Um pequeno cacto contra sol

Ele andava pelo seu próprio deserto, quando avistou um cacto. Sob o sol escaldante o cacto olhava em frente. Os olhos semicerrados, a testa franzida escorrendo suor. Ele observava. Cansado de caminhar, as miragens se foram todas – será? E o mesmo sol, de uma perturbação não antes percebida, parecia agora queimar ainda mais. O imenso céu azul enganava. Não havia pássaros, e nem mesmo insetos resistiam ali. Ninguém sobrevive à frieza quente de um grande deserto. Só um pequeno cacto contra o sol. E como dizia o poeta: tudo é deserto.

Resistindo nas chances remotas de um dia após o outro, ninguém assistia à batalha silenciosa do cacto. Não porque todos eram apenas distraídos, mas a vida de um cacto era tão diferente que às vezes era mais fácil e confortável fugir à sequidão. Eram só dias e mais dias e mais dias convivendo consigo e tendo de aceitar seus espinhos para poder ter a glória de uma pequena flor entre um espinho e outro de vez em quando. Isso ainda se ela viesse.

Um cacto só pode ser visto de perto. O cacto é só um cacto e isso é tudo. Mas ser cacto reforça o fato de que ele não tem medo de ser um cacto. O deserto é extenso e o cansaço imenso. Água armazenada em cacto é lágrima: se não saísse em gotículas ele morreria de sede. Sabe-se lá qual deus criou os cactos, mas acho que ele pensou nisso muito bem.

Ele gostava de flores mas preferia os cactos. Gostava das borboletas mas preferia as mariposas. Gostava da primavera mas preferia o outono. Era muito mais lunar do que solar. E não chorava de carregar as pedras da sua dor, chorava pela dor dos que não entendiam sua própria dor. Por fim, ele descobriu: ele era o cacto. Eu também.

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Dona Ivone

Caminhando na rua a contemplar por trás dos óculos escuros rostos e linhas alheias, é que eu vi as linhas da Dona Ivone. Contavam a história da Dona Ivone. Não, Dona Ivone é que contava sua história através das suas linhas. Com a delicadeza de uma senhora de mais de sessenta anos que sofreu tanto que nem fica triste, Dona Ivone explicou como foi parar naquele mundo sujo de tão puro nas suas justificativas e, com muito orgulho de ser uma pessoa honesta e verdadeira, que quer agora vender cachorro quente. Meus olhos, que já são meio enrugados também de chorar demais, ainda não conseguem refletir a força das linhas do rosto de Dona Ivone. A mim, portanto, só restou chorar.

Fazia um tempo que eu não chorava tanto. Vendo Dona Ivone contar sobre as suas conclusões de uma vida que parece tão pouca do império vazio do meu egoísmo, eu nem sei se chorei de pena dela ou de pena de mim mesmo, egoísta que sou. Pudera eu fazer tanto, tirar tanto proveito de um pedacinho de simplicidade como a Dona Ivone faz. Ouvindo Dona Ivone eu descobri que a humanidade não precisa de pecado algum para merecer o inferno. Dona Ivone e seus sessenta anos de vida me fizeram pensar em como deve ser sentir o peso de viver, se eu sempre cedo ao peso dos meus sonhos irrealizáveis. Me fez pensar em minha mãe. Me fez pensar no amor e na falta dele. Não, só na falta dele, que é muita.

Porque Dona Ivone talvez não tenha nem consciência de que sim, ela tem o direito de ficar triste nem que seja só por um dia. Não, tia velha não deve ter direito algum, deve pensar ela. Ou ela é triste e acha que é feliz só porque nunca experimentou a felicidade. Mas quem já experimentou a felicidade? Quando eu penso na falta do sentimento de ausência-de-felicidade que a Dona Ivone não tem, me dá mais ainda vontade de chorar. Eu, que só sei sentir e sofrer essa ausência de felicidade que nunca me completa, choro de pena da humanidade, por não entender dessa vida tanto quanto entende Dona Ivone. Acontece que eu sou só mais um.

O dia

Walter acordou com uma impressão estranha aquele dia. Como se a partir daquele dia tudo fosse renascer. E assim foi, mas ele só saberia muitos e muitos anos depois. Trabalhou braçal e mecanicamente, tinha tirado os dias para organizar os papéis daquele escritório lotado no qual era estagiário. Com quinze anos, a maioria das pessoas daquela cidade e naquela condição financeira, não dispunha de um emprego como aquele. Não era nem de longe aquilo que havia desejado para sua vida toda, mas havia a liberdade de poder ter as coisas que queria, o que naquele tempo não passava de livros e um computador em que pudesse escrever, mesmo que sem saber direito para que e para quem.

Oito horas de trabalho completas, ele deixava, todos os dias, sistematicamente, que os ponteiros ultrapassassem mais um quarto de hora. Assim sua consciência poderia lhe dizer que era sempre o primeiro a chegar e o último sair, e que então, era merecedor do que quer que fosse. Então ele colocava seus fones no ouvido e saia em direção à estação de metrô. Congestionada às seis e meia da tarde, ele sequer podia perceber o movimento na estação. Ouvindo música no volume mais alto possível, ele ia viajando por dentro de lembranças ou esperanças sugeridas pelas letras das canções, ou pelo que ele entendia delas quando tocavam em inglês e ele não compreendia. Naquele dia, ele optou por ouvir aleatoriamente. Às vezes ele fazia isso, porque gostava de se espantar com canções velhas e adormecidas que repousavam longe do que seus dedos podiam escolher.

Foi assim, naquele dia que ouviu aquela música. Já tinha a ouvido tantas vezes que até esquecera que ela ainda estava ali. E ouvindo e cochichando a letra em sua voz imaginária, uma catarse aconteceu. Aquela música nada tinha de especial, era só mais uma dentre várias músicas que gostava mas que com o tempo iam sendo mastigadas e mastigadas até perder a cor e o gosto e ele trocava como quem desembala outro chiclete. Mas daquela vez, para seu espanto, foi diferente. Walter ouvia e esquecia da vida à sua volta. E tudo lhe fazia lembrar aquele momento, cinco anos antes, quando numa bobagem que nem ele se lembrava o motivo, discutiu com seu amigo Martim e numa fúria que não tinha respaldo em nada na sua personalidade, o expulsou de sua casa, rindo com seus outros amigos.

O que foi aquilo? Por que? Naquele momento Martim não significava nada. Simplesmente influenciado por seus amigos que implicaram com Martim por qualquer bobagem e rindo-se dele o expulsaram de sua casa como quem expulsa um vira-latas só porque a sua efêmera presença por perto incomodava. Não tinha explicação, agora percebia, tinha sido apenas idiota. Idiota a ponto de não perceber que aquela pessoa gostava dele como ele era, e esse ele não era aquele ali. Agora, rodeado de amigos das mais variadas espécies de idiotas, ele havia se tornado um idiota também. Achava que aquilo significava estar se transformando num adolescente e amadurecendo até que pudesse se dizer adulto. Achava que aquilo era só a sua personalidade se sobressaindo. Quando o que ele realmente era, na sua essência, ele já era desde quando era criança. O Walter que pintava e utilizava as cores como que se nelas estivessem todos os seus mais profundos sentimentos. Aquele era o verdadeiro Walter. O verdadeiro que nem ele mesmo ainda conhecia, e que só iria entender um pouco de si quando reconhecesse.

