Camila e os sentimentos

A estrada de pedregulhos fazia o ônibus chacoalhar e deixava a letra no diário toda tremida. Naquele caso a licença poética registrava uma ansiedade real: sua alma se sentia trêmula. Era um borrão de si mesma e cada dia que passava parecia um dia a menos para se passar a vida a limpo. Ela escrevia compulsivamente, como se escrever a fosse salvar de alguma coisa. E nas páginas do seu diário, sobrevivendo mais um pouco, a catarse aconteceu:

“Digamos que morri hoje à tarde. Vi o sol desfigurar lentamente e pontualmente a paisagem com o soprar da sua sombra invisível, pela última vez. Morri, me fui. O que eu gostaria que soubessem de mim? Acho que gostaria que soubessem que há algum tempo eu descobri que sou feliz. Há algum tempo (muito tempo) descobri a plenitude da existência na criação e que, para mim, não parecia ter a vida outra função que não amar e criar. Sendo aquela, matéria-prima desta.

Em alguns dias intermináveis, mas que acabaram por terminar, de cinza, chuva e frio, pelo menos no meu céu interior, eu me senti triste. Em alguns deles, senão quase todos, eu até me esqueci que era feliz. Mas após uma boa noite de sono, e o vento aquecido pelo sol se infiltrando pela minha janela através do pedacinho de vidro quebrado, a locomotiva sempre voltou a andar. Pelo meu pensamento, o que mais me rondava eram as histórias que eu sabia que devia contar, como quer que fosse. Era assim que eu me sentia viva. Os dias sem essa paixão acesa eram como este que supomos agora. Só bastava para mim me narrar para mim mesma. Usar a desculpa iminente da morte para pensar na vida.

E de repente, eis que o momento de tristeza chega, e venho eu aqui tentar descrevê-lo, porque acho que a tristeza é tão importante quanto a alegria para uma vida feliz. Mas não é melhor do que sentir paz. Minha vontade é só estar sozinha, no escuro e em silêncio. Qualquer som me incomoda e qualquer luz me dói a cabeça. Sinto-me enfraquecida como se existir não valesse tanto a pena assim. Amarga e vazia, assim me sinto. Mas é um amargo inerte, não um amargo que machuca, apesar de que, às vezes, posso até sentir dor. Eu só gostaria de poder ficar invisível para não ser incomodada com qualquer pergunta do tipo “por que você está com essa cara?”.

Enfim, nesse momento não é possível estar invisível, preciso fingir e tentar mudar minha sintonia para alguma mais parecida com a dos outros, falando do clima, e de outras banalidades de quem não tem o que dizer, ou não quer dizer. Fingir não me é uma especialidade, mas inventar, sim, nem que seja só no fluxo de pensamento mais escondido atrás do pensamento de realidade. Mas às vezes é bem difícil e cansativo. No entanto, eu sei que devo esse esforço aos que me amam e prezam pela minha escassa companhia. Gostaria de desaparecer por algum tempo.

Pronto. Outro dia, já me sinto bem melhor. Voei longe na minha tristeza e até alguma irritação, mas agora estou eu e meus inventos para suportar a existência e fazer alguma coisa dela. Produtiva? Não sei. Ao menos tento eu construir algo que venha da minha verdade mais profunda, para quem sabe, em algum momento fazer a diferença para a vida de alguém, assim como outros fizeram diferença na minha. Vaidade? Talvez. Mesmo com toda a dissociação que tento fazer daquilo que crio com coisas do tipo fama e status, posso eu estar movida pelo pensamento de querer ser grande e especial.

Mas em última instância, de nada me adiantaria uma vida de isolamento buscando fama eterna, se é qualidade desses mesmos que eu admiro, acreditar que não existe nada além do presente. Em todo caso isso tudo que faço deriva da minha pureza mais profunda e também mais dolorosa. Não creio ter em mim a semente do masoquismo: odeio sentir dor. Portanto, acaba aqui meu auto antecipado obituário. Na minha lápide, cito Hipócrates: “a arte é longa, a vida é breve”. Mas olhe só: alegrias e tristezas! Eis-me aqui, bem viva, e o melhor, desejosa de muito ainda viver.”

Camila tinha chegado ao seu Destino.

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Mais uma luz

Uma homenagem a Chester Bennington (1976-2017)

O rádio relógio marcava 4:25 da manhã. Ele não conseguia mais dormir. Já tinha virado rotina: a escuridão externa se juntava com a escuridão interna e expulsava o sono e a paz do seu coração. Virava de um lado e de outro, afundava sua cabeça entre os travesseiros na tentativa de não enxergar os fantasmas voando pelo teto do seu quarto. Enquanto a dor física em sua cabeça se misturava com a dor em seu peito, o gosto de ferrugem em sua garganta trazia à tona todas as insuportáveis noites anteriores. Isso acontecia já há tanto tempo que nem se lembrava mais, e aquilo ficava cada vez pior. O mais estranho era que havia esperança, havia mais uma luz, mas nessas horas ela se escondia não sabia aonde, e era quase impossível se dar conta de sua existência.

Sentou-se na cama, com os cotovelos apoiados na perna e as mãos segurando sua cabeça pesada, chorou. O gosto de ferrugem se misturava com o gosto do veneno vindo da garrafa ao lado de sua cama, veneno para o qual não conhecia qualquer antídoto. Na sua mente flashes lhe acometiam a todo instante, e como se os piores momentos de sua vida fossem condensados em um longa-metragem de dor, angústia e fraqueza, e o gosto de ferrugem e veneno que se misturava com as lágrimas que tentava conter dentro do seu corpo. O gosto descia para o seu estômago corroendo por dentro um corpo fadado a apodrecer em breve. A única luz que restava estava cada vez mais longe, piscando, tentando se fazer enxergar, enquanto seus olhos míopes ardiam sem nada mais alcançar.

