Camila e os sentimentos

A estrada de pedregulhos fazia o ônibus chacoalhar e deixava a letra no diário toda tremida. Naquele caso a licença poética registrava uma ansiedade real: sua alma se sentia trêmula. Era um borrão de si mesma e cada dia que passava parecia um dia a menos para se passar a vida a limpo. Ela escrevia compulsivamente, como se escrever a fosse salvar de alguma coisa. E nas páginas do seu diário, sobrevivendo mais um pouco, a catarse aconteceu:

“Digamos que morri hoje à tarde. Vi o sol desfigurar lentamente e pontualmente a paisagem com o soprar da sua sombra invisível, pela última vez. Morri, me fui. O que eu gostaria que soubessem de mim? Acho que gostaria que soubessem que há algum tempo eu descobri que sou feliz. Há algum tempo (muito tempo) descobri a plenitude da existência na criação e que, para mim, não parecia ter a vida outra função que não amar e criar. Sendo aquela, matéria-prima desta.

Em alguns dias intermináveis, mas que acabaram por terminar, de cinza, chuva e frio, pelo menos no meu céu interior, eu me senti triste. Em alguns deles, senão quase todos, eu até me esqueci que era feliz. Mas após uma boa noite de sono, e o vento aquecido pelo sol se infiltrando pela minha janela através do pedacinho de vidro quebrado, a locomotiva sempre voltou a andar. Pelo meu pensamento, o que mais me rondava eram as histórias que eu sabia que devia contar, como quer que fosse. Era assim que eu me sentia viva. Os dias sem essa paixão acesa eram como este que supomos agora. Só bastava para mim me narrar para mim mesma. Usar a desculpa iminente da morte para pensar na vida.

E de repente, eis que o momento de tristeza chega, e venho eu aqui tentar descrevê-lo, porque acho que a tristeza é tão importante quanto a alegria para uma vida feliz. Mas não é melhor do que sentir paz. Minha vontade é só estar sozinha, no escuro e em silêncio. Qualquer som me incomoda e qualquer luz me dói a cabeça. Sinto-me enfraquecida como se existir não valesse tanto a pena assim. Amarga e vazia, assim me sinto. Mas é um amargo inerte, não um amargo que machuca, apesar de que, às vezes, posso até sentir dor. Eu só gostaria de poder ficar invisível para não ser incomodada com qualquer pergunta do tipo “por que você está com essa cara?”.

Enfim, nesse momento não é possível estar invisível, preciso fingir e tentar mudar minha sintonia para alguma mais parecida com a dos outros, falando do clima, e de outras banalidades de quem não tem o que dizer, ou não quer dizer. Fingir não me é uma especialidade, mas inventar, sim, nem que seja só no fluxo de pensamento mais escondido atrás do pensamento de realidade. Mas às vezes é bem difícil e cansativo. No entanto, eu sei que devo esse esforço aos que me amam e prezam pela minha escassa companhia. Gostaria de desaparecer por algum tempo.

Pronto. Outro dia, já me sinto bem melhor. Voei longe na minha tristeza e até alguma irritação, mas agora estou eu e meus inventos para suportar a existência e fazer alguma coisa dela. Produtiva? Não sei. Ao menos tento eu construir algo que venha da minha verdade mais profunda, para quem sabe, em algum momento fazer a diferença para a vida de alguém, assim como outros fizeram diferença na minha. Vaidade? Talvez. Mesmo com toda a dissociação que tento fazer daquilo que crio com coisas do tipo fama e status, posso eu estar movida pelo pensamento de querer ser grande e especial.

Mas em última instância, de nada me adiantaria uma vida de isolamento buscando fama eterna, se é qualidade desses mesmos que eu admiro, acreditar que não existe nada além do presente. Em todo caso isso tudo que faço deriva da minha pureza mais profunda e também mais dolorosa. Não creio ter em mim a semente do masoquismo: odeio sentir dor. Portanto, acaba aqui meu auto antecipado obituário. Na minha lápide, cito Hipócrates: “a arte é longa, a vida é breve”. Mas olhe só: alegrias e tristezas! Eis-me aqui, bem viva, e o melhor, desejosa de muito ainda viver.”