Martim foi embora humilhado. Ele podia não perder muito tempo refletindo sobre as coisas que sentia, mas acreditava que Walter era, pelo menos, seu amigo. Ao que tudo parecia, isso havia sido aquele tempo todo uma via de mão única. Naquele momento, e em milhares de momentos depois daquele, Walter sequer havia pensado sobre se tinha causado dor ou qualquer tipo de desconforto a alguém. Até esse dia. Ouvir aquela música lhe fez voltar quatro anos no tempo e perceber que agora, todos aqueles que lhe acompanhavam naquele momento, haviam passado, se tornado nada além de lembranças de uma pré-adolescência que lhe era indiferente, porque ali nem ele mesmo ele era. Agora sozinho ele percebia. Então Walter fez uma aposta consigo mesmo. Se descendo a rua que dava da estação de metrô até sua casa, e naquela rua encontrasse Martim, o chamaria para conversar. Uma aposta que estava internamente em conflito. Parte dele desejava que aquela bobagem acabasse assim que ele passasse pela rua vazia e adentrasse o portão da sua casa. E pronto, aquele dia seria mais um dia como todos os outros.

Walter desceu do metrô e colocou o capuz de sua blusa na cabeça. Adorava o sentimento de ser anônimo entre as pessoas. O capuz escondia parte do seu rosto, e o som alto nos fones de ouvido lhe dava subsídio para ignorar quem quer que lhe chamasse. Mas para seu espanto, assim que desceu a rua, a cem metros do portão de sua casa, estava Martim. Ele estava sentado naquela enorme escadaria de concreto que mais parecia uma arquibancada de frente para o palco dos carros em alta velocidade. Vestido como quem cansado durante o dia, dormira, acabara de acordar e tivesse ido para a rua respirar o ar da noite, Martim olhava para baixo e brincava mecanicamente com três pedrinhas, sentado na escada. Mesmo sem fones de ouvido ele também estava isolado do mundo à sua volta.

Martim nunca tivera uma família que pudesse chamar de família. Numa desestruturação que naquela cidade não era mais do que comum, reconhecia seu pai como um alguém que só trabalhava e destruía suas mãos lixando e pintando carros, mas ainda assim um pai. Não podia dizer o mesmo de sua mãe. Separados desde que ainda era um menino, Martim a via muito pouco, e carregava a lembrança de uma mulher que falava gritando e com raiva nos olhos, lhe batia praticamente todos os dias pelos motivos mais corriqueiros, e tinha dito, durante uma discussão qualquer com seu pai, “eu não tenho filhos”. Era o que eles tinham em comum quando ele sentia “eu não tenho mãe”.

O ar quente do verão fazia a testa de Walter suar quando percebeu que Martim sentado na escada. Os dois sem saber que estavam prestes a curvar uma estrada no destino que mudaria o curso de suas vidas. Nos segundos que antecederam a chegada de Walter perto da escada, lhe passou pela cabeça todos os tipos de argumentos pelos quais deveria esquecer aquela bobagem e simplesmente seguir andando reto, como fazia todos os dias, muitos sem nem olhar para aquela escada. Mas algo em seu peito dizia que depois de tantos anos, Martim ainda estava marcado, e era simplesmente sua culpa tê-lo humilhado aquele dia. Talvez aquela marca, que para Walter não passou de uma bobagem adolescente, tivesse sido muito mais profunda em Martim.

– Martim, será que posso falar com você? – disse um Walter nervoso e totalmente sem jeito tentando fazer aquela frase soar naturalmente.
– Pode. – respondeu Martim, visivelmente surpreso.
– Martim, eu estive pensando e…
– Tudo bem…
– O que?
– Eu sei Walter. Aquele dia. Tudo bem, aquilo foi uma bobagem.
– Olha, eu queria lhe pedir desculpas. Sei lá, não sei o que me deu. Mas acho que só percebi agora que naquela época você me tinha como amigo, mas acho que eu não. Por que a gente brigou?
– Eu não sei, não me lembro exatamente. Tudo bem, acho que a gente devia esquecer aquilo tudo. – respondeu Martim, visivelmente nervoso e tentando dar uma resposta que parecesse ao mesmo tempo que ele realmente se importava com o outro, mas que não estava chateado pelo acontecido. Mas ele não conseguia olhar para outro lugar que não seus pés e as três pedrinhas que estavam ali.
– Amigos? – disse Walter.
– Acho que sim. Não, tenho certeza que sim.

Conversaram por mais de três horas. Passados aqueles primeiros dez minutos de desconforto para os dois, a noite quente, o céu estrelado e uma graciosa e brilhante lua crescente que parecia sorrir diante daquele efêmero acontecimento, assistiram os dois meninos conversarem como se fossem amigos de longa data e que não se viam porque um deles tivera que viajar para longe. Naquele dia, eles não tinham notado, dois fenômenos aconteciam. No céu, a lua em conjunção com Vênus, fazia um belíssimo ponto azul brilhar ao lado da lua crescente.

O outro fenômeno era que aquele dia seria o dia que, ainda não sabiam, a vida dos dois mudaria. Poucos dias como esse são memoráveis e igualmente importantes para toda uma vida, e aquele era um desses momentos. Porque dali viria um período mágico de quase dez anos que antecederia a tarde em que, olhando nos olhos de Walter e segurando firmemente em suas mãos, Martim deixaria esse mundo para sempre, deixando nas mãos de Walter uma marca que lembraria o formato naquela lua sorrindo por se encontrar com Vênus no céu.

O conto da raposa vermelha – Parte V (Final)

A neblina entrava pelas frestas e deixava tudo cinza neon. A raposa tinha acabado de abrir seus olhinhos e identificar onde estava. Quanto tempo havia se passado dormindo dentro do barquinho? Como fora parar ali? A última lembrança que tinha era a conversa com o Sr. Alface e ter compreendido como a Terra dos Que Fazem Chover foi descoberta. Agora estava ali dentro do barquinho novamente. Será que estava perto da tenda verde do Peixe, onde havia deixado seu barquinho da última vez? Caminhou preguiçosamente para fora do compartimento e qual não foi seu espanto ao perceber que se encontrava novamente na margem do rio, do outro lado da floresta, de onde partira.

Saltou do barquinho azul descascado e olhou para o horizonte além do rio cerrando os olhos com delicadeza. O barquinho continuava amarrado à margem como da última vez, e o rio ainda lhe parecia infinito. Teria sido tudo um sonho que lhe aconteceu enquanto dormia dentro do barquinho? A raposa vermelha parou ali, deitou com o focinho encostando no chão, fitando o infinito horizonte, quando uma folha seca voou lentamente até cair bem na sua frente. Ao ver a folha seca, involuntariamente colocou sua patinha sobre ela e ouviu um “créc”, transformando a folha em pó. Ao som da folha seca se desmantelando na natureza, a raposa se lembrou da Terra dos Que Fazem Chover.

Provavelmente, pensou, ao ouvir a história contada pelo Senhor Alface de como a Terra dos Que Fazem Chover foi descoberta pela Ovelha que descobriu ser um Leão, ela havia adormecido e foi levada para o barquinho que lhe trouxe de volta à sua casa. Ou então, tudo aquilo se passou apenas dentro da sua cabecinha, o que parecia muito mais provável diante da impossibilidade de tudo que havia lhe acontecido. Contudo, aquela história ecoava desdobramentos mil em sua mente, cheios de significados. Assim que a neblina foi sumindo, a raposa se pôs a caminhar. Tudo estava igual, e ela continuava sendo só uma raposa. Na realidade, nem parecia que o tempo havia realmente passado.