Caminhou no escuro, as vistas embaçadas. Não precisava de olhos para realizar aquele trajeto tão conhecido da cama para o banheiro. Acendeu a luz logo acima do espelho e enquanto seus olhos se acostumavam com a luminosidade, foi aos poucos entendendo a imagem distorcida de si mesmo. Não mais se reconhecia. Uma imagem fracassada, inútil. Como podia ele ser visto como herói por tanta gente quando mal conseguia suportar sua própria dor? Num golpe de raiva espatifou a lâmpada deixando que os cacos e o sangue de sua mão se espalhassem pela pia do banheiro. Enquanto seus pés se moviam lentamente arrastando os cacos pelo chão, sua pele era cortada, mas ele não sentia nada. O gosto da ferrugem, do veneno e das lágrimas agora era só um, numa amálgama de angústia que já havia corroído seu corpo internamente, corpo que cada vez mais se parecia com a sua alma, corroída há muito.

Os raios de sol, tímidos, já entravam pela janela, mas ele não via luz alguma. A última luz havia se apagado. Só queria desaparecer, se dissipar dentro daquela escuridão que já havia cavado dentro de si mesmo. Saindo do banheiro, a gaveta de cintos do closet semiaberta mostrava uma porta-saída. E de dentro da dor, afogando nela, o desespero era tão enorme que ninguém poderia culpa-lo de não pensar nos seus amigos, na sua música, nem nos seus filhos. Eram seis? Não, eram milhões, espalhados pelos continentes do planeta. O herói e a inspiração de tanta gente não tinha mais heróis e perdeu sua inspiração naquele instante. É por isso que horas depois os milhares de órfãos chorariam num misto de luto e sentimento de culpa. Luto porque perderam seu herói e agora se sentiriam vulneráveis também. Culpa porque não fizeram nada, mas o que poderia ser feito?

Não houve escolha, no instante em que perdeu a inspiração ele não se sentia mais vivo, de qualquer modo. Ninguém soube, ninguém viu, ninguém pôde fazer nada, porque só ele entendeu quando o último sorriso já não era mais real e porquê. A busca incessante pelo lugar ao qual pertencia havia acabado, e nem milhares de sóis poderiam fazê-lo voltar a enxergar aquela última luz que, mesmo fraquinha e oscilante, ainda brilhava no final do caminho. Podia ter parado, mas ele não parou. Existem coisas que podemos ter, mas não podemos manter, e a vida, naquele instante, era uma delas. Não escolheu o cinto mais bonito dessa vez, seus olhos sequer viram o que estava fazendo. E a mesma tira que afivelou tantas outras vezes para cantar, calou seu último grito e a voz que nos salvou tantas vezes. Mas quem se importa se mais uma luz se apagar? Bem, eu me importo.

Asa-delta

Cruzar ou não cruzar a ponte? Chegar do outro lado e se afastar de tudo aquilo que ele sabe, ou ficar e permanecer imóvel, seguro na ilusão do ontem que não caminha?

Fernando estava parado há algum tempo no meio da ponte de Hooferman, os carros passando atrás dele a toda velocidade enquanto ele sentiu, de olhos fechados, o vento balançar a sua alma já arranhada pelos tantos anos. Arcou o corpo para frente, abriu os olhos e os descansou no horizonte, como um gato repousando no tapete. Depois os fechou e voltou a sentir o perigoso desequilíbrio que nunca o derrubava.

Aquele havia sido seu último dia no trabalho. Aos 35 anos resolvera por um fim naquele determinismo que vinha consigo desde o dia em que nasceu. Seguir regras lhe deixava doente. Mas quebrá-las parecia tão doloroso quanto. Fernando queria voar. Queria viver a vida como a eterna novidade que a vida era, antes de ser transformada nessa engrenagem parte de um sistema que produzia algo que não era o que ele de melhor tinha a oferecer. Mas a especialidade da sua dor ninguém entenderia. Nenhum remédio poderia curá-lo de ser ele mesmo naquele momento.

Quando pequeno Fernando passava a maior parte do tempo criando um mundo de dobraduras no papel. Começou com simples barquinhos e balões e em algum tempo tinha um mundo feito de papel construído pelas suas mãos. Eram animais, casas, pontes, cidades. O espaço do seu quarto ficou tão apertado que lá só cabiam sua cama e seus objetos criados de papel branco. Todos os dias a luz do sol atravessava a janela assim que ele abria as cortinas pela manhã, e aquele seu mundo branco ganhava vida. E por mais um dia ele engendrava cada átomo do seu mundo material.

Fernando se imaginava podendo viver no seu mundo de papel. Desejava ser também um objeto passível de ganhar outras formas. Gostaria de tomar sua alma nas mãos, alisá-la com todo cuidado, ir encontrando os ângulos mais perfeitos e simétricos e depois de alguns minutos transformá-la numa enorme asa-delta. Assim, sua alma sobrevoaria todos os oceanos da terra, o levaria a conhecer cada canto escondido do mundo, e iria além. Atravessaria o peito das pessoas e consertaria alguma coisa que por ventura estivesse quebrada ali dentro.

Todo mundo sempre tem algo quebrado dentro de si, e a vida é a grande restauração pela qual todos nós havemos de passar a fim de nos curarmos de alguma coisa. E quando sua alma, tendo atravessado tantos quantos corações fosse possível, e ajudado a recuperá-los pelo menos um pouco das suas dores atravessadas, ele próprio haveria de sentir alguma coisa sendo consertada no seu coração.

Era isso. Seu mundo de papel haveria de lhe dar asas, e com elas voaria o planeta inteiro. E cada vez que atravessasse o coração de alguém aprenderia alguma coisa. A cada conserto uma lição de vida haveria de imergir do seu próprio ser. Até o dia em que tivesse que voltar para casa para então morrer em paz.

No entanto, foi o fim da escola, o emprego na fábrica, a pressão da família para que fosse “alguém”, o filho logo aos 19, que o fizeram ter de esquecer suas dobraduras. Seu mundo branquinho agora era um inferno de lixo amarelado, que precisou juntar tudo numa só sacola e jogar fora. Jogou fora seu mundo. Sua alma adoeceu, veio o cansaço, as rugas e os cabelos brancos, e ali estava ele naquela ponte, hesitando olhar para trás.

