Mais uma luz

Uma homenagem a Chester Bennington (1976-2017)

O rádio relógio marcava 4:25 da manhã. Ele não conseguia mais dormir. Já tinha virado rotina: a escuridão externa se juntava com a escuridão interna e expulsava o sono e a paz do seu coração. Virava de um lado e de outro, afundava sua cabeça entre os travesseiros na tentativa de não enxergar os fantasmas voando pelo teto do seu quarto. Enquanto a dor física em sua cabeça se misturava com a dor em seu peito, o gosto de ferrugem em sua garganta trazia à tona todas as insuportáveis noites anteriores. Isso acontecia já há tanto tempo que nem se lembrava mais, e aquilo ficava cada vez pior. O mais estranho era que havia esperança, havia mais uma luz, mas nessas horas ela se escondia não sabia aonde, e era quase impossível se dar conta de sua existência.

Sentou-se na cama, com os cotovelos apoiados na perna e as mãos segurando sua cabeça pesada, chorou. O gosto de ferrugem se misturava com o gosto do veneno vindo da garrafa ao lado de sua cama, veneno para o qual não conhecia qualquer antídoto. Na sua mente flashes lhe acometiam a todo instante, e como se os piores momentos de sua vida fossem condensados em um longa-metragem de dor, angústia e fraqueza, e o gosto de ferrugem e veneno que se misturava com as lágrimas que tentava conter dentro do seu corpo. O gosto descia para o seu estômago corroendo por dentro um corpo fadado a apodrecer em breve. A única luz que restava estava cada vez mais longe, piscando, tentando se fazer enxergar, enquanto seus olhos míopes ardiam sem nada mais alcançar.

Caminhou no escuro, as vistas embaçadas. Não precisava de olhos para realizar aquele trajeto tão conhecido da cama para o banheiro. Acendeu a luz logo acima do espelho e enquanto seus olhos se acostumavam com a luminosidade, foi aos poucos entendendo a imagem distorcida de si mesmo. Não mais se reconhecia. Uma imagem fracassada, inútil. Como podia ele ser visto como herói por tanta gente quando mal conseguia suportar sua própria dor? Num golpe de raiva espatifou a lâmpada deixando que os cacos e o sangue de sua mão se espalhassem pela pia do banheiro. Enquanto seus pés se moviam lentamente arrastando os cacos pelo chão, sua pele era cortada, mas ele não sentia nada. O gosto da ferrugem, do veneno e das lágrimas agora era só um, numa amálgama de angústia que já havia corroído seu corpo internamente, corpo que cada vez mais se parecia com a sua alma, corroída há muito.

Os raios de sol, tímidos, já entravam pela janela, mas ele não via luz alguma. A última luz havia se apagado. Só queria desaparecer, se dissipar dentro daquela escuridão que já havia cavado dentro de si mesmo. Saindo do banheiro, a gaveta de cintos do closet semiaberta mostrava uma porta-saída. E de dentro da dor, afogando nela, o desespero era tão enorme que ninguém poderia culpa-lo de não pensar nos seus amigos, na sua música, nem nos seus filhos. Eram seis? Não, eram milhões, espalhados pelos continentes do planeta. O herói e a inspiração de tanta gente não tinha mais heróis e perdeu sua inspiração naquele instante. É por isso que horas depois os milhares de órfãos chorariam num misto de luto e sentimento de culpa. Luto porque perderam seu herói e agora se sentiriam vulneráveis também. Culpa porque não fizeram nada, mas o que poderia ser feito?

Não houve escolha, no instante em que perdeu a inspiração ele não se sentia mais vivo, de qualquer modo. Ninguém soube, ninguém viu, ninguém pôde fazer nada, porque só ele entendeu quando o último sorriso já não era mais real e porquê. A busca incessante pelo lugar ao qual pertencia havia acabado, e nem milhares de sóis poderiam fazê-lo voltar a enxergar aquela última luz que, mesmo fraquinha e oscilante, ainda brilhava no final do caminho. Podia ter parado, mas ele não parou. Existem coisas que podemos ter, mas não podemos manter, e a vida, naquele instante, era uma delas. Não escolheu o cinto mais bonito dessa vez, seus olhos sequer viram o que estava fazendo. E a mesma tira que afivelou tantas outras vezes para cantar, calou seu último grito e a voz que nos salvou tantas vezes. Mas quem se importa se mais uma luz se apagar? Bem, eu me importo.

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Ensaio sobre colher flores

Vivi um dia um grande conflito entre colher as flores ou deixá-las no jardim. Flores colhidas não são flores vivas? Será que não? Pois no jarro de água elas ainda falam comigo.

As flores gostam de atenção, como se sua existência de beleza se realizasse ao serem admiradas. E quando enfeitam casas, elas assumem corpo de alguém da família. Da terra em que vivem as flores têm consciência da sua vida passageira, e se alegram quando podem ir além vivendo outras paixões. Certo dia uma flor me contou um segredo. Disse que entre as flores existe uma competição em que vitoriosas são aquelas flores colhidas por um gesto de amor.

Elas querem estar em outros lugares e dividir sua beleza em lugares que o jardim não consegue chegar. As flores, mais do que os homens, entendem que murchar é parte de um processo divino, e que o esplendor da vida de uma flor é murchar na condição de estar motivando o coração de alguém a encontrar beleza no mundo.