Enquanto a raposa caminhava, uma forte rajada de vento bagunçou seu pelo vermelho mas ela não saiu do seu passo lento e contínuo. Apenas ergueu a cabecinha contra o vento e continuou firmemente olhando para frente. Sentiu as primeiras e fortes gotas de chuva caírem, primeiro na sua patinha direita, depois sobre as suas costas, e continuou caminhando como se não olhasse nada e ao mesmo tempo pudesse sentir a grandeza do mundo inteiro. As gotas foram ficando cada vez mais intensas e desciam em grupinhos de gotas d’água que começaram a deixar seu pelo vermelho todo pesado. Era o peso do mundo ao qual ela não mais queria ceder. De repente a chuva ficou tão forte, que noutros tempos, a raposa sairia correndo para se proteger da tempestade.

Mas não, daquela vez era diferente. Daquela vez ela estava diferente. A chuva continuava a mesma, veloz e gelada, mas agora ela não se amedrontava mais. Sabia que precisava dar algo de si para se sentir parte de alguma coisa. Fugir da chuva, depois de tudo o que viu, seria no mínimo incoerente. A forte chuva chegou ao ápice do adensamento e começou a retroceder. A raposa continuava caminhando lentamente. Até que aos poucos a chuva foi cessando e minutos depois cessou completamente. A raposa vermelha chegou à grande pedra cinza exatamente no momento em que a chuva terminou de cair. Sentia o cheiro do ar fresco e limpo entrando pelo seu focinho. Era um gosto de liberdade como a juba balançando enquanto o Leão corria pelo campo. Um gosto de liberdade como as borboletas sorrindo sob a chuva na Terra dos Que Fazem Chover. Um gosto de liberdade como uma raposa que deixara por um dia de ser uma raposa para refletir. Foi quando eu acordei.

E você me pergunta o que vai acontecer? Eu bem disse que podia apontar o tempo com o dedo, mas nunca disse que a espécie à qual pertenço – essa espécie dos que sentem demais, assim como você, se está lendo isso – poderia escolher o destino de algo ou alguém. Apenas posso contar o que eu vi. Ou pelo menos é nisso que eu tento acreditar enquanto aqui estou. Sinto o peso daquele mundo em minhas costas porque não consigo diferenciar o sonho da vida. Mas só quem sente o peso poderia sentir a grandeza do que quer que seja. Nesse momento sou eu quem deveria decidir o destino da raposa vermelha, mas sinto muito que eu não possa. Me sinto como um deus que ficou cansado. Eu, que sou mesmo incapaz de salvar ao mundo que eu mesmo inventei, como poderia fazer alguma coisa do meu destino?

Quando me trouxeram para cá, eu não podia entender o que estava acontecendo. Me fizeram acreditar que sonhar era loucura e eu, dos meus sonhos, fiquei assim, imobilizado. Não imobilizado como aquelas pessoas que não podem andar ou algo do gênero, mas muito pior. Imobilizado como alguém que foi proibido de sonhar. Imobilizado porque me fizeram acreditar que o mundo que eu estava tinha donos muito claros, e eu não era um deles. Porque mesmo se eu perdesse todos os meus membros, se pudesse sonhar, meu mundo teria algum jeito. Por isso estou enclausurado aqui e, só agora, vejo que a melhor e mais verdadeira fuga será para dentro de mim mesmo.

Eu não quero ser Eu. Quero ser eu. Não vejo beleza alguma em ter que existir um Ele quando temos tantos eles para cuidar e para cuidarem da gente. Não importa se somos sóis, leões, abelhas ou cascavéis. Talvez a vida seja apenas nosso barco azul descascado amarrado na existência, e só conseguimos alcançar alguma elevação se inventamos o sonho que ninguém tem coragem de inventar. Ninguém tem que suportar a vida por motivos cósmicos, e viver e desabrochar já é uma tarefa bem difícil. O mundo é um lugar impossível para ser, por isso eu preciso ser em outro lugar.

Anos atrás ainda vinham me fazer visitas, e confesso que apesar de me sentir melhor comigo mesmo, em vários momentos eu faria tudo para ter contato com outro alguém. Quem gosta de ficar sozinho? Mas isso nunca foi possível. Alguém é algo só. Assim como a raposa, eu também nunca havia ido tão longe de casa. Me fiz em lagartos, borboletas, abelhas, cascavéis, leões e ovelhas. Queria vê-los refletir. Hoje sou eu que quero me voltar à simplicidade instintiva e animalesca que habita uma caverna secreta em mim. Chegar em um lugar que só a palavra consegue morar e ver lá dentro. Ver com todos os olhos que possuo, e tenho tantos que vejo demais mesmo quando não posso fazer nada.

Bem sei que a raposa voltou outra da sua viagem. Ela viu tanto que fará do seu caminho um outro e nunca ninguém saberá. O amor é o sacrifício que ninguém vê, e só o entende quem já o sentiu algum dia. Mas ao mesmo tempo o amor não foi suficiente para salvar meu mundo. Nunca é. Ou talvez eu nunca tenha visto nem sentido o amor. O mundo está doente e nem raposa nem leões têm a capacidade de, sozinhos, curarem alguma coisa. A vida é inexplicável como as estrelas pendendo do céu. E eu, quero o sabor do meu mel intacto, ainda que poucos possam sentir o gosto que ele tem. Meus olhos de luz não conseguem enxergar muito longe, mas essa espécie dos que sentem demais precisa, pelo menos, tentar ser livre, mesmo que o custo disso seja nunca voltar para casa.

Estranho no Espelho

Mário acordou de madrugada com medo do escuro. Que sensação esquisita, nunca fui de ter medo do escuro, pensou. Tateou em busca dos óculos, calçou os chinelos com os próprios pés que pareciam enxergar na penumbra e acendeu a luz. O quarto parecia um lugar novamente prazeroso e nada assustador. A máquina de escrever imóvel no seu canto, os livros nas prateleiras, sua mesa carregada de cadernos e canetas e tudo o mais que ele utilizava todos os dias. Virou de costas para sua cama e olhou no espelho. Ali estava ele. E dentro dos seus olhos, no reflexo da pupila, ele se viu. Não era ele. Pelo menos não esse ele de cabelos castanhos encaracolados. O que era ele? Era alguém que conheceu há muito tempo, e que pelas circunstâncias, esquecera de falar consigo de novo. E foi se esquecendo, até que esqueceu a fisionomia real que tinha, a cor dos seus verdadeiros olhos, o tamanho dos seus sonhos, a densidade dos seus sentimentos e vontades.

O medo que havia lhe acometido há pouco era um medo trazido pela memória já fria de tanto tempo. A lembrança de quem era e que não era mais o assustava, como um fantasma de lençol assusta a uma criança. Esquecer de si mesmo era a pior coisa que já lhe havia acontecido. De perto, dez minutos depois de toda uma profunda observação reflexiva, ele já não parecia tão assustador. Ele viu que aquele ele podia chorar de tão triste, mas o ser triste ali não significava algo ruim. O eu real é naturalmente triste, porque a realidade é triste. E essa tristeza tinha algo de bonito, porque ela vinha da percepção de que nada dura para sempre. Nem mesmo ele, e isso era triste. Mas enquanto tivesse consciência do seu eu, da tristeza faria imergir todo um colossal sonho feito de realidade, feito do desejo da sua alma colocado em prática.

Feliz por ter entendido a real face da tristeza, apagou a luz, retirou os chinelos, sentou-se por um tempo e depois se deitou na cama. Enquanto cobria seu corpo sentia cada centímetro físico da sua existência e se sentia feliz. Olhava para o teto sem nada enxergar e se lembrava do seu eu dentro da pupila, no espelho. De saber que era triste esse eu até parecia mais feliz que ele mesmo. Como era bom esse sentimento! Queria eterniza-lo para a manhã seguinte e todos os outros dias. Um sentimento de que a morte parecia pequena diante da imensidão do ser nesta vida. Bastaria se lembrar e saberia o que fazer, como agir, como viver. Ali estava o segredo de toda uma existência no escuro, enfim, revelado. Que sorte a dele.