Foi quando um grande caminhão passou a toda velocidade. Os pés de Fernando sentiram o desequilíbrio, mas não se mexeram a fim de tentar ganhar alguma firmeza. Ele estremeceu, sentiu o vento soprar seus cabelos pelo seu rosto e abriu seus braços sob a sua asa-delta. Viu seu mundo branco de papel e as infinitas cores refletindo sobre ele por um prisma que se formava sob as suas pálpebras. Realizando um sonho, finalmente Fernando conseguiu voar.

Amanda e os sentimentos

Naquele dia ela acordou estranha. Na realidade, havia algum tempo os dias estavam um pouco estranhos. O choro sempre na porta dos olhos. Momentos de vida sem nenhum sentido eram intercalados por pequenas felicidades dos dois. E quando se sentia assim, ela escrevia até o amanhecer. Amanda antes pensava que a vida era um processo cumulativo. Acumulava decepções, desilusões e desencantos, mas também acumulava sonhos, amores e amigos. Mas agora, olhando para o fundo do lugar de onde veio, parecia apenas que a vida era feita de ciclos que sempre se repetiam. Se acumulavam no seu coração apenas desencantos e dores e marcas. E ela tinha de descobrir sozinha o que fazer com eles. Mas tinha o amor, a grande ironia de todas.

Como se estivesse sobre um carrossel colorido e iluminado que aos poucos foi parando de girar, apagou suas luzes e parou por completo, Amanda sentia. Sentir era uma espécie de refúgio-maldição o qual ela estava fadada a viver. Amanda e seus sentimentos sofriam o fim. Ele estava indo embora. Mas diferente da maioria dos casais, até mesmo o fim estava sendo um passo dado pelos dois, juntos. De mãos dadas e com lágrimas nos olhos, Amanda e Antônio observavam a ruína dos seus sonhos naquele carrossel e se despediam dele como uma criança que dá adeus ao ventre materno, o choro era a manifestação da dor de respirar em um lugar novo e desconhecido. Não era arrependimento, nem apego, mas era como tinha de ser, e havia o medo. E de novo, a saudade do futuro.

Amanda foi para casa com seus sentimentos na bolsa. Eram muitos. Sentimentos e memórias que se entrelaçavam de um modo que ela não conseguia distinguir o que era o quê. Era o grande mistério de amar esmagando seu peito de dentro para fora e era por isso que doía. Ela tentava traduzir cada sentimento no papel, seu único artifício quando a dor lhe batia à porta, e não saía nada. Lembrava como tudo era antes dele chegar. A bagunça dos seus sentimentos já havia estado muito pior: no chão do quarto, sobre as roupas de ontem, jazia um coração em caos que mal sabia como bater. Foi quando Antônio chegou pela primeira vez. E daquelas longas visitas que esparramavam saudade por eles dois, surgiram na parede três palavras: eu te amo. O tempo não mais era contado em horas, nem dias, nem meses. Cada intenso instante era uma vida vivida por cada um deles e pelos dois. A luz azul refletia nas paredes enquanto a água caia no peito de um se espalhando pelo corpo do outro. Encontravam dentro do outro uma porta de saída para o desespero do mundo lá fora. Se protegiam. Se curavam. Tinham inventado um mundo só deles, uma linguagem só deles. E a luz azul transmutava o sexo em poesia.

Por que é que as coisas mudam? Por que a impermanência de todas as coisas podia ser tão injusta, às vezes? Ela não sabia direito o que sentir, e como um escritor que realiza seus maiores sonhos no papel porque acredita neles, ela tentava escrever um final que fosse digno daquele recomeço. Até que Amanda e seus sentimentos perceberam que a parte mais bonita daquele sonho nem ela, nem seus sentimentos, conseguiriam descrever. Era impossível traduzir porque qualquer palavra seria menor do que a vida que realmente haviam vivido. O amor, a cumplicidade, o companheirismo, as discussões, o choro fiel, o silêncio, não poderiam ser transmitidos por linhas de grafite no papel. As fotos, as canções, tudo parecia subestimar a intensidade do que havia sido, e era por isso que doía partir dali. Ir embora daquele lugar que já não era mais nem o mesmo lugar. Então ela descreveu através de uma fina elipse uma órbita no papel em branco e, dentro dela, escreveu: quem eu aprendi a ser com você na minha vida eu nunca vou deixar que saia de mim.

Lareira quentinha de um coração sem medos

O menino-sem-casa encontrou a ilha desconhecida. Foi uma sensação de reconhecimento mútuo. Ele pisou nela e ela entrou nele, num misto de alegria, solidão e saudade das boas, daquelas que lembram o gosto do bolinho de chuva mais gostoso que a vó fazia num tempo já preto e branco na memória, de tão velho. O menino fez sua casa no tempo, colocou as malas e a bicicleta, e saiu ver o que tinha à sua volta. O mais engraçado é que tudo era novo e familiar ao mesmo tempo. Como se lá no fundo, no baú mais escondido e trancado dentro de sua cabeça, houvesse fotos envelhecidas que lhe diziam “você já esteve aqui, em um tempo muito remoto, quando ainda se sentia livre e feliz de estar num mundo”.

E naquele mundo, onde as pessoas falavam outra língua, e ele podia realmente estar só em meio à multidão, ele finalmente se sentiu em casa: invisível. Se sentia livre e pleno, não realizado porque realizado é passado, e ele finalmente se queria no presente. Talvez há muito tempo já, ele não sentia medo de ser quem era e viver o que era. O que as lentes dos outros captavam a seu respeito, não mais importava como nos tempos de conflito e confusão interior. Mas ali, ele tinha a impressão, as lentes dos humanos pareciam voltadas a si mesmas, e ninguém achava estranho um menino que fala e canta sozinho, que decide escrever em qualquer lugar que se encontre, que deixa cair uma lágrima numa canção, ou mesmo um homem de barba que se autodenomina menino.

