Asa-delta

Cruzar ou não cruzar a ponte? Chegar do outro lado e se afastar de tudo aquilo que ele sabe, ou ficar e permanecer imóvel, seguro na ilusão do ontem que não caminha?

Fernando estava parado há algum tempo no meio da ponte de Hooferman, os carros passando atrás dele a toda velocidade enquanto ele sentiu, de olhos fechados, o vento balançar a sua alma já arranhada pelos tantos anos. Arcou o corpo para frente, abriu os olhos e os descansou no horizonte, como um gato repousando no tapete. Depois os fechou e voltou a sentir o perigoso desequilíbrio que nunca o derrubava.

Aquele havia sido seu último dia no trabalho. Aos 35 anos resolvera por um fim naquele determinismo que vinha consigo desde o dia em que nasceu. Seguir regras lhe deixava doente. Mas quebrá-las parecia tão doloroso quanto. Fernando queria voar. Queria viver a vida como a eterna novidade que a vida era, antes de ser transformada nessa engrenagem parte de um sistema que produzia algo que não era o que ele de melhor tinha a oferecer. Mas a especialidade da sua dor ninguém entenderia. Nenhum remédio poderia curá-lo de ser ele mesmo naquele momento.

Quando pequeno Fernando passava a maior parte do tempo criando um mundo de dobraduras no papel. Começou com simples barquinhos e balões e em algum tempo tinha um mundo feito de papel construído pelas suas mãos. Eram animais, casas, pontes, cidades. O espaço do seu quarto ficou tão apertado que lá só cabiam sua cama e seus objetos criados de papel branco. Todos os dias a luz do sol atravessava a janela assim que ele abria as cortinas pela manhã, e aquele seu mundo branco ganhava vida. E por mais um dia ele engendrava cada átomo do seu mundo material.

Fernando se imaginava podendo viver no seu mundo de papel. Desejava ser também um objeto passível de ganhar outras formas. Gostaria de tomar sua alma nas mãos, alisá-la com todo cuidado, ir encontrando os ângulos mais perfeitos e simétricos e depois de alguns minutos transformá-la numa enorme asa-delta. Assim, sua alma sobrevoaria todos os oceanos da terra, o levaria a conhecer cada canto escondido do mundo, e iria além. Atravessaria o peito das pessoas e consertaria alguma coisa que por ventura estivesse quebrada ali dentro.

Todo mundo sempre tem algo quebrado dentro de si, e a vida é a grande restauração pela qual todos nós havemos de passar a fim de nos curarmos de alguma coisa. E quando sua alma, tendo atravessado tantos quantos corações fosse possível, e ajudado a recuperá-los pelo menos um pouco das suas dores atravessadas, ele próprio haveria de sentir alguma coisa sendo consertada no seu coração.

Era isso. Seu mundo de papel haveria de lhe dar asas, e com elas voaria o planeta inteiro. E cada vez que atravessasse o coração de alguém aprenderia alguma coisa. A cada conserto uma lição de vida haveria de imergir do seu próprio ser. Até o dia em que tivesse que voltar para casa para então morrer em paz.

No entanto, foi o fim da escola, o emprego na fábrica, a pressão da família para que fosse “alguém”, o filho logo aos 19, que o fizeram ter de esquecer suas dobraduras. Seu mundo branquinho agora era um inferno de lixo amarelado, que precisou juntar tudo numa só sacola e jogar fora. Jogou fora seu mundo. Sua alma adoeceu, veio o cansaço, as rugas e os cabelos brancos, e ali estava ele naquela ponte, hesitando olhar para trás.

Foi quando um grande caminhão passou a toda velocidade. Os pés de Fernando sentiram o desequilíbrio, mas não se mexeram a fim de tentar ganhar alguma firmeza. Ele estremeceu, sentiu o vento soprar seus cabelos pelo seu rosto e abriu seus braços sob a sua asa-delta. Viu seu mundo branco de papel e as infinitas cores refletindo sobre ele por um prisma que se formava sob as suas pálpebras. Realizando um sonho, finalmente Fernando conseguiu voar.

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