Aos poucos os pensamentos pareciam desaparecer no complexo do ar do sono pelo seu quarto. Quando se está com sono, entre o cá e o lá, pensamentos são fluxos de ideias ininterruptos, que enchem a cabeça e quanto mais você pensa sobre não pensar neles, mais eles se entrelaçam em camadas e camadas de profundidade. Precisava puxar do emaranhado uma pontinha de um pensamento e ir acompanhando-o, tentando entender para onde ele queria levar. Uma piscada mais demorada e pareceria terem ido embora camadas e mais camadas como se nunca tivessem existido. Uma falácia, claro. Eles se escondem e se empoleiram nas gavetas da memória e voltam de repente sem nem ao menos serem chamados. Alguns desses fluxos vão dar no que é a maior escuridão da gente. Ali eu vou só até a porta e raramente tenho coragem de olhar. Permeando essa porta estão todas as coisas que escrevo. Elas são o mais próximo da verdade que meu eu me permite ver sem atravessar aquela porta. Eu poderia atravessar essa porta de uma vez, e ver tudo que existe lá, mas eu tenho uma profunda impressão de que morreria se o fizesse. Então não faço, vou tateando no escuro e buscando não mentir para mim mesmo aquilo que já sei, enquanto tento atingir a verdade estando vivo. Uma tarefa dura, cansativa e que leva uma existência toda.

Exausto, Mário desistiu inconscientemente de tentar lembrar e dormiu. Voltou para o profundo dos sonhos para no outro dia acordar para a vida. Na vida, cumprindo com tudo o que seu eu não faria se tivesse escolha, ele se esqueceu.

Criado mudo

O menino olhava por entre as pernas da mãe que se mexiam, inconscientemente, para lá e para cá enquanto eles aguardavam o ônibus chegar. O palhaço parecia um mágico! Soprava os balões que se transformavam de longos bastões de ar em coelhinhos, cãezinhos, gatinhos, numa velocidade mágica espantosa. Lindos os animais depois de transformados! Nem pareciam feitos de bexiga e ar.

O menino e a mãe, em silêncio na vida durante a maior parte do tempo, tinham uma conexão que só faltaria ser umbilical para ser completa. Essa, se desmanchara sete anos atrás, mas a conexão continuava ali. O menino que sentia, mas não sabia o que sentia naquele mundo. E a mãe que sentia, mas achava que o que sentia era, de fato, como deveria ser o mundo. E pronto.

Olhando o palhaço rodeado de crianças alegres, o menino tentava se esconder atrás da perna da sua mãe, de segundos em segundos, como se não ver pudesse reprimir o desejo de ter um animalzinho de balão daqueles, e confiante de que olhando só de vez em quando, a mãe não interpretaria aquela ação como a de um menino mal-criado que pedia para a mãe comprar tudo o que via. Até que em um instante, acabando com toda a sua estratégia, a mãe lhe perguntou:

– Junior, você quer um balão daqueles?

O menino sabia que não podia querer. Querer aliás era coisa errada. Ele deveria se contentar com o que tinha. Mas demorou tanto tempo para formular uma resposta que não envolvesse mentir para sua mãe (mentir também era coisa de menino mal-criado, e se mentisse para uma mãe o agravante acarretaria no fato de perder o convite de Deus para um dia morar no céu com a vovó) que sua mãe lhe disse em seguida:

– Olha, fique aqui com a tia Vani cuidando destas sacolas que eu vou ali e já volto.

Esconder alegria de mãe também devia de ser um pecado dos bem grandes. Sem esforço, Junior sorriu. Enquanto imaginava as brincadeiras que poderia fazer com aquele animalzinho mágico que tinha o poder de, nas mãos do palhaço, se transformar em qualquer coisa, a mãe já voltava com um balão em formato de alguma coisa em cada mão. Ela chegou e colocou um deles encaixado sobre a cabeça do menino. Era uma coroa! Enquanto o balão roçava sua orelha ele sentiu um arrepio gostoso seguido de um barulho engraçado. Os sons do mundo eram todos novos com aquela coroa. Ou outro balão lembrava Fofinho, seu primeiro cãozinho que fora roubado havia pouco tempo. A mãe contava as moedas e colocava na bolsinha dentro da sua outra bolsa grande. “Olha, ainda sobraram várias moedinhas, podemos comer um pastel amanhã, Junior.” Ou seja, semanas das boas e raras.

O menino ainda não sabia o que era ser pobre, mas ouviria dos outros por muitos anos que sonhar não era para gente como ele. Assistindo a mãe contar as moedinhas sob o som da coroa de balão e um Fofinho nas mãos, ele sentiu vontade de chorar mas não sabia bem por que. Ele e a mãe ainda permaneceriam em um gelado silêncio que ecoava de dentro de sua casa, e por muito tempo ainda não entenderiam porque a vida tinha que ser assim. A coroa murcharia em três dias. O Fofinho feito de ar estouraria no dia seguinte, quando sem querer, o menino o deixaria cair na grama pontiaguda. Mas o que existia entre ele e a mãe era como o ar que preenchia os mágicos balões do palhaço: estaria por toda parte, onde quer que eles estivessem no mundo.

O conto da raposa vermelha – parte IV

(leia a parte I aqui, a parte II aqui e a parte III aqui)

O espelho d’água não podia mentir. Era mesmo um Leão. A Ovelha custou a acreditar. Tanto custou que nos primeiros dias não contou a ninguém sobre a sua descoberta. Se perguntava, como os outros nunca perceberam o que ela era, se conviveram com ela por tantos anos? Mas como ela percebeu dias depois, agora sabendo muito mais de si mesma, os outros estavam cegos pela banalidade cruel de uma existência simplesmente sendo, sem seus próprios espelho d’água. Se não conseguiam ver nem o que estava diante deles, como poderiam saber eles de si próprios?

Todo esse tempo passado vivendo sob a imagem de ser a Ovelha havia moldado seu ser internamente. Numa imaginou que diante dessa descoberta, poderia ser agora predadora e não caça. Achando que era feia simplesmente porque os outros a viam como diferente, a fez amargar a mais profunda das solidões. Mas também, todo esse tempo sozinha mesmo no meio de todos os outros, havia lhe dado a capacidade de saber mais de si que os outros. Foi descobrindo sobre si em meio à dor e ao desprezo dos demais, a cada eterno dia, não sem um grande sofrimento. E quanto mais estações vivia, mais tinha certeza de que seu lugar não era aquele. No entanto, ela desacreditava que pudesse haver um lugar melhor cujo qual verdadeiramente reconhecesse como sua casa. Os dias ainda continuavam eternos, e a espera de nada era mais eterna ainda. Tarefa árdua essa de se gastar a vida quando se está perdido. Mas agora, secretamente passava as tardes correndo como nunca imaginara que pudesse, sentindo o vento bagunçar e espalhar a sua juba, a cada par de movimento de suas patas, para um lado diferente. Experimentava pela primeira vez o real sentimento da liberdade. E tinha gostado.