Ele olhou seu rosto na água do lago e viu a imagem de uma criança de rugas e cabelos brancos, uns óculos que retinha o pó da folha das árvores que caíam naquele outono intenso e dourado. Aquelas folhas traziam consigo o prenúncio de tempestade, frio e neve, que, obviamente, no ciclo da existência, tinham seu lugar e seu tempo. Não mais importava o frio, se consigo mesmo ele estava protegido de frente à lareira quentinha de um coração sem medos. Ele não sabia o que iria ser dali pra frente, mas finalmente havia plantado os pés o mais fundo que podia, para ver se criavam raízes, e folhas que não caíssem no próximo outono.

A marionete do Sr. D.

Ele foi esculpido com todo amor do mundo. O sr. D. escolheu com muito carinho a cor e a forma dos seus cabelos, lapidou delicadamente cada um dos dez dedos de suas mãos, que poderiam se articular de maneira tão meticulosa que, quem sabe, se ganhassem vida algum dia, poderiam ultrapassar sua função de agarrar meros objetos para criar coisas, sons e palavras. O sr. D. era dedicado e perfeccionista. Esculpiu o rosto da sua criação como uma espécie de falso autorretrato, corrigindo e melhorando aqueles detalhes que fariam dela uma obra superior a ele próprio. Assim são as aspirações de qualquer ser que crie por necessidade, compensar sua imperfeição naquilo que se cria.

Numa tarde chuvosa e quieta de primavera o sr. D. finalmente deu as últimas pinceladas e terminou seu projeto inanimado. A marionete seria um presente-surpresa para seu primeiro neto, filho do seu único filho, que a receberia apenas na noite de Natal, meses mais tarde. Assim, a marionete descansaria algum tempo sentada próxima à lareira, para que seu corpo de madeira secasse e se tornasse forte o suficiente para aguentar as peripécias de um menino de 7 anos. Sua gravatinha vermelha e seus sapatinhos azuis com as pontas vermelhas eram o toque final necessário para dar o ar circense que o sr. D, que fora palhaço durante sua juventude, gostava de projetar nas suas criações. Da paixão do circo veio a paixão pela senhora D., que o assistira muitas vezes maravilhada da plateia. Se apaixonaram antes mesmo que ela pudesse ver o verdadeiro rosto do palhaço. Felicidade era o nome do que veio depois.

Numa noite após o espetáculo mais especial para eles a sra. D. aceitou o pedido de casamento do sr. D. e partiram para sua nova vida em um povoado próximo às montanhas. Ele se tornou o inventor-escultor mais popular do povoado enquanto ela cozinhava os quitutes mais cobiçados. Ambos eram tão populares em seus ofícios que criaram seu filho apenas com aquela renda de modo muito livre e sempre com a mesa muito farta. Mas naquele dia, após concluir a marionete que levara sete semanas para ficar pronta, o Sr. D. não poderia ter previsto o seu azar quando saiu para buscar a lenha para sua lareira. Ele já havia acabado de encher a pequena carrocinha que transportava a madeira para a lareira e suas esculturas e invenções, quando uma terrível fatalidade trouxe uma tempestade que, num dos primeiros relâmpagos que antecederam a chuva brava, um raio magnetizou o machado do Sr. D. Ele caiu duro na floresta, sendo encontrado apenas horas mais tarde por uma sra. D. desesperada e aos prantos.

O funeral do Sr. D. foi um dos acontecimentos mais tristes na história recente do povoado. Diversos familiares e amigos das mais diversas partes vieram para prestar sua última homenagem ao Sr. D. O funeral foi realizado numa tenda armada ao lado da sua cabana, que era também sua famosa oficina onde havia construído os objetos mais curiosos com os quais presenteava as pessoas queridas e vendia para muitas pessoas notáveis que vinham de longe para apreciar suas engenhocas. Todo mundo admirava os objetos do Sr. D. como esculturas, mesmo quando muitas vezes os objetos tinha uma função meramente prática, como um pilão dado ao vizinho do lado, que devia servir para moer sementes, ou o porta-pano-de-pratos dado para a senhora Azaléia que morava do outro lado da rua. Ambos exibiam seus objetos na sala de estar e a maioria das visitas reconheceria: era uma das famosas criações do Sr. D.

Sr. D. foi enterrado com honrarias. O prefeito da cidade decretou luto oficial de três dias pela morte de um dos seus mais ilustres habitantes. As duas famílias mais ricas da cidade enviaram várias coroas de flores, intercaladamente. Cada coroa era maior e mais colorida do que a anterior dada pela outra família, como se – como todo presente dado pelas famílias ricas – aquilo fosse uma competição de quem despenderia a homenagem mais cara ao popular Sr. D. Por todos os lugares naquela semana só se falaria do talento e da falta de sorte do sr. D., tendo morrido com tanta saúde e trabalhando naquilo que tinha sido sua vida nas últimas décadas. Realmente uma triste fatalidade. Uma das famílias, não satisfeita por não ter enviado a maior coroa-de-flores, sugeriu, com total aprovação do prefeito, que uma estátua do sr. D. esculpindo a porta de entrada da cidade seria colocada ao primeiro passo da fronteira. Fazia questão, inclusive, de arcar com os custos da obra. O prefeito insistira que a cidade retirasse o custo da receita dos impostos, sendo essa a última homenagem da população, que condescendente com a dignidade dessa homenagem, aceitaria de pronto. Por fim, uniram esforços e fizeram duas estátuas, uma de cada lado da entrada da cidade.