Flores são seres humildes. Elas sabem da beleza que possuem e não querem ser mais do que isso. Flores são seres fortes. Uma pétala tem a delicadeza de uma lágrima, e a força de um trovão. Elas podem conquistar com um só traço de sorriso ou representarem em si mesmas a dor e o cheiro da despedida.

Flores são generosas. Elas não querem ser jardim. Se contentam com a glória de ser flor, de existir por pouco, e nessa mínima existência, existir muito. Flores são felizes e esperam ser colhidas.

Dona Ivone

Caminhando na rua a contemplar por trás dos óculos escuros rostos e linhas alheias, é que eu vi as linhas da Dona Ivone. Contavam a história da Dona Ivone. Não, Dona Ivone é que contava sua história através das suas linhas. Com a delicadeza de uma senhora de mais de sessenta anos que sofreu tanto que nem fica triste, Dona Ivone explicou como foi parar naquele mundo sujo de tão puro nas suas justificativas e, com muito orgulho de ser uma pessoa honesta e verdadeira, que quer agora vender cachorro quente. Meus olhos, que já são meio enrugados também de chorar demais, ainda não conseguem refletir a força das linhas do rosto de Dona Ivone. A mim, portanto, só restou chorar.

Fazia um tempo que eu não chorava tanto. Vendo Dona Ivone contar sobre as suas conclusões de uma vida que parece tão pouca do império vazio do meu egoísmo, eu nem sei se chorei de pena dela ou de pena de mim mesmo, egoísta que sou. Pudera eu fazer tanto, tirar tanto proveito de um pedacinho de simplicidade como a Dona Ivone faz. Ouvindo Dona Ivone eu descobri que a humanidade não precisa de pecado algum para merecer o inferno. Dona Ivone e seus sessenta anos de vida me fizeram pensar em como deve ser sentir o peso de viver, se eu sempre cedo ao peso dos meus sonhos irrealizáveis. Me fez pensar em minha mãe. Me fez pensar no amor e na falta dele. Não, só na falta dele, que é muita.

Porque Dona Ivone talvez não tenha nem consciência de que sim, ela tem o direito de ficar triste nem que seja só por um dia. Não, tia velha não deve ter direito algum, deve pensar ela. Ou ela é triste e acha que é feliz só porque nunca experimentou a felicidade. Mas quem já experimentou a felicidade? Quando eu penso na falta do sentimento de ausência-de-felicidade que a Dona Ivone não tem, me dá mais ainda vontade de chorar. Eu, que só sei sentir e sofrer essa ausência de felicidade que nunca me completa, choro de pena da humanidade, por não entender dessa vida tanto quanto entende Dona Ivone. Acontece que eu sou só mais um.

O segredo de Alicia

Alicia, minha afilhadinha, do altíssimo dos seus seis anos e alguns dias de idade e pura experiência, no sentido mais infante da palavra, olhou fundo em meus olhos, mas da forma despretensiosa de uma criança, e disse:

– Padrinho, vou te contar um segredo. Uma coisa que eu e as minhas amigas fazemos todos os dias quando a gente chega da aula.

Uau, pensei comigo mesmo. Será que havia chegado algum momento fatídico da existência dela e que ela queria dividir comigo? Não sabia o que sentir. Apreensivo, surpreso, curioso, lhe disse:

– Pode dizer, meu amor – tentando soar o menos curioso possível. Estávamos na rua, num momento de pausa do nosso passeio de bicicleta. Era um dia azul, sem uma nuvem de chuva, daqueles dias perfeitos para compartilhar segredos entre uma afilhada e seu padrinho.

– Não posso dizer aqui, tem muita gente. E é muito segredo, você não pode contar para ninguém! – Disse ela, séria, tentando gesticular uma seriedade adulta. Eu, adulto que sou, acreditava todo no seu mistério. Certo dia ela me havia dito que não era mais um bebê, era um “adulto que fala”, segundo as palavras dela. Acreditei.

Meu Deus, pensei, sem pensar em Deus. Que será que ela vai me dizer? Havia uma semana ela tinha dito que eu era seu melhor amigo, aquela parecia uma porta aberta. Uma porta aberta para o infinito de uma menina de pouco mais de seis anos e que eu não tinha a mínima ideia do que tinha atrás. Antes daquele momento, os nossos, mais íntimos, eram enfeitados com lápis-de-cor, desenhos, piscina e sorvete. Agora eu estava diante da minha afilhadinha, que havia crescido e tinha um grande segredo para me contar.

– Acho que vou te contar agora, padrinho, que não tem ninguém por perto – disse ela, de cima da garupa enquanto pedalando, eu ouvia e até pedalava com os ouvidos para não perder nada.

Eu nada disse, reticente, apenas esperando.

– Então, é o seguinte. Eu tenho um poder de gelo. A Manu tem um poder de fogo, e a Mariana tem um poder de terra. A gente sempre solta esse poder depois que a gente chega da escola. Não conta para ninguém, viu padrinho?

Eu prometi, mas quebrei a promessa. Que triste! Mas eu juro que o próximo segredo eu vou honrar a sete chaves. Afinal, é isso que os melhores amigos devem fazer.