Camila e os sentimentos

A estrada de pedregulhos fazia o ônibus chacoalhar e deixava a letra no diário toda tremida. Naquele caso a licença poética registrava uma ansiedade real: sua alma se sentia trêmula. Era um borrão de si mesma e cada dia que passava parecia um dia a menos para se passar a vida a limpo. Ela escrevia compulsivamente, como se escrever a fosse salvar de alguma coisa. E nas páginas do seu diário, sobrevivendo mais um pouco, a catarse aconteceu:

“Digamos que morri hoje à tarde. Vi o sol desfigurar lentamente e pontualmente a paisagem com o soprar da sua sombra invisível, pela última vez. Morri, me fui. O que eu gostaria que soubessem de mim? Acho que gostaria que soubessem que há algum tempo eu descobri que sou feliz. Há algum tempo (muito tempo) descobri a plenitude da existência na criação e que, para mim, não parecia ter a vida outra função que não amar e criar. Sendo aquela, matéria-prima desta.

Em alguns dias intermináveis, mas que acabaram por terminar, de cinza, chuva e frio, pelo menos no meu céu interior, eu me senti triste. Em alguns deles, senão quase todos, eu até me esqueci que era feliz. Mas após uma boa noite de sono, e o vento aquecido pelo sol se infiltrando pela minha janela através do pedacinho de vidro quebrado, a locomotiva sempre voltou a andar. Pelo meu pensamento, o que mais me rondava eram as histórias que eu sabia que devia contar, como quer que fosse. Era assim que eu me sentia viva. Os dias sem essa paixão acesa eram como este que supomos agora. Só bastava para mim me narrar para mim mesma. Usar a desculpa iminente da morte para pensar na vida.

E de repente, eis que o momento de tristeza chega, e venho eu aqui tentar descrevê-lo, porque acho que a tristeza é tão importante quanto a alegria para uma vida feliz. Mas não é melhor do que sentir paz. Minha vontade é só estar sozinha, no escuro e em silêncio. Qualquer som me incomoda e qualquer luz me dói a cabeça. Sinto-me enfraquecida como se existir não valesse tanto a pena assim. Amarga e vazia, assim me sinto. Mas é um amargo inerte, não um amargo que machuca, apesar de que, às vezes, posso até sentir dor. Eu só gostaria de poder ficar invisível para não ser incomodada com qualquer pergunta do tipo “por que você está com essa cara?”.

Enfim, nesse momento não é possível estar invisível, preciso fingir e tentar mudar minha sintonia para alguma mais parecida com a dos outros, falando do clima, e de outras banalidades de quem não tem o que dizer, ou não quer dizer. Fingir não me é uma especialidade, mas inventar, sim, nem que seja só no fluxo de pensamento mais escondido atrás do pensamento de realidade. Mas às vezes é bem difícil e cansativo. No entanto, eu sei que devo esse esforço aos que me amam e prezam pela minha escassa companhia. Gostaria de desaparecer por algum tempo.

Pronto. Outro dia, já me sinto bem melhor. Voei longe na minha tristeza e até alguma irritação, mas agora estou eu e meus inventos para suportar a existência e fazer alguma coisa dela. Produtiva? Não sei. Ao menos tento eu construir algo que venha da minha verdade mais profunda, para quem sabe, em algum momento fazer a diferença para a vida de alguém, assim como outros fizeram diferença na minha. Vaidade? Talvez. Mesmo com toda a dissociação que tento fazer daquilo que crio com coisas do tipo fama e status, posso eu estar movida pelo pensamento de querer ser grande e especial.

Mas em última instância, de nada me adiantaria uma vida de isolamento buscando fama eterna, se é qualidade desses mesmos que eu admiro, acreditar que não existe nada além do presente. Em todo caso isso tudo que faço deriva da minha pureza mais profunda e também mais dolorosa. Não creio ter em mim a semente do masoquismo: odeio sentir dor. Portanto, acaba aqui meu auto antecipado obituário. Na minha lápide, cito Hipócrates: “a arte é longa, a vida é breve”. Mas olhe só: alegrias e tristezas! Eis-me aqui, bem viva, e o melhor, desejosa de muito ainda viver.”

Camila tinha chegado ao seu Destino.

Anúncios

A marionete do Sr. D.

Ele foi esculpido com todo amor do mundo. O sr. D. escolheu com muito carinho a cor e a forma dos seus cabelos, lapidou delicadamente cada um dos dez dedos de suas mãos, que poderiam se articular de maneira tão meticulosa que, quem sabe, se ganhassem vida algum dia, poderiam ultrapassar sua função de agarrar meros objetos para criar coisas, sons e palavras. O sr. D. era dedicado e perfeccionista. Esculpiu o rosto da sua criação como uma espécie de falso autorretrato, corrigindo e melhorando aqueles detalhes que fariam dela uma obra superior a ele próprio. Assim são as aspirações de qualquer ser que crie por necessidade, compensar sua imperfeição naquilo que se cria.

Numa tarde chuvosa e quieta de primavera o sr. D. finalmente deu as últimas pinceladas e terminou seu projeto inanimado. A marionete seria um presente-surpresa para seu primeiro neto, filho do seu único filho, que a receberia apenas na noite de Natal, meses mais tarde. Assim, a marionete descansaria algum tempo sentada próxima à lareira, para que seu corpo de madeira secasse e se tornasse forte o suficiente para aguentar as peripécias de um menino de 7 anos. Sua gravatinha vermelha e seus sapatinhos azuis com as pontas vermelhas eram o toque final necessário para dar o ar circense que o sr. D, que fora palhaço durante sua juventude, gostava de projetar nas suas criações. Da paixão do circo veio a paixão pela senhora D., que o assistira muitas vezes maravilhada da plateia. Se apaixonaram antes mesmo que ela pudesse ver o verdadeiro rosto do palhaço. Felicidade era o nome do que veio depois.