A família do sr. D. estava arrasada pelo sinistro acontecimento tão repentino com o vovô. Então, após uma longa reunião, a família resolveu, pelo menos por enquanto, deixar a cabana do Sr. D. intocada para preservar suas últimas memórias, e quem sabe servir para unir o avô ao seu único neto no futuro. Assim, ele teria pelo menos uma chance de conhecer a aura das criações do seu famoso avô. Mas naquela noite algo mais sinistro que a morte do sr. D. aconteceu: enquanto o silêncio da noite orava seu ritual através do canto dos grilos e o cair da água no riacho ao longe, uma fagulha da lareira se transformou em fogo e a acendeu. Assim que o primeiro estalo na madeira aconteceu, a marionete deixada sentada ao lado da lareira pelo sr. D. piscou seus olhos e extraordinariamente ganhou vida. Ainda sentada, olhou de um lado a outro da cabana. O fogo da lareira iluminava parte da cabana, e a marionete enxergou diversas formas estranhas. Eram ferramentas, uma mesa abarrotada de pedaços de madeira, pregos, tecidos e latas e mais latas, todos ao mesmo tempo estranhos e reconhecíveis pela marionete. Num impulso instintivo a marionete se colocou sobre seus dois pezinhos e curiosa, a passinhos curtos, saiu a olhar as coisas dentro daquele lugar.

A marionete não sabia que aquilo era uma cabana. Para ela aquele mundo era todo um único mundo que ela acabara de conhecer. Se aproximou da mesa e comparou os pedaços de madeira e tecido sobre ela com as partes do seu corpo e de sua roupa. Viu um retrato do sr. D. e algo dentro de si a fez pensar: ele me criou. A marionete passou a madrugada observando atenta e lentamente cada objeto dentro da oficina. Encontrava uma lata de tinta e se aproximava dela com muito receio, como se a lata pudesse ganhar vida a qualquer momento. Vendo que isso não acontecia, ela começava, curiosa, a investigar cada parte do objeto até, horas depois, identificar que havia uma tampa, retirá-la num susto achando que havia a destruído, e manipulando com curiosidade e um pouco de asco o líquido que havia dentro dela. E assim recomeçava com outros objetos.

Amanheceu. A luz tomou a cabana inteira e a marionete continuou no seu ímpeto investigativo sobre cada objeto que encontrava. Assim se passaram vários dias. Quando a cabana se tornava escura ela sentava ao lado da lareira já sem fogo, fechava seus olhos, e mentalmente tornava a pensar no retrato do Sr. D. e todos aqueles objetos estranhos dos quais ela também era feita. Quando a luz voltava a inundar a cabana, ela voltava a examinar cada objeto, cada invenção e pedaço de invenção que encontrava. Acabada a exploração dos objetos, quis entender o que era aquela luz que por uma parte do tempo preenchia a cabana. Observou os vidros da janela, e chegou à conclusão de que era o vidro que fazia a luz acontecer. Teve medo da água que pingava em alguns lugares quando chovia muito. A chuva, aliás, parecia um castigo sonoro por algo que tinha feito dentro da cabana, ela devia se observar mais.

Cansada dos objetos que não a entendiam e que ela não entendia, começou a pensar sobre o homem do retrato. Em um dia pensava, aquele homem era mau, havia a colocado ali e depois havia ido embora, sem se importar em dizer onde estava e quando voltaria. Noutro dia aquele homem era bom, havia a criado e dado a ela a chance de conhecer tantas coisas novas e bonitas, e criado partes do seu corpo que a permitia se locomover e tocar nas mais curiosas criações daquele homem. Aquele homem era mau, havia deixado um retrato apenas para deixá-la curiosa acerca da sua provável vinda, mas nunca viria buscá-la. Aquele homem era bom, havia deixado um retrato para que ela nunca se esquecesse que seu criador um dia apareceria repentinamente e a explicaria detalhadamente o que ela estava fazendo ali. Por fim, ela começava a pensar que aquele homem não existia de verdade. O retrato devia ser uma ilusão, um desenho de alguma outra marionete que vivera ali antes dela.

Até que a marionete começou a sentir que suas articulações já não funcionavam mais como antes. Ela estava enferrujando e não entendia o que era o fim. Como aquele homem no retrato, se existia, podia fazer isso com ela? A jogar naquele mundo, e sair para nunca mais voltar, deixando-a com sua solidão eterna por ser diferente de tudo que havia ali. Ela nunca seria alguém e ninguém nunca a seria. Ela e o mundo viveriam naquela distância, mesmo um estando dentro no outro, como seres separados por um véu invisível. Podiam ver e tocar um ao outro, mas nunca poderiam tocar as almas um do outro, nem se compreender. Estaria o mundo, incompreendido e sozinho, também triste como ela, do outro lado daquele véu invisível? Qual era o propósito de um ser criar um outro ser e não dar a ele qualquer instrução, qualquer sinal? Não, o retrato não era um sinal. Naquele mundo em que as coisas eram reais e poderiam ser vistas e sentidas, ela queria um sinal da bondade do homem do retrato. Mas tudo que tinha era sentir na pele o que significava envelhecer sem nunca saber da existência dessa palavra. Era ver o pó se acumulando pelos cantos, a luz cada vez mais escassa, suas articulações rangendo, suas roupas sujas e rasgadas. Sua gravata e seu sapatinho agora eram pintados do mesmo cinza que o chão daquele lugar. O tempo era uma injustiça. Viver também. E onde estava o homem do retrato? Por que ele estava tão longe de salvá-la? Aquele sorriso no retrato era uma promessa? Ou era uma gozação? Não era nada. O próprio retrato foi se perdendo atrás do pó, e ela teve certeza. O homem do retrato nunca existira.

Foi quando uma nova fagulha, da mesma maneira do seu nascimento, acendeu a lareira. Ela viu o fogo crescer, as chamas refletirem em seus olhinhos de madeira empoeirados, e então ela teve certeza do que devia fazer. Colocou, um a um, seus pés sobre o fogo e ardeu em chamas, tão velha e seca que estava. Nada sentiu, saiu do nada e voltou para o nada. Se entregou para o fim com a mesma não vontade com que lhe entregaram para a vida. O fogo estalou seu corpo de maneira tão rápida que um pedacinho da sua perna saltou para o tapete da sala e colocou a cabana toda em chamas. No outro dia, as pessoas mal acreditaram no que havia acontecido quando viram a fumaça negra e cinza que saía do que restou da velha cabana do sr. D. Agora, esfriada pela leve garoa que cobria a cidade. Um casal de velhinhos abraçados, sob seu guarda-chuva, olhava com tristeza para a ruína da cabana do Sr. D. quando o velhinho disse para sua senhora: “Deus gostava tanto do Sr. D., que levou-o junto dele. Agora, todo esse tempo depois, mandou um raio para levar sua amada oficina da mesma maneira que o levou. Que Deus o tenha.”