Camila tinha chegado ao seu Destino.

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Mais uma luz

Uma homenagem a Chester Bennington (1976-2017)

O rádio relógio marcava 4:25 da manhã. Ele não conseguia mais dormir. Já tinha virado rotina: a escuridão externa se juntava com a escuridão interna e expulsava o sono e a paz do seu coração. Virava de um lado e de outro, afundava sua cabeça entre os travesseiros na tentativa de não enxergar os fantasmas voando pelo teto do seu quarto. Enquanto a dor física em sua cabeça se misturava com a dor em seu peito, o gosto de ferrugem em sua garganta trazia à tona todas as insuportáveis noites anteriores. Isso acontecia já há tanto tempo que nem se lembrava mais, e aquilo ficava cada vez pior. O mais estranho era que havia esperança, havia mais uma luz, mas nessas horas ela se escondia não sabia aonde, e era quase impossível se dar conta de sua existência.

Sentou-se na cama, com os cotovelos apoiados na perna e as mãos segurando sua cabeça pesada, chorou. O gosto de ferrugem se misturava com o gosto do veneno vindo da garrafa ao lado de sua cama, veneno para o qual não conhecia qualquer antídoto. Na sua mente flashes lhe acometiam a todo instante, e como se os piores momentos de sua vida fossem condensados em um longa-metragem de dor, angústia e fraqueza, e o gosto de ferrugem e veneno que se misturava com as lágrimas que tentava conter dentro do seu corpo. O gosto descia para o seu estômago corroendo por dentro um corpo fadado a apodrecer em breve. A única luz que restava estava cada vez mais longe, piscando, tentando se fazer enxergar, enquanto seus olhos míopes ardiam sem nada mais alcançar.

Caminhou no escuro, as vistas embaçadas. Não precisava de olhos para realizar aquele trajeto tão conhecido da cama para o banheiro. Acendeu a luz logo acima do espelho e enquanto seus olhos se acostumavam com a luminosidade, foi aos poucos entendendo a imagem distorcida de si mesmo. Não mais se reconhecia. Uma imagem fracassada, inútil. Como podia ele ser visto como herói por tanta gente quando mal conseguia suportar sua própria dor? Num golpe de raiva espatifou a lâmpada deixando que os cacos e o sangue de sua mão se espalhassem pela pia do banheiro. Enquanto seus pés se moviam lentamente arrastando os cacos pelo chão, sua pele era cortada, mas ele não sentia nada. O gosto da ferrugem, do veneno e das lágrimas agora era só um, numa amálgama de angústia que já havia corroído seu corpo internamente, corpo que cada vez mais se parecia com a sua alma, corroída há muito.

Os raios de sol, tímidos, já entravam pela janela, mas ele não via luz alguma. A última luz havia se apagado. Só queria desaparecer, se dissipar dentro daquela escuridão que já havia cavado dentro de si mesmo. Saindo do banheiro, a gaveta de cintos do closet semiaberta mostrava uma porta-saída. E de dentro da dor, afogando nela, o desespero era tão enorme que ninguém poderia culpa-lo de não pensar nos seus amigos, na sua música, nem nos seus filhos. Eram seis? Não, eram milhões, espalhados pelos continentes do planeta. O herói e a inspiração de tanta gente não tinha mais heróis e perdeu sua inspiração naquele instante. É por isso que horas depois os milhares de órfãos chorariam num misto de luto e sentimento de culpa. Luto porque perderam seu herói e agora se sentiriam vulneráveis também. Culpa porque não fizeram nada, mas o que poderia ser feito?

Não houve escolha, no instante em que perdeu a inspiração ele não se sentia mais vivo, de qualquer modo. Ninguém soube, ninguém viu, ninguém pôde fazer nada, porque só ele entendeu quando o último sorriso já não era mais real e porquê. A busca incessante pelo lugar ao qual pertencia havia acabado, e nem milhares de sóis poderiam fazê-lo voltar a enxergar aquela última luz que, mesmo fraquinha e oscilante, ainda brilhava no final do caminho. Podia ter parado, mas ele não parou. Existem coisas que podemos ter, mas não podemos manter, e a vida, naquele instante, era uma delas. Não escolheu o cinto mais bonito dessa vez, seus olhos sequer viram o que estava fazendo. E a mesma tira que afivelou tantas outras vezes para cantar, calou seu último grito e a voz que nos salvou tantas vezes. Mas quem se importa se mais uma luz se apagar? Bem, eu me importo.