Naquele ano, as Ovelhas tiveram um inverno dos mais rigorosos, mas sob o rico pelo que lhes cobria o corpo, elas estavam protegidas do frio. A Ovelha, que descobrira ser um Leão, não conseguia mais esconder o desconforto de não seguir os seus instintos. Mas agora ele, já Leão, sabia que se corresse diante dos seus irmãos, em poucos minutos chamaria toda a atenção para si, e todos saberiam que não era uma ovelha. Além de imaginarem que poderia se tornar o seu jantar: o que era uma ideia inconcebível para ele. Mas guardar a sensação de ser livre para apenas alguns momentos da sua tarde já não era mais suficiente. Queria ser. Ser em tempo integral. Então o Leão decidiu que precisava encontrar os seus, e naquele mesmo dia, sob o alaranjado do céu, se despediu de seu rebanho sem olhar para trás. Ninguém percebeu

Correu por dias e dias, se alimentando do que encontrasse. Seguiu em direção a leste até que após sete dias observou longe uma alcateia de leões. Eles se espalhavam em grupos de três ou quatro pela extensa planície coberta por uma grama alta e amarelada. O Leão os observava todos os dias, e tentava replicar o que seria a vida de um leão que ele ainda não sabia ser. Passado o sentimento de novidade dos primeiros dias ele percebeu que entre os leões o mesmo que acontecia com os seus irmãos eram também verdade, mas a seu modo: não importava se ali todos eram igualmente leões. A cada segundo da vida de um leão eles tentavam provar que eram uns mais fortes que os outros, ou que eram mais rápidos, ou que rugiam mais alto. Até mesmo na maneira de andar, existia uma arrogância de majestade leonina, seja para se mostrar melhores que os outros ou para conquistar as leoas mais cobiçadas. Ninguém ali se importava que com aquela rapidez, força e rugidos, todos eles podiam experimentar uma sensação de liberdade nunca imaginada pelas ovelhas e nem pela maioria dos animais, e nem que juntos eles poderiam ser ainda mais fortes. Duelavam e se machucavam quando havia algo pelo qual precisavam lutar: comida, fêmeas, o melhor lugar no campo. A violência dispensava qualquer outra qualidade que não lhes trouxesse uma vitória.

Decepcionado, o Leão continuou sua corrida em busca de uma terra que pudesse chamar de lar. Caminhou por oito estações, de inverno a inverno, observando os outros animais, enquanto crescia e sentia sua força e velocidade aumentarem com o tempo. Tinha passado por dezenas de espécies, as mais diferentes, cada qual com uma qualidade que poderia ser invejada por qualquer outra espécie. Todos, sem exceção, tinham algo de especial. Mas o Leão não conseguia entender como eles não percebiam isso, como desperdiçavam suas vidas com banalidades as quais realmente acreditavam serem algo de grande valor para eles, quando na verdade, diante da vida, aquilo não significava nada e não era nada em essência. Até que na nona estação, quando se encontrava em um vale enfeitado por muitas espécies de flores que continham todas as cores do mundo, o Leão, já cansado de todo um dia de caminhada e observação, decidiu descansar. Encontrou ali uma caverna secreta escondida entre uma pedra e outra, de onde podia assistir e contemplar como nenhum outro animal já havia feito antes, um pôr-do-sol que arrastava com ele e seus tons alaranjados toda a luz do dia, deixando aquela paisagem iluminada apenas com os milhares de vagalumes por toda a sua volta. Além dos cantos das cigarras, o silêncio era total. O ser que ousasse quebrar o silêncio, não mereceria estar vivo.

Ali, inspirado pelo brilho dos vagalumes, o Leão adormeceu, foi quando tudo aconteceu. Sonhou que estava em uma enorme planície cortada por um longo riacho, e havia um pequeno ponto cinza lá longe, que quanto mais ele olhava, mais se aproximava dele. O ponto foi chegando mais perto até que o Leão reconheceu-o como uma pequena nuvenzinha cinza. Essa pequena nuvem chegou muito perto, flutuando como uma bolinha de algodão no espaço. Se não estivesse em um lugar extraordinariamente bonito em sua paisagem, não acreditaria que aquilo estivesse realmente acontecendo. A nuvem chegou tão perto que o Leão se levantou, e começou a rondá-la, tentando desvendar, por um dos lados de seu formato enigmático, o que era aquilo.

Até que num rompante só a montanha de pedra às suas costas se levantou, dando forma a um imenso leão de pedra. Esse era uma esfinge leonina que agachada e encolhida com a cabeça entre as patas, se escondida sob o formato daquela montanha. O leão-esfinge olhou para ele fixamente, e a exemplo do que o próprio Leão estava fazendo em torno da pequena nuvem, que continuava ali, começou a andar pesadamente em torno dele, em sentido oposto ao Leão em torno da nuvem, fazendo, a cada passo, toda a terra ao redor estremecer. O Leão se sentiu capturado por aquele olhar, e agora não mais olhando a nuvenzinha, girava em torno de si mesmo, mantendo seus olhos fixos nos olhos do leão de pedra. Até que uma voz leonina soou muito alto, mesmo que os lábios da esfinge não se mexessem, e ele ouviu:

– Me dê algo de ti, e te darei tudo de mim.

O Leão não entendia o que devia fazer e continuava, lenta e redundantemente girando e mantendo seus olhos fixos no leão de pedra, ouvindo a voz que repetia:

– Me dê algo de ti, e te darei tudo de mim.

O Leão voltou a olhar para a nuvenzinha, e assim que seus olhos tocaram a sua superfície, a nuvem passou a derramar água, primeiramente gotas e mais gotas transparentes, até que a enxurrada começou a imergir da nuvem e molhar as patas do Leão. A esfinge continuava a girar pesadamente e repetindo sem parar, a cada minuto:

– Me dê algo de ti, e te darei tudo de mim.

Isso continuou se repetindo por algum tempo. O Leão olhava para a nuvem e olhava para a esfinge, que girava e girava, sem conseguir entender. E a água que antes só molhava suas patas começou a subir, lentamente, até que o Leão precisou quase se erguer completamente sobre suas patas traseiras, para continuar vendo a nuvem e a esfinge que se movia ao seu redor, agitando a água e tornando o equilíbrio ali quase insustentável.

Então aconteceu a catarse. Toda aquela água ao seu redor, a sensação de agonia de estar se afogando, começaram a lembrar todos os sentimentos sufocados dentro dele. O desprezo de seus irmãos e de deus. A vida pequena, pesada e horrível de se sentir uma ovelha feia, anormal e insignificante. A água subia e quanto mais ele tentava se esquivar dela, a voz da esfinge repetia “Me dê algo de ti, e te darei tudo de mim” e se misturava com as centenas de memórias, dores, refugos de sentimentos que entupiam seu ser e ele nem lembrava que ainda estavam ali. A falta de proteção depois de perder seu pai. O julgamento das outras ovelhas que nem o conheciam e já faziam questão de lembrá-lo a todo momento que ele era menos. Lembrou de todos os seres do mundo que havia encontrado em seu caminho durante as oito estações. Toda a vaidade. Toda a crueldade. Toda a banalidade. Até que um raio de sabedoria sem igual atingiu em cheio o coração do Leão. Ele viu tudo o que viu e podia ver a si mesmo diante de todas aquelas situações e acontecimentos. Ele podia ver o tempo passando e podia sentir as estações se repetindo uma após a outra, mudando tudo à volta de suas memórias, enquanto a água já acima do suportável começava a lhe afogar, e a esfinge dizendo “Me dê algo de ti, e te darei tudo de mim”. Então ele disse à esfinge:

– Lhe dou o que eu tenho de mais precioso em mim. De tudo o que eu sempre tive, a única coisa que realmente me mostrou quem eu poderia ser e quem eu verdadeiramente sou. Lhe dou a minha Paciência.