O dia em que me tornei amigo da angústia

De súbito, Angústia me pegou pela mão e me levou para dentro de sua casa. Eu que só passava pela rua a vislumbrar paisagens, às vezes acabava me aprofundando em minhas próprias contemplações e também eu virava a paisagem. Assim a Angústia me recebeu como uma amorosa anfitriã. Ofereceu-me um café: queria ter uma conversa séria. Era um café um tanto amargo, e às vezes eu gostava assim. Me sentei no sofá da sala observando a casa sem o demonstrar. Usava minha visão periférica para que não fosse preciso girar a cabeça – não queria mostrar para ela o tamanho da minha curiosidade. A casa dela era um tanto amontoada de móveis, na maior parte muito antigos. Mas era uma casa muito limpa, apesar de ser um pouco escura. Culpa talvez dos anos que ali pareciam congelados. Ou mesmo porque ela achasse que não precisava de tanta luz para enxergar o que era preciso.

Angústia era uma senhora, mas não aparentava. Olhava por cima dos óculos com ar de quem sabia até meus pensamentos mais obscuros. Sobre a mesa da sala havia um jarro de flores artificiais, e alguns porta-retratos de gente que eu parecia amar, pela palpitação do meu coração. Em outros retratos, apenas silhuetas de pessoas que eu sentia ter alguma ligação, mas não lembrava – faziam parte do meu futuro. Angústia, de pernas cruzadas e semblante sério me disse: te trouxe aqui porque quero lhe dizer que sou sua amiga. E ali, num tempo que até hoje não sei dizer quanto foi, contou a história da minha vida pela sua ótica, me provando que sempre estivera comigo. Ela sabia do meu medo de avião e dos meus conflitos entre a misantropia ou o sonho de ser Prometeu. Após isso, Angústia sorriu e saiu, voltou minutos depois com um quadro na mão: era um retrato meu, criança, e muito feliz segurando a mão da minha mãe. Na outra mão um caderno que continha minha caligrafia das épocas mais diversas. Ela podia até citar, com numeração de páginas e tudo, meus sentimentos embaralhados em cartas de mim para mim mesmo, que ela minuciosamente coletara e organizara na sua biblioteca de emoções intensas. Como era observadora, fiquei impressionado!

Conversamos, após isso, como velhos amigos que só agora eu podia reconhecer, envergonhado pela minha falta de atenção. Como eu havia aprendido com ela a minha vida toda sem perceber! Me despedi dela sem olhar para trás, mas já sabendo que em breve nos encontraríamos de novo. Dali em diante eu seguiria sem culpá-la por estar em minhas paisagens. Angústia era minha amiga e eu também era amigo dela. E seguiríamos juntos até o final.

Um pequeno cacto contra sol

Ele andava pelo seu próprio deserto, quando avistou um cacto. Sob o sol escaldante o cacto olhava em frente. Os olhos semicerrados, a testa franzida escorrendo suor. Ele observava. Cansado de caminhar, as miragens se foram todas – será? E o mesmo sol, de uma perturbação não antes percebida, parecia agora queimar ainda mais. O imenso céu azul enganava. Não havia pássaros, e nem mesmo insetos resistiam ali. Ninguém sobrevive à frieza quente de um grande deserto. Só um pequeno cacto contra o sol. E como dizia o poeta: tudo é deserto.

Resistindo nas chances remotas de um dia após o outro, ninguém assistia à batalha silenciosa do cacto. Não porque todos eram apenas distraídos, mas a vida de um cacto era tão diferente que às vezes era mais fácil e confortável fugir à sequidão. Eram só dias e mais dias e mais dias convivendo consigo e tendo de aceitar seus espinhos para poder ter a glória de uma pequena flor entre um espinho e outro de vez em quando. Isso ainda se ela viesse.

Um cacto só pode ser visto de perto. O cacto é só um cacto e isso é tudo. Mas ser cacto reforça o fato de que ele não tem medo de ser um cacto. O deserto é extenso e o cansaço imenso. Água armazenada em cacto é lágrima: se não saísse em gotículas ele morreria de sede. Sabe-se lá qual deus criou os cactos, mas acho que ele pensou nisso muito bem.

Ele gostava de flores mas preferia os cactos. Gostava das borboletas mas preferia as mariposas. Gostava da primavera mas preferia o outono. Era muito mais lunar do que solar. E não chorava de carregar as pedras da sua dor, chorava pela dor dos que não entendiam sua própria dor. Por fim, ele descobriu: ele era o cacto. Eu também.

O dia

Walter acordou com uma impressão estranha aquele dia. Como se a partir daquele dia tudo fosse renascer. E assim foi, mas ele só saberia muitos e muitos anos depois. Trabalhou braçal e mecanicamente, tinha tirado os dias para organizar os papéis daquele escritório lotado no qual era estagiário. Com quinze anos, a maioria das pessoas daquela cidade e naquela condição financeira, não dispunha de um emprego como aquele. Não era nem de longe aquilo que havia desejado para sua vida toda, mas havia a liberdade de poder ter as coisas que queria, o que naquele tempo não passava de livros e um computador em que pudesse escrever, mesmo que sem saber direito para que e para quem.

Oito horas de trabalho completas, ele deixava, todos os dias, sistematicamente, que os ponteiros ultrapassassem mais um quarto de hora. Assim sua consciência poderia lhe dizer que era sempre o primeiro a chegar e o último sair, e que então, era merecedor do que quer que fosse. Então ele colocava seus fones no ouvido e saia em direção à estação de metrô. Congestionada às seis e meia da tarde, ele sequer podia perceber o movimento na estação. Ouvindo música no volume mais alto possível, ele ia viajando por dentro de lembranças ou esperanças sugeridas pelas letras das canções, ou pelo que ele entendia delas quando tocavam em inglês e ele não compreendia. Naquele dia, ele optou por ouvir aleatoriamente. Às vezes ele fazia isso, porque gostava de se espantar com canções velhas e adormecidas que repousavam longe do que seus dedos podiam escolher.