A marionete do Sr. D.

Ele foi esculpido com todo amor do mundo. O sr. D. escolheu com muito carinho a cor e a forma dos seus cabelos, lapidou delicadamente cada um dos dez dedos de suas mãos, que poderiam se articular de maneira tão meticulosa que, quem sabe, se ganhassem vida algum dia, poderiam ultrapassar sua função de agarrar meros objetos para criar coisas, sons e palavras. O sr. D. era dedicado e perfeccionista. Esculpiu o rosto da sua criação como uma espécie de falso autorretrato, corrigindo e melhorando aqueles detalhes que fariam dela uma obra superior a ele próprio. Assim são as aspirações de qualquer ser que crie por necessidade, compensar sua imperfeição naquilo que se cria.

Numa tarde chuvosa e quieta de primavera o sr. D. finalmente deu as últimas pinceladas e terminou seu projeto inanimado. A marionete seria um presente-surpresa para seu primeiro neto, filho do seu único filho, que a receberia apenas na noite de Natal, meses mais tarde. Assim, a marionete descansaria algum tempo sentada próxima à lareira, para que seu corpo de madeira secasse e se tornasse forte o suficiente para aguentar as peripécias de um menino de 7 anos. Sua gravatinha vermelha e seus sapatinhos azuis com as pontas vermelhas eram o toque final necessário para dar o ar circense que o sr. D, que fora palhaço durante sua juventude, gostava de projetar nas suas criações. Da paixão do circo veio a paixão pela senhora D., que o assistira muitas vezes maravilhada da plateia. Se apaixonaram antes mesmo que ela pudesse ver o verdadeiro rosto do palhaço. Felicidade era o nome do que veio depois.

Numa noite após o espetáculo mais especial para eles a sra. D. aceitou o pedido de casamento do sr. D. e partiram para sua nova vida em um povoado próximo às montanhas. Ele se tornou o inventor-escultor mais popular do povoado enquanto ela cozinhava os quitutes mais cobiçados. Ambos eram tão populares em seus ofícios que criaram seu filho apenas com aquela renda de modo muito livre e sempre com a mesa muito farta. Mas naquele dia, após concluir a marionete que levara sete semanas para ficar pronta, o Sr. D. não poderia ter previsto o seu azar quando saiu para buscar a lenha para sua lareira. Ele já havia acabado de encher a pequena carrocinha que transportava a madeira para a lareira e suas esculturas e invenções, quando uma terrível fatalidade trouxe uma tempestade que, num dos primeiros relâmpagos que antecederam a chuva brava, um raio magnetizou o machado do Sr. D. Ele caiu duro na floresta, sendo encontrado apenas horas mais tarde por uma sra. D. desesperada e aos prantos.

O funeral do Sr. D. foi um dos acontecimentos mais tristes na história recente do povoado. Diversos familiares e amigos das mais diversas partes vieram para prestar sua última homenagem ao Sr. D. O funeral foi realizado numa tenda armada ao lado da sua cabana, que era também sua famosa oficina onde havia construído os objetos mais curiosos com os quais presenteava as pessoas queridas e vendia para muitas pessoas notáveis que vinham de longe para apreciar suas engenhocas. Todo mundo admirava os objetos do Sr. D. como esculturas, mesmo quando muitas vezes os objetos tinha uma função meramente prática, como um pilão dado ao vizinho do lado, que devia servir para moer sementes, ou o porta-pano-de-pratos dado para a senhora Azaléia que morava do outro lado da rua. Ambos exibiam seus objetos na sala de estar e a maioria das visitas reconheceria: era uma das famosas criações do Sr. D.