Ao soar essas palavras, a esfinge parou de girar, e a água retornou rapidamente para dentro da pequena nuvenzinha. A esfinge tornou a olhar diretamente nos grandes olhos brilhantes do Leão e lhe disse:

– A ilusão da coroa se quebra. A Terra dos Que Fazem Chover é sua e de todos que a merecerem. Por tudo que deres ao mundo, é quanto terás desse mundo. Tudo que sentir é só seu, e tudo que se sente é o ouro que ninguém pode roubar. Essa é a minha sentença.

Assustado, o Leão acordou do sonho de sobressalto. Era um dia cinza e garoava levemente. Sem sinal das cigarras e dos vagalumes, só as flores continuavam a compor o mesmo cenário esplendoroso do dia anterior. E o silêncio fora substituído pelo som da garoa que caía mansamente. Enquanto ele caminhava, o som da garoa parecia aumentar enquanto ele via a chuva cair sempre na mesma intensidade. Curioso, o Leão saiu da caverna, seguindo o ruído que crescia até que visualizou uma nascente de onde um pequeno jorro de água nascia. Era dali daquela mesma montanha, sob alguns galhos floridos que junto com o som das cigarras ficaram ocultos na noite anterior. O Leão foi chegando perto, e vendo de onde saía o pequeno jorro de água, foi seguindo-o com os olhos, até que o pequeno filete se abriu em um imenso riacho às suas costas.

Era um riacho que cortava uma enorme planície, ali do outro lado da montanha. O Leão ficou maravilhado. A paisagem era inconfundivelmente a mesma do sonho que tivera na noite anterior, e não havia mais ninguém ali. Ele era o primeiro e de modo inexplicável reconheceu onde estava desde o primeiro segundo em que avistou aquela paisagem. De algum modo, a paciência de toda uma vida tinha lhe presenteado com algo maior do que ele mesmo: o Leão havia chegado na Terra dos Que Fazem Chover.

(continua.)

O conto da raposa vermelha – parte III

(leia a parte I aqui e a parte II aqui)

Alface explicou que há muitos anos os animais conviviam no que se poderia hoje chamar de harmonia. O leão não sabia que podia se chamar rei, nem a ovelha sabia que era fisicamente frágil e que precisaria fugir do leão. Existia um sentimento de proteção que nascia com todos os seres, e dentro de seus corações eles entendiam que viviam num espaço sagrado, sem dono e sem deus, um mundo onde tudo estava disponível para todos e não havia necessidade de brigar para conquistar o seu espaço. Cada ser, desde a formiga mais insignificantemente pequena, até as flores que viviam apenas por alguns dias, eram uma manifestação da vida, e sabiam que tudo isso só fazia sentido se estivessem todos juntos, cumprindo aquilo pelo qual haviam nascido para fazer todos os seres: viver e desabrochar.

O girassol sabia que iria despetalar, mas nem por isso entregava um sorriso menor para o sol de todos os dias de sua existência. Ele sabia que deveria servir do seu pólen para a abelha, que fecundaria um novo girassol que por sua vez sorriria para o sempre novo sol de todos os dias. O girassol não pensava que a abelha lhe tirava algo, e sim que ele fornecia algo de si. Todos sabiam que era preciso entregar algo puro e valioso de si para o mundo sem pensar em receber nada em troca, e sabiam que só assim teriam direito àquela vida feliz que não precisavam pensar, porque não conheciam a infelicidade. O conceito de felicidade, se existisse, não passaria de um conceito, porque seria impossível traduzir em uma só palavra a sensação de ser pleno e desabrochar todos os dias. De que glória era feita a sensação de ser para o sol algo em que ele gastaria sua luz para iluminar e fazer crescer? Em que sonhos poderia se sentir a transcendência de existir por algum tempo e saber que esse tempo era único, precioso, exato e suficiente para que cada ser cumprisse seu papel para com a imensidão da existência?

Mas um dia, o sol que se punha sentiu que desejava um pouco daquele céu que durante a escuridão era só da lua. A luz de sua imponente grandeza ofuscava a luz das milhares de estrelas com quem a lua dividia seu céu, e sem saber disso, o sol quis ser aquilo que não era, e colocou uma coroa em sua própria cabeça, e se chamou de o Sol. Naquela madrugada, após o amanhecer que parecia o mesmo de todos os outros dias, o leão percebeu que era mais forte, rápido e feroz que os outros animais. Percebeu que ao som do seu rugido ensurdecedor os outros animais se curvariam para ele e o chamariam de rei. Assim, ele decidiu colocar uma coroa sobre sua própria cabeça, e se chamou de o Leão. A abelha descobriu que podia ferroar, e diante de qualquer aproximação, usaria sua arma para causar dor ao ser que demonstrasse avançar nas flores que mais cobiçava. Seu mel, a partir daquele dia, perdeu o sabor que tinha, e assim, ela colocou sobre sua pequena cabeça, a coroa, e se chamou de a Abelha. A cascavel descobriu que o som que podia produzir com sua cauda poderia ser condicionado à dor e morte causada pelo seu veneno. A partir de agora, os outros grandes animais iriam temer as cascavéis e assim ela teria sua coroa, a Cascavel.

Assim, os seres trocaram aquela vida plena e feliz pela sensação de ter uma coroa sobre suas cabeças. Eles acreditavam piamente que a tinham. Inventaram um deus que lhes havia providenciado essa soberania, e esse deus seria a justificativa para todo tipo de destruição que causariam a si mesmos e ao mundo. Cada ser, do seu ponto de vista, acreditava que era algum tipo de escolhido. Se esqueceram que não havia um escolhido, porque todos estavam ali e eram escolhidos. A coroa era uma ilusão que de tanto alimentada, se tornou verdade e foi uma não-verdade reproduzida por centenas de gerações. Havia muitos reis para poucos súditos, mas ninguém percebera isso. Assim, cada ser, usando da superioridade sagrada que cada um tinha sobre uma característica própria, isolaram-se em seus castelos de terra, areia, madeira e grama, como reis e rainhas presos em seus próprios palácios. Os poucos que nasciam filhos da liberdade, e que queriam sair e conhecer o mundo, nunca retornavam. O mundo havia se tornado um lugar impossível de ser livre. Havia se tornado um lugar impossível para ser.

Até que, em algum momento muito tempo depois, a Leoa, carregando o filho do Leão em seu corpo, correndo atrás de sua caça, ao saltar de um grande caule incrustado em uma pedra por força do tempo e da natureza, deu à luz seu filho acidentalmente, morrendo minutos depois com um graveto invisível cravado em seu coração. O pequeno filhote de leão passou algumas horas ali, até que foi encontrado pelo pai ovelha, que por instinto, levou o pequeno animal indefeso e irreconhecível para sua cabana, onde junto de seus outros filhos, tomou conta e o criou como se fosse seu. Seu nome agora era Ovelha.

A Ovelha carregou em seu peito a dor de não caber e ser diferente em um mundo que penalizava as diferenças. Era alvo do despeito das outras ovelhas e nunca se sentiu pertencendo àquele e nem a lugar algum, mas acreditava que estava fadada a ser assim, era essa a sua vida. A vida que deus havia lhe dado, a vida que por algum motivo cósmico, merecia e teria de suportar até que o sol não mais nascesse no horizonte. Resignadamente aceitava e crescia junto de seus irmãos, se sentindo inferior, feia e sozinha.

Por muito tempo ela tentou participar dos trabalhos junto dos seus irmãos, quando o velho senhor ovelha os faziam aceitá-la. Até que o velho pai partira desse mundo e a Ovelha foi completamente ignorada já que, para seus irmãos, sua feiura e excentricidade espantava as outras ovelhas. Após a morte do velho senhor ovelha, ela havia crescido muito mais que seus irmãos, de modo que caso eles resolvessem aceitá-la junto deles, então seriam eles isolados pelas outras ovelhas, por terem em seu grupo alguém tão estranho. Antes uma ovelha sozinha, do que eles todos. Seus irmãos que a carregavam por pena diante da presença do pai, passaram a nem pena mais sentir, e deixá-la entregue aos trabalhos que não fossem “coisas de ovelha normal”.