Foi assim, naquele dia que ouviu aquela música. Já tinha a ouvido tantas vezes que até esquecera que ela ainda estava ali. E ouvindo e cochichando a letra em sua voz imaginária, uma catarse aconteceu. Aquela música nada tinha de especial, era só mais uma dentre várias músicas que gostava mas que com o tempo iam sendo mastigadas e mastigadas até perder a cor e o gosto e ele trocava como quem desembala outro chiclete. Mas daquela vez, para seu espanto, foi diferente. Walter ouvia e esquecia da vida à sua volta. E tudo lhe fazia lembrar aquele momento, cinco anos antes, quando numa bobagem que nem ele se lembrava o motivo, discutiu com seu amigo Martim e numa fúria que não tinha respaldo em nada na sua personalidade, o expulsou de sua casa, rindo com seus outros amigos.

O que foi aquilo? Por que? Naquele momento Martim não significava nada. Simplesmente influenciado por seus amigos que implicaram com Martim por qualquer bobagem e rindo-se dele o expulsaram de sua casa como quem expulsa um vira-latas só porque a sua efêmera presença por perto incomodava. Não tinha explicação, agora percebia, tinha sido apenas idiota. Idiota a ponto de não perceber que aquela pessoa gostava dele como ele era, e esse ele não era aquele ali. Agora, rodeado de amigos das mais variadas espécies de idiotas, ele havia se tornado um idiota também. Achava que aquilo significava estar se transformando num adolescente e amadurecendo até que pudesse se dizer adulto. Achava que aquilo era só a sua personalidade se sobressaindo. Quando o que ele realmente era, na sua essência, ele já era desde quando era criança. O Walter que pintava e utilizava as cores como que se nelas estivessem todos os seus mais profundos sentimentos. Aquele era o verdadeiro Walter. O verdadeiro que nem ele mesmo ainda conhecia, e que só iria entender um pouco de si quando reconhecesse.

Martim foi embora humilhado. Ele podia não perder muito tempo refletindo sobre as coisas que sentia, mas acreditava que Walter era, pelo menos, seu amigo. Ao que tudo parecia, isso havia sido aquele tempo todo uma via de mão única. Naquele momento, e em milhares de momentos depois daquele, Walter sequer havia pensado sobre se tinha causado dor ou qualquer tipo de desconforto a alguém. Até esse dia. Ouvir aquela música lhe fez voltar quatro anos no tempo e perceber que agora, todos aqueles que lhe acompanhavam naquele momento, haviam passado, se tornado nada além de lembranças de uma pré-adolescência que lhe era indiferente, porque ali nem ele mesmo ele era. Agora sozinho ele percebia. Então Walter fez uma aposta consigo mesmo. Se descendo a rua que dava da estação de metrô até sua casa, e naquela rua encontrasse Martim, o chamaria para conversar. Uma aposta que estava internamente em conflito. Parte dele desejava que aquela bobagem acabasse assim que ele passasse pela rua vazia e adentrasse o portão da sua casa. E pronto, aquele dia seria mais um dia como todos os outros.

Walter desceu do metrô e colocou o capuz de sua blusa na cabeça. Adorava o sentimento de ser anônimo entre as pessoas. O capuz escondia parte do seu rosto, e o som alto nos fones de ouvido lhe dava subsídio para ignorar quem quer que lhe chamasse. Mas para seu espanto, assim que desceu a rua, a cem metros do portão de sua casa, estava Martim. Ele estava sentado naquela enorme escadaria de concreto que mais parecia uma arquibancada de frente para o palco dos carros em alta velocidade. Vestido como quem cansado durante o dia, dormira, acabara de acordar e tivesse ido para a rua respirar o ar da noite, Martim olhava para baixo e brincava mecanicamente com três pedrinhas, sentado na escada. Mesmo sem fones de ouvido ele também estava isolado do mundo à sua volta.

Martim nunca tivera uma família que pudesse chamar de família. Numa desestruturação que naquela cidade não era mais do que comum, reconhecia seu pai como um alguém que só trabalhava e destruía suas mãos lixando e pintando carros, mas ainda assim um pai. Não podia dizer o mesmo de sua mãe. Separados desde que ainda era um menino, Martim a via muito pouco, e carregava a lembrança de uma mulher que falava gritando e com raiva nos olhos, lhe batia praticamente todos os dias pelos motivos mais corriqueiros, e tinha dito, durante uma discussão qualquer com seu pai, “eu não tenho filhos”. Era o que eles tinham em comum quando ele sentia “eu não tenho mãe”.

O ar quente do verão fazia a testa de Walter suar quando percebeu que Martim sentado na escada. Os dois sem saber que estavam prestes a curvar uma estrada no destino que mudaria o curso de suas vidas. Nos segundos que antecederam a chegada de Walter perto da escada, lhe passou pela cabeça todos os tipos de argumentos pelos quais deveria esquecer aquela bobagem e simplesmente seguir andando reto, como fazia todos os dias, muitos sem nem olhar para aquela escada. Mas algo em seu peito dizia que depois de tantos anos, Martim ainda estava marcado, e era simplesmente sua culpa tê-lo humilhado aquele dia. Talvez aquela marca, que para Walter não passou de uma bobagem adolescente, tivesse sido muito mais profunda em Martim.

