Lareira quentinha de um coração sem medos

O menino-sem-casa encontrou a ilha desconhecida. Foi uma sensação de reconhecimento mútuo. Ele pisou nela e ela entrou nele, num misto de alegria, solidão e saudade das boas, daquelas que lembram o gosto do bolinho de chuva mais gostoso que a vó fazia num tempo já preto e branco na memória, de tão velho. O menino fez sua casa no tempo, colocou as malas e a bicicleta, e saiu ver o que tinha à sua volta. O mais engraçado é que tudo era novo e familiar ao mesmo tempo. Como se lá no fundo, no baú mais escondido e trancado dentro de sua cabeça, houvesse fotos envelhecidas que lhe diziam “você já esteve aqui, em um tempo muito remoto, quando ainda se sentia livre e feliz de estar num mundo”.

E naquele mundo, onde as pessoas falavam outra língua, e ele podia realmente estar só em meio à multidão, ele finalmente se sentiu em casa: invisível. Se sentia livre e pleno, não realizado porque realizado é passado, e ele finalmente se queria no presente. Talvez há muito tempo já, ele não sentia medo de ser quem era e viver o que era. O que as lentes dos outros captavam a seu respeito, não mais importava como nos tempos de conflito e confusão interior. Mas ali, ele tinha a impressão, as lentes dos humanos pareciam voltadas a si mesmas, e ninguém achava estranho um menino que fala e canta sozinho, que decide escrever em qualquer lugar que se encontre, que deixa cair uma lágrima numa canção, ou mesmo um homem de barba que se autodenomina menino.

Ele olhou seu rosto na água do lago e viu a imagem de uma criança de rugas e cabelos brancos, uns óculos que retinha o pó da folha das árvores que caíam naquele outono intenso e dourado. Aquelas folhas traziam consigo o prenúncio de tempestade, frio e neve, que, obviamente, no ciclo da existência, tinham seu lugar e seu tempo. Não mais importava o frio, se consigo mesmo ele estava protegido de frente à lareira quentinha de um coração sem medos. Ele não sabia o que iria ser dali pra frente, mas finalmente havia plantado os pés o mais fundo que podia, para ver se criavam raízes, e folhas que não caíssem no próximo outono.

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Ensaio sobre colher flores

Vivi um dia um grande conflito entre colher as flores ou deixá-las no jardim. Flores colhidas não são flores vivas? Será que não? Pois no jarro de água elas ainda falam comigo.

As flores gostam de atenção, como se sua existência de beleza se realizasse ao serem admiradas. E quando enfeitam casas, elas assumem corpo de alguém da família. Da terra em que vivem as flores têm consciência da sua vida passageira, e se alegram quando podem ir além vivendo outras paixões. Certo dia uma flor me contou um segredo. Disse que entre as flores existe uma competição em que vitoriosas são aquelas flores colhidas por um gesto de amor.

Elas querem estar em outros lugares e dividir sua beleza em lugares que o jardim não consegue chegar. As flores, mais do que os homens, entendem que murchar é parte de um processo divino, e que o esplendor da vida de uma flor é murchar na condição de estar motivando o coração de alguém a encontrar beleza no mundo.

Flores são seres humildes. Elas sabem da beleza que possuem e não querem ser mais do que isso. Flores são seres fortes. Uma pétala tem a delicadeza de uma lágrima, e a força de um trovão. Elas podem conquistar com um só traço de sorriso ou representarem em si mesmas a dor e o cheiro da despedida.

Flores são generosas. Elas não querem ser jardim. Se contentam com a glória de ser flor, de existir por pouco, e nessa mínima existência, existir muito. Flores são felizes e esperam ser colhidas.

O dia em que me tornei amigo da angústia

De súbito, Angústia me pegou pela mão e me levou para dentro de sua casa. Eu que só passava pela rua a vislumbrar paisagens, às vezes acabava me aprofundando em minhas próprias contemplações e também eu virava a paisagem. Assim a Angústia me recebeu como uma amorosa anfitriã. Ofereceu-me um café: queria ter uma conversa séria. Era um café um tanto amargo, e às vezes eu gostava assim. Me sentei no sofá da sala observando a casa sem o demonstrar. Usava minha visão periférica para que não fosse preciso girar a cabeça – não queria mostrar para ela o tamanho da minha curiosidade. A casa dela era um tanto amontoada de móveis, na maior parte muito antigos. Mas era uma casa muito limpa, apesar de ser um pouco escura. Culpa talvez dos anos que ali pareciam congelados. Ou mesmo porque ela achasse que não precisava de tanta luz para enxergar o que era preciso.

Angústia era uma senhora, mas não aparentava. Olhava por cima dos óculos com ar de quem sabia até meus pensamentos mais obscuros. Sobre a mesa da sala havia um jarro de flores artificiais, e alguns porta-retratos de gente que eu parecia amar, pela palpitação do meu coração. Em outros retratos, apenas silhuetas de pessoas que eu sentia ter alguma ligação, mas não lembrava – faziam parte do meu futuro. Angústia, de pernas cruzadas e semblante sério me disse: te trouxe aqui porque quero lhe dizer que sou sua amiga. E ali, num tempo que até hoje não sei dizer quanto foi, contou a história da minha vida pela sua ótica, me provando que sempre estivera comigo. Ela sabia do meu medo de avião e dos meus conflitos entre a misantropia ou o sonho de ser Prometeu. Após isso, Angústia sorriu e saiu, voltou minutos depois com um quadro na mão: era um retrato meu, criança, e muito feliz segurando a mão da minha mãe. Na outra mão um caderno que continha minha caligrafia das épocas mais diversas. Ela podia até citar, com numeração de páginas e tudo, meus sentimentos embaralhados em cartas de mim para mim mesmo, que ela minuciosamente coletara e organizara na sua biblioteca de emoções intensas. Como era observadora, fiquei impressionado!

Conversamos, após isso, como velhos amigos que só agora eu podia reconhecer, envergonhado pela minha falta de atenção. Como eu havia aprendido com ela a minha vida toda sem perceber! Me despedi dela sem olhar para trás, mas já sabendo que em breve nos encontraríamos de novo. Dali em diante eu seguiria sem culpá-la por estar em minhas paisagens. Angústia era minha amiga e eu também era amigo dela. E seguiríamos juntos até o final.