Sr. D. foi enterrado com honrarias. O prefeito da cidade decretou luto oficial de três dias pela morte de um dos seus mais ilustres habitantes. As duas famílias mais ricas da cidade enviaram várias coroas de flores, intercaladamente. Cada coroa era maior e mais colorida do que a anterior dada pela outra família, como se – como todo presente dado pelas famílias ricas – aquilo fosse uma competição de quem despenderia a homenagem mais cara ao popular Sr. D. Por todos os lugares naquela semana só se falaria do talento e da falta de sorte do sr. D., tendo morrido com tanta saúde e trabalhando naquilo que tinha sido sua vida nas últimas décadas. Realmente uma triste fatalidade. Uma das famílias, não satisfeita por não ter enviado a maior coroa-de-flores, sugeriu, com total aprovação do prefeito, que uma estátua do sr. D. esculpindo a porta de entrada da cidade seria colocada ao primeiro passo da fronteira. Fazia questão, inclusive, de arcar com os custos da obra. O prefeito insistira que a cidade retirasse o custo da receita dos impostos, sendo essa a última homenagem da população, que condescendente com a dignidade dessa homenagem, aceitaria de pronto. Por fim, uniram esforços e fizeram duas estátuas, uma de cada lado da entrada da cidade.

A família do sr. D. estava arrasada pelo sinistro acontecimento tão repentino com o vovô. Então, após uma longa reunião, a família resolveu, pelo menos por enquanto, deixar a cabana do Sr. D. intocada para preservar suas últimas memórias, e quem sabe servir para unir o avô ao seu único neto no futuro. Assim, ele teria pelo menos uma chance de conhecer a aura das criações do seu famoso avô. Mas naquela noite algo mais sinistro que a morte do sr. D. aconteceu: enquanto o silêncio da noite orava seu ritual através do canto dos grilos e o cair da água no riacho ao longe, uma fagulha da lareira se transformou em fogo e a acendeu. Assim que o primeiro estalo na madeira aconteceu, a marionete deixada sentada ao lado da lareira pelo sr. D. piscou seus olhos e extraordinariamente ganhou vida. Ainda sentada, olhou de um lado a outro da cabana. O fogo da lareira iluminava parte da cabana, e a marionete enxergou diversas formas estranhas. Eram ferramentas, uma mesa abarrotada de pedaços de madeira, pregos, tecidos e latas e mais latas, todos ao mesmo tempo estranhos e reconhecíveis pela marionete. Num impulso instintivo a marionete se colocou sobre seus dois pezinhos e curiosa, a passinhos curtos, saiu a olhar as coisas dentro daquele lugar.

A marionete não sabia que aquilo era uma cabana. Para ela aquele mundo era todo um único mundo que ela acabara de conhecer. Se aproximou da mesa e comparou os pedaços de madeira e tecido sobre ela com as partes do seu corpo e de sua roupa. Viu um retrato do sr. D. e algo dentro de si a fez pensar: ele me criou. A marionete passou a madrugada observando atenta e lentamente cada objeto dentro da oficina. Encontrava uma lata de tinta e se aproximava dela com muito receio, como se a lata pudesse ganhar vida a qualquer momento. Vendo que isso não acontecia, ela começava, curiosa, a investigar cada parte do objeto até, horas depois, identificar que havia uma tampa, retirá-la num susto achando que havia a destruído, e manipulando com curiosidade e um pouco de asco o líquido que havia dentro dela. E assim recomeçava com outros objetos.

Amanheceu. A luz tomou a cabana inteira e a marionete continuou no seu ímpeto investigativo sobre cada objeto que encontrava. Assim se passaram vários dias. Quando a cabana se tornava escura ela sentava ao lado da lareira já sem fogo, fechava seus olhos, e mentalmente tornava a pensar no retrato do Sr. D. e todos aqueles objetos estranhos dos quais ela também era feita. Quando a luz voltava a inundar a cabana, ela voltava a examinar cada objeto, cada invenção e pedaço de invenção que encontrava. Acabada a exploração dos objetos, quis entender o que era aquela luz que por uma parte do tempo preenchia a cabana. Observou os vidros da janela, e chegou à conclusão de que era o vidro que fazia a luz acontecer. Teve medo da água que pingava em alguns lugares quando chovia muito. A chuva, aliás, parecia um castigo sonoro por algo que tinha feito dentro da cabana, ela devia se observar mais.