Um dia a Ovelha acordou muito cedo, como fazia todos os dias e ali ficava, esperando o tempo passar, sozinha. Dessa vez ela saiu sem que ninguém a visse e subiu a pedra cinza. Já no topo, assistiu em silêncio o nascer do sol. Observando a lenta aparição da bola de fogo sagrada no horizonte, ela pensou que nada podia ser realmente. Era insignificante diante da magnificência de um astro como aquele. O sol surgia e iluminava tudo enquanto os animais adormecidos se espreguiçavam de seus imponentes lares construídos com força e presunção. E ela ali, uma pedra sobre a outra pedra. Um ser que vinha de um provável erro de deus. Sentindo pela primeira vez o calor do sol avermelhar sua face, uma lágrima desceu o rosto da Ovelha e ela acabava de descobrir o que era chorar. Desceu a pedra lentamente, olhando suas patas marrons feias em comparação com os brancos pelos das outras ovelhas. Podia sentir a feiura vivendo em seu corpo e agarrada a ele como uma doença incurável que teria de suportar. Caminhou pela margem do lago até o máximo que podia ir sem ser presa fácil dos predadores, e só queria desaparecer dali, do mundo e da vida. Parou. Olhou em volta, nenhum sinal indicava que os outros animais haviam começado seu dia. Então a Ovelha olhou seu reflexo na água, e descobriu que era um Leão.

(continua.)

O conto da raposa vermelha – parte II

(leia a parte I aqui.)

Abriu seus olhinhos não entendendo aquilo que via. Bocejou lentamente e esticou todos os músculos que podia num impulso só. Onde estava? Quanto tempo havia se passado? O chão do lugar onde estava era um tanto inclinado, que precisou colocar força em suas patinhas para deixar aquele lugar. Ah sim! O barquinho! Risquinhos finos de água ainda desciam impulsionados pela gravidade até um ponto onde aquela pequenina poça havia se tornado uma grande poça. A raposa saiu do compartimento e antes que seus olhos se acostumassem à luminosidade ela só via um cinza sem fim e molhado. Ainda garoava e o barquinho havia se encrustado na areia da margem, e ali ficado preso dentre as conchinhas brancas e o amarelo do chão. Chovia. Era só o que conseguia ver. Chovia e chovia. A raposa vermelha saltou do barquinho e correu até debaixo de uma grande tenda verde a alguns passos dali.

– Bom dia, dona raposa! Qual é mesmo o seu nome?

Nome? O que era um nome? E desde quando podia entender palavras de uma foca falante? A raposa vermelha estava achando tudo muito estranho.

– Ah sim, os novatos… – disse a foca olhando por cima dos seus oclinhos como se aquilo tudo acontecesse corriqueiramente. – Você está na Terra dos Que Fazem Chover. Aqui você vai precisar de um nome. Ser só uma raposa vermelha não pode ser o que você é. Deixe me ver… Se quiser eu posso te ajudar. Sim, sim! Sou muito criativo ajudando os novos moradores da Terra. Hum… deixe me ver… – a foca andava em torno da raposa, com seus corpulentos movimentos, tentando sentir de que nome era aquele cheiro. – Hum, você tem cheiro de Goiaba! A propósito, meu nome é Peixe.

– Goiaba. Um nome. Eu nunca tive um, acho que serve. – disse a raposa enquanto refletia sobre o que significava aquilo tudo. Refletir aliás, ela refletia, se tornou uma atividade depois da noite no barquinho. Refletir e ter um nome já era um bom começo para uma raposa vermelha na Terra dos Que Fazem Chover.

– Goiaba, me diga. O que te traz aqui? Fugindo de casa, trabalho novo na horta do Senhor Alface, ou também está perdida?

– Acho que… hum… Acho que estou perdida. Mas acho que vou esperar a chuva passar e então descobrir como voltar para casa.

Peixe começou a rir inescrupulosamente. Ria enquanto seu corpo todo balançava em movimentos ritmados. Se segurava, colocando as patinhas perto da boca, o que fazia o som que ele emitia parecer um grunhido de sufocamento. – Minha cara Goiaba, não vai parar de chover. Aqui é a Terra dos Que Fazem Chover. Todos são acostumados com essa garoa e isso nos faz muito bem. Olhe em volta, quanto verde e colorido de nossas flores, nosso ar úmido e leve, nada disso existia antes d’Os Que Fazem Chover criarem esse lugar. Mas olha, não se preocupe, vou te dizer como fazer para encontrar o Senhor Alface. Ele é o mais sábio deste lugar e com certeza sabe o que deve fazer para você voltar para casa.

Todo mundo na Terra Dos Que Fazem Chover parecia feliz. Como assim, num lugar em que chovia constantemente? A raposa estava ali há poucas horas e ter de se proteger da água que caia do céu parecia uma atividade chata. Mas enquanto isso, ela percebia, todas as espécies pareciam conviver em harmonia com a chuva. Dois lagartos passavam e passeavam remando de cima de uma folha a superficial camada de água que os fazia deslizar pelas ruas. Uma borboleta passou por ele planando carregando perto de suas asas coloridas um sorriso úmido de quem era feliz por ser feliz, não por algum motivo. A raposa caminhava seguindo os apontamentos do mapa que Peixe havia lhe desenhado. Já toda encharcada da garoa, ela não mais tentava se proteger e estranhava o desconforto que não sentia como em normais dias de chuva no lugar onde morava.

O Senhor Alface era um senhor coruja, todo velho por baixo de suas penas acinzentadas. Ele tomava conta da Grande Horta que alimentava toda a Terra dos Que Fazem Chover. Ele também fora um dos primeiros habitantes da Terra. A raposa avistou de longe a Grande Horta, e como apontava o mapa desenhado por Peixe, debaixo da Pedra da Lua ela encontrou o senhor Alface deitado sob uma grande roda de madeira. Naquele momento o senhor Alface estava martelando enquanto ao seu lado um grande cano despejava água em um recipiente de pedra que lembrava um poço, que por sua vez canalizava a água que corria por tubos gigantes e alcançavam em seu comprimento mais do que a visão de raposa dela conseguia enxergar. Como se adivinhasse o momento em que sua solidão de todos os dias estava quebrada pela presença de outro ser, o Senhor Alface saiu debaixo da roda e olhou sorrindo para a raposa.

– Bom dia, o Senhor é o Senhor Alface? – disse a raposa um tanto tímida por ainda não estar habituada a dizer coisas que simplesmente saíam de sua boca e eram entendidas por outro ser.

– A pequena raposa vermelha… Então era verdade… – disse o Senhor Alface sorrindo misteriosamente.

– Ahn? O que? O se… senhor já me conhece?

– Ah não minha cara raposa! – gritou o Senhor Alface numa grande gargalhada que parecia ainda mais potente dentro daquele vozeirão de coruja velha – você eu não conhecia… mas já esperava que uma raposa vermelha viesse parar aqui na Terra. Minhas estórias nunca falham! Nunca! – continuou o Senhor Alface no que parecia uma gargalhada permanente a partir do primeiro segundo que abria sua bocarra.

– O Peixe me disse que o senhor saberia como fazer para me mandar de volta para casa.

– Para casa… pois bem… sim, sei como você poderia voltar para casa. E em algum momento isso vai ter que acontecer. Sempre acabamos no lugar de onde viemos. Mas eu tenho uma pequena desconfiança de que se você veio parar na Terra, você estava precisando dela.