– Martim, será que posso falar com você? – disse um Walter nervoso e totalmente sem jeito tentando fazer aquela frase soar naturalmente.
– Pode. – respondeu Martim, visivelmente surpreso.
– Martim, eu estive pensando e…
– Tudo bem…
– O que?
– Eu sei Walter. Aquele dia. Tudo bem, aquilo foi uma bobagem.
– Olha, eu queria lhe pedir desculpas. Sei lá, não sei o que me deu. Mas acho que só percebi agora que naquela época você me tinha como amigo, mas acho que eu não. Por que a gente brigou?
– Eu não sei, não me lembro exatamente. Tudo bem, acho que a gente devia esquecer aquilo tudo. – respondeu Martim, visivelmente nervoso e tentando dar uma resposta que parecesse ao mesmo tempo que ele realmente se importava com o outro, mas que não estava chateado pelo acontecido. Mas ele não conseguia olhar para outro lugar que não seus pés e as três pedrinhas que estavam ali.
– Amigos? – disse Walter.
– Acho que sim. Não, tenho certeza que sim.

Conversaram por mais de três horas. Passados aqueles primeiros dez minutos de desconforto para os dois, a noite quente, o céu estrelado e uma graciosa e brilhante lua crescente que parecia sorrir diante daquele efêmero acontecimento, assistiram os dois meninos conversarem como se fossem amigos de longa data e que não se viam porque um deles tivera que viajar para longe. Naquele dia, eles não tinham notado, dois fenômenos aconteciam. No céu, a lua em conjunção com Vênus, fazia um belíssimo ponto azul brilhar ao lado da lua crescente.

O outro fenômeno era que aquele dia seria o dia que, ainda não sabiam, a vida dos dois mudaria. Poucos dias como esse são memoráveis e igualmente importantes para toda uma vida, e aquele era um desses momentos. Porque dali viria um período mágico de quase dez anos que antecederia a tarde em que, olhando nos olhos de Walter e segurando firmemente em suas mãos, Martim deixaria esse mundo para sempre, deixando nas mãos de Walter uma marca que lembraria o formato naquela lua sorrindo por se encontrar com Vênus no céu.

Estranho no Espelho

Mário acordou de madrugada com medo do escuro. Que sensação esquisita, nunca fui de ter medo do escuro, pensou. Tateou em busca dos óculos, calçou os chinelos com os próprios pés que pareciam enxergar na penumbra e acendeu a luz. O quarto parecia um lugar novamente prazeroso e nada assustador. A máquina de escrever imóvel no seu canto, os livros nas prateleiras, sua mesa carregada de cadernos e canetas e tudo o mais que ele utilizava todos os dias. Virou de costas para sua cama e olhou no espelho. Ali estava ele. E dentro dos seus olhos, no reflexo da pupila, ele se viu. Não era ele. Pelo menos não esse ele de cabelos castanhos encaracolados. O que era ele? Era alguém que conheceu há muito tempo, e que pelas circunstâncias, esquecera de falar consigo de novo. E foi se esquecendo, até que esqueceu a fisionomia real que tinha, a cor dos seus verdadeiros olhos, o tamanho dos seus sonhos, a densidade dos seus sentimentos e vontades.

O medo que havia lhe acometido há pouco era um medo trazido pela memória já fria de tanto tempo. A lembrança de quem era e que não era mais o assustava, como um fantasma de lençol assusta a uma criança. Esquecer de si mesmo era a pior coisa que já lhe havia acontecido. De perto, dez minutos depois de toda uma profunda observação reflexiva, ele já não parecia tão assustador. Ele viu que aquele ele podia chorar de tão triste, mas o ser triste ali não significava algo ruim. O eu real é naturalmente triste, porque a realidade é triste. E essa tristeza tinha algo de bonito, porque ela vinha da percepção de que nada dura para sempre. Nem mesmo ele, e isso era triste. Mas enquanto tivesse consciência do seu eu, da tristeza faria imergir todo um colossal sonho feito de realidade, feito do desejo da sua alma colocado em prática.

Feliz por ter entendido a real face da tristeza, apagou a luz, retirou os chinelos, sentou-se por um tempo e depois se deitou na cama. Enquanto cobria seu corpo sentia cada centímetro físico da sua existência e se sentia feliz. Olhava para o teto sem nada enxergar e se lembrava do seu eu dentro da pupila, no espelho. De saber que era triste esse eu até parecia mais feliz que ele mesmo. Como era bom esse sentimento! Queria eterniza-lo para a manhã seguinte e todos os outros dias. Um sentimento de que a morte parecia pequena diante da imensidão do ser nesta vida. Bastaria se lembrar e saberia o que fazer, como agir, como viver. Ali estava o segredo de toda uma existência no escuro, enfim, revelado. Que sorte a dele.

Aos poucos os pensamentos pareciam desaparecer no complexo do ar do sono pelo seu quarto. Quando se está com sono, entre o cá e o lá, pensamentos são fluxos de ideias ininterruptos, que enchem a cabeça e quanto mais você pensa sobre não pensar neles, mais eles se entrelaçam em camadas e camadas de profundidade. Precisava puxar do emaranhado uma pontinha de um pensamento e ir acompanhando-o, tentando entender para onde ele queria levar. Uma piscada mais demorada e pareceria terem ido embora camadas e mais camadas como se nunca tivessem existido. Uma falácia, claro. Eles se escondem e se empoleiram nas gavetas da memória e voltam de repente sem nem ao menos serem chamados. Alguns desses fluxos vão dar no que é a maior escuridão da gente. Ali eu vou só até a porta e raramente tenho coragem de olhar. Permeando essa porta estão todas as coisas que escrevo. Elas são o mais próximo da verdade que meu eu me permite ver sem atravessar aquela porta. Eu poderia atravessar essa porta de uma vez, e ver tudo que existe lá, mas eu tenho uma profunda impressão de que morreria se o fizesse. Então não faço, vou tateando no escuro e buscando não mentir para mim mesmo aquilo que já sei, enquanto tento atingir a verdade estando vivo. Uma tarefa dura, cansativa e que leva uma existência toda.

Exausto, Mário desistiu inconscientemente de tentar lembrar e dormiu. Voltou para o profundo dos sonhos para no outro dia acordar para a vida. Na vida, cumprindo com tudo o que seu eu não faria se tivesse escolha, ele se esqueceu.