Cansada dos objetos que não a entendiam e que ela não entendia, começou a pensar sobre o homem do retrato. Em um dia pensava, aquele homem era mau, havia a colocado ali e depois havia ido embora, sem se importar em dizer onde estava e quando voltaria. Noutro dia aquele homem era bom, havia a criado e dado a ela a chance de conhecer tantas coisas novas e bonitas, e criado partes do seu corpo que a permitia se locomover e tocar nas mais curiosas criações daquele homem. Aquele homem era mau, havia deixado um retrato apenas para deixá-la curiosa acerca da sua provável vinda, mas nunca viria buscá-la. Aquele homem era bom, havia deixado um retrato para que ela nunca se esquecesse que seu criador um dia apareceria repentinamente e a explicaria detalhadamente o que ela estava fazendo ali. Por fim, ela começava a pensar que aquele homem não existia de verdade. O retrato devia ser uma ilusão, um desenho de alguma outra marionete que vivera ali antes dela.

Até que a marionete começou a sentir que suas articulações já não funcionavam mais como antes. Ela estava enferrujando e não entendia o que era o fim. Como aquele homem no retrato, se existia, podia fazer isso com ela? A jogar naquele mundo, e sair para nunca mais voltar, deixando-a com sua solidão eterna por ser diferente de tudo que havia ali. Ela nunca seria alguém e ninguém nunca a seria. Ela e o mundo viveriam naquela distância, mesmo um estando dentro no outro, como seres separados por um véu invisível. Podiam ver e tocar um ao outro, mas nunca poderiam tocar as almas um do outro, nem se compreender. Estaria o mundo, incompreendido e sozinho, também triste como ela, do outro lado daquele véu invisível? Qual era o propósito de um ser criar um outro ser e não dar a ele qualquer instrução, qualquer sinal? Não, o retrato não era um sinal. Naquele mundo em que as coisas eram reais e poderiam ser vistas e sentidas, ela queria um sinal da bondade do homem do retrato. Mas tudo que tinha era sentir na pele o que significava envelhecer sem nunca saber da existência dessa palavra. Era ver o pó se acumulando pelos cantos, a luz cada vez mais escassa, suas articulações rangendo, suas roupas sujas e rasgadas. Sua gravata e seu sapatinho agora eram pintados do mesmo cinza que o chão daquele lugar. O tempo era uma injustiça. Viver também. E onde estava o homem do retrato? Por que ele estava tão longe de salvá-la? Aquele sorriso no retrato era uma promessa? Ou era uma gozação? Não era nada. O próprio retrato foi se perdendo atrás do pó, e ela teve certeza. O homem do retrato nunca existira.

Foi quando uma nova fagulha, da mesma maneira do seu nascimento, acendeu a lareira. Ela viu o fogo crescer, as chamas refletirem em seus olhinhos de madeira empoeirados, e então ela teve certeza do que devia fazer. Colocou, um a um, seus pés sobre o fogo e ardeu em chamas, tão velha e seca que estava. Nada sentiu, saiu do nada e voltou para o nada. Se entregou para o fim com a mesma não vontade com que lhe entregaram para a vida. O fogo estalou seu corpo de maneira tão rápida que um pedacinho da sua perna saltou para o tapete da sala e colocou a cabana toda em chamas. No outro dia, as pessoas mal acreditaram no que havia acontecido quando viram a fumaça negra e cinza que saía do que restou da velha cabana do sr. D. Agora, esfriada pela leve garoa que cobria a cidade. Um casal de velhinhos abraçados, sob seu guarda-chuva, olhava com tristeza para a ruína da cabana do Sr. D. quando o velhinho disse para sua senhora: “Deus gostava tanto do Sr. D., que levou-o junto dele. Agora, todo esse tempo depois, mandou um raio para levar sua amada oficina da mesma maneira que o levou. Que Deus o tenha.”