta. Na Estação AA2 rondava o planeta Terra pousando os olhos, muitas vezes marejados, que refletiam no vidro da Estação e ele podia enxergar sua íris e o espaço em um só plano. Terminava os relatórios e ficava a contemplar cada um dos diversos pores do sol que podia assistir por dia. O mundo era pouco e era tanto. Mas nunca suficiente. Mesmo sabendo que não poderia desbravá-lo por completo, ainda assim ele quereria conhecer cada cantinho do espaço.

Do céu, na solidão insondável dos astronautas, ele se sentia livre. Quando ainda na Terra, alguns encontros ao acaso com algumas pessoas o deixavam perturbado. E o fato, cada vez mais recorrente, o fazia acreditar que estaria ficando louco. Se perguntava se o mundo das vibrações negativas simplesmente abalava seus sentimentos e deixava sua alma atormentada. Às vezes, encontrava alguma pessoa não necessariamente associada a algum acontecimento ruim. Mas ele sentia a sinceridade dessa pessoa prejudicada de algum modo. Se sentia péssimo consigo mesmo, por sentir isso de alguém que parecia ser bom para ele. E se sentia péssimo quando pensava que as pessoas podiam estar se dando ao trabalho de serem falsas. E mais cedo ou mais tarde descobria: grande parte delas estava sendo. Lhe era tão custoso o papel social, e o ter de encontrar pessoas e ainda ter que se preocupar com qual dos eus estaria mostrando porque elas poderiam usar o que dissesse contra ele mesmo.

Se sentia fraco e desgastado. Passava horas e horas repassando as conversas e estudando semblantes e reações com a memória. Perdia o sono. Se dormia, tinha pesadelos e por dormir mal acordava com enormes dores de cabeça. Quanto mais o tempo passava mais parecia que não estava preparado para ser alguém no mundo. Como se proteger? Não dizer? Falar menos? Se ausentar de si quando estava com alguém qualquer? O que a vida queria dele? Por que reagia tão mal a tudo isso e por que isso o abalava tanto? Pouco tempo antes ele se sentia muito mais estável nesse sentido. E agora parecia que cada dia voltava a ser mais criança e mais ingênuo, contudo, sem a pureza de ser uma criança de verdade. Se tornara um tolo. Um tolo que tinha medo do mundo. Um tolo que só se sentia seguro quando estava só. Um astronauta dos sonhos tentando aprender a respirar o vácuo para ser livre sem entender que o vácuo é o nada. E no nada dos seus sonhos se sentia livre sem realmente o ser.

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