– Como assim Senhor Alface? Acho que o senhor está me confundindo, foi um acidente, eu entrei naquele barquinho por curiosidade e saí de lá falando e refletindo, coisas que eu não tinha consciência de que poderia fazer. Olha só! Consciência! De onde vieram essas palavras estranhas? De repente acordei e estava aqui, e toda essa coisa de terra em que só chove, e meu nome ser Goiaba e eu realmente sentir que esse nome é familiar para mim. Não faz sentido algum. O senhor pode me explicar o que está acontecendo?

– Veja bem senhor Goiaba, não existem coincidências na Terra Dos Que Fazem Chover. É por isso que a palavra “sentido” é o passado de “sentir”. Só aquilo que podemos sentir pode fazer algum sentido, mesmo que na maior parte das vezes não saibamos explicar. Alguns chamam isso de intuição, eu prefiro pensar que a alma sabe mais da gente do que nós mesmos. Sente-se aqui, vou lhe contar o que muito provavelmente você já sabe mas ainda não sabe que sabe. Só podemos aprender nossas próprias coisas adormecidas dentro da gente. Como seu nome e essa Terra que já lhe espera a partir do dia em que passou a existir.

A raposa vermelha estava confusa, e ainda assim, a cada palavra do senhor Alface era como se ela fosse recuperando uma memória perdida. Algo podia explicar aquele sentimento que agora, ela sabia, podia chamar de saudade. Saudade de que? De quem? Ela se sentia cada vez mais perto de compreender. O senhor Alface sentado, olhava um ponto invisível à sua frente como se enxergasse o que estava contando, e por isso, Goiaba via também.

(continua).

O conto da raposa vermelha – parte I

Era uma raposa desde a primeira primavera depois que nasceu, quando viu seu reflexo pela primeira vez. Uma raposa vermelha, como todas as raposas que eu já vi, que diferia de todas as raposas daquele lugar. Seus olhos de luz faziam parecer que buscava sempre uma direção para onde apontar, mas não, eram olhos sem segredos e cheios de mistério, que nos reflexos de poças d’água, se auto hipnotizavam por instantes que pareciam horas. Aquela noite, ela caminhava como quem vai para algum lugar. Digo aquela noite porque sendo eu o que escreve, posso apontar o tempo com o dedo indicador e dizer: é este! Dera eu ter podido ver o tempo assim quando ainda não escrevia, mas eu estava ocupado vivendo. Como ia dizendo, aquela noite a raposa caminhava, e procurava por um lugar que não sabia direito onde era. Anterior àqueles dias, se eu pudesse mostrar em imagens, veríamos traços elípticos em volta de nada, que se cruzavam e entrecruzavam, enquanto todos os dias, ela só caminhava para lá e para cá.

A pequena raposa dormia e acordava e gastava suas horas no campo que de tão esverdeado era quase amarelo, principalmente nos dias do outono. Quando se cansava de andar, subia ao topo da colina e começava a observar os outros animais em seus afazeres, caçando, fazendo buracos, demarcando territórios. Nenhum outro animal era vermelho também, o que fazia a pequena raposa aproveitar seus olhos de luz para só se alimentar à noite, enquanto os outros dormiam, para que não fosse vista. Quando jovem, caçava os pequenos roedores, coelhos e lebres, que mais lhe amedrontavam do que tinham medo dela. Foi ficando mais velha e descobrindo que algumas das flores do campo tinham um sabor e um cheiro infinitamente melhor em sua língua, e foi trocando seus velhos hábitos carnívoros por uma seletividade vegetariana. Claro que não sabia o que era ser vegetariana, era uma raposa.

Ela tinha vergonha de ser vermelha. Tinha vergonha de se alimentar das flores e ser tão diferente dos outros animais e das outras raposas de um modo tão dolorosamente natural. Tinha vergonha de ter vergonha. Ela não queria ser assim, mas não trocaria sua vida de raposa por nenhuma outra: ser é um fardo que devia ser carregado com dignidade. Havia algum tempo a raposa vinha até as redondezas de um lago, onde descobriu cavernas secretas escondidas entre uma pedra e outra. Em uma caverna em especial, ela vinha sempre que sua cauda de espécie de cão triste não queria mais subir, ou quando, em meio à caminhada, a chuva lhe pegava de surpresa. Certo dia, num desses passeios noturnos, percebeu um barquinho de madeira amarrado à margem do rio que ficava do outro lado da floresta, depois de passar os jardins e as grandes pedras cinzas. Era um barquinho que para as raposas, era de um azul descascado. Ainda me pergunto se para espécies como os seres humanos ou os escritores, o azul das raposas era o mesmo azul. A raposa olhou em volta, nada se movia, só o pequeno barquinho, se movendo microscopicamente no balançar da água turva, criando desenhos de circunferências que se ampliavam gradualmente, até sumir no azul escuro quase negro do rio. A raposa, curiosa para saber se alguém dormia dentro do pequeno barquinho, num salto raposal, mas feito um gato, entrou nele.

O barco cheirava a feno. Um cheiro que lembrava as cores das flores que mais gostava quando corria no campo em busca de comida. O barco, que parecia tão pequenininho do lado de fora, não era tão pequeno assim quando se estava dentro dele. A raposa dava passinhos de raposa dentro do barco, focinhando os restos de feno que encontrava e com o resto dos sentidos mais cheirando do que vendo. Além da estação primaveral no ar dentro do barco, nada mais se movia. Entrou numa pequena ponte de comando no meio do barquinho, aproveitando o mistério para tentar descobrir mais alguns novos cheiros, quando sentiu que o barco se movia. O barco, com seus detalhes curiosos aos olhos de uma raposa, a despeito do tamanho, mais parecia um navio em miniatura. A raposa correu para o lado de fora do compartimento e quando percebeu o barco já se encontrava no meio do rio, bem longe da margem, lentamente navegando. Ela ficou alvoroçada, como assim uma raposa no meio do rio? Correu de um lado para o outro dentro do barco, buscando um meio de fazê-lo parar e apesar da inteligência acima da média, não lhe passava pela sua cabeça de raposa o que era e qual a função de um leme. A única ideia que mais parecia uma ideia de não raposa, era esperar, e esperar, como se espera quando se quer crescer, que de tanto se medir nunca se percebe que já se cresceu um bom tanto.

Exilada no meio do rio sem conseguir enxergar quaisquer das margens a pequena raposa voltou à pequena ponte de comando e deitou no cantinho mais distante, olhando para a porta. Ficaria ali, escutando os silêncios enquanto o barco se movia lentamente, esperando para ver onde a levaria. Estava tão longe de casa que agora começava a refletir, coisa que raposa normal não sabe fazer. Deu-se conta que nunca antes havia ido tão longe. Onde quer que as águas profundas do rio que até aquele momento não tinha fim, a levassem, seria o mais longe que havia chegado em toda sua existência. De repente, uma garoa fina se tornou uma pesada chuva, que tocava sua sinfonia enquanto deslizava na madeira do barquinho. Enquanto isso, a luz da lua saiu de trás das árvores da floresta onde estava se escondendo, e a raposa conseguiu enxergar novamente seus olhos de hipnose numa poça d’água que se formava no chão. Ser uma raposa vermelha tinha suas vantagens de estar no meio da noite dentro de um barco no meio de um lago: como sua cor era bonita ali sob aquela luz! Sendo uma raposa vermelha ainda mais vermelha pela luz da lua, ela adormeceu pensando que não. E a chuva, que deixou de ser pesada para se tornar canção de ninar, continuou o seu concerto.

(continua.)