Numa noite após o espetáculo mais especial para eles a sra. D. aceitou o pedido de casamento do sr. D. e partiram para sua nova vida em um povoado próximo às montanhas. Ele se tornou o inventor-escultor mais popular do povoado enquanto ela cozinhava os quitutes mais cobiçados. Ambos eram tão populares em seus ofícios que criaram seu filho apenas com aquela renda de modo muito livre e sempre com a mesa muito farta. Mas naquele dia, após concluir a marionete que levara sete semanas para ficar pronta, o Sr. D. não poderia ter previsto o seu azar quando saiu para buscar a lenha para sua lareira. Ele já havia acabado de encher a pequena carrocinha que transportava a madeira para a lareira e suas esculturas e invenções, quando uma terrível fatalidade trouxe uma tempestade que, num dos primeiros relâmpagos que antecederam a chuva brava, um raio magnetizou o machado do Sr. D. Ele caiu duro na floresta, sendo encontrado apenas horas mais tarde por uma sra. D. desesperada e aos prantos.

O funeral do Sr. D. foi um dos acontecimentos mais tristes na história recente do povoado. Diversos familiares e amigos das mais diversas partes vieram para prestar sua última homenagem ao Sr. D. O funeral foi realizado numa tenda armada ao lado da sua cabana, que era também sua famosa oficina onde havia construído os objetos mais curiosos com os quais presenteava as pessoas queridas e vendia para muitas pessoas notáveis que vinham de longe para apreciar suas engenhocas. Todo mundo admirava os objetos do Sr. D. como esculturas, mesmo quando muitas vezes os objetos tinha uma função meramente prática, como um pilão dado ao vizinho do lado, que devia servir para moer sementes, ou o porta-pano-de-pratos dado para a senhora Azaléia que morava do outro lado da rua. Ambos exibiam seus objetos na sala de estar e a maioria das visitas reconheceria: era uma das famosas criações do Sr. D.

Sr. D. foi enterrado com honrarias. O prefeito da cidade decretou luto oficial de três dias pela morte de um dos seus mais ilustres habitantes. As duas famílias mais ricas da cidade enviaram várias coroas de flores, intercaladamente. Cada coroa era maior e mais colorida do que a anterior dada pela outra família, como se – como todo presente dado pelas famílias ricas – aquilo fosse uma competição de quem despenderia a homenagem mais cara ao popular Sr. D. Por todos os lugares naquela semana só se falaria do talento e da falta de sorte do sr. D., tendo morrido com tanta saúde e trabalhando naquilo que tinha sido sua vida nas últimas décadas. Realmente uma triste fatalidade. Uma das famílias, não satisfeita por não ter enviado a maior coroa-de-flores, sugeriu, com total aprovação do prefeito, que uma estátua do sr. D. esculpindo a porta de entrada da cidade seria colocada ao primeiro passo da fronteira. Fazia questão, inclusive, de arcar com os custos da obra. O prefeito insistira que a cidade retirasse o custo da receita dos impostos, sendo essa a última homenagem da população, que condescendente com a dignidade dessa homenagem, aceitaria de pronto. Por fim, uniram esforços e fizeram duas estátuas, uma de cada lado da entrada da cidade.

A família do sr. D. estava arrasada pelo sinistro acontecimento tão repentino com o vovô. Então, após uma longa reunião, a família resolveu, pelo menos por enquanto, deixar a cabana do Sr. D. intocada para preservar suas últimas memórias, e quem sabe servir para unir o avô ao seu único neto no futuro. Assim, ele teria pelo menos uma chance de conhecer a aura das criações do seu famoso avô. Mas naquela noite algo mais sinistro que a morte do sr. D. aconteceu: enquanto o silêncio da noite orava seu ritual através do canto dos grilos e o cair da água no riacho ao longe, uma fagulha da lareira se transformou em fogo e a acendeu. Assim que o primeiro estalo na madeira aconteceu, a marionete deixada sentada ao lado da lareira pelo sr. D. piscou seus olhos e extraordinariamente ganhou vida. Ainda sentada, olhou de um lado a outro da cabana. O fogo da lareira iluminava parte da cabana, e a marionete enxergou diversas formas estranhas. Eram ferramentas, uma mesa abarrotada de pedaços de madeira, pregos, tecidos e latas e mais latas, todos ao mesmo tempo estranhos e reconhecíveis pela marionete. Num impulso instintivo a marionete se colocou sobre seus dois pezinhos e curiosa, a passinhos curtos, saiu a olhar as coisas dentro daquele lugar.

A marionete não sabia que aquilo era uma cabana. Para ela aquele mundo era todo um único mundo que ela acabara de conhecer. Se aproximou da mesa e comparou os pedaços de madeira e tecido sobre ela com as partes do seu corpo e de sua roupa. Viu um retrato do sr. D. e algo dentro de si a fez pensar: ele me criou. A marionete passou a madrugada observando atenta e lentamente cada objeto dentro da oficina. Encontrava uma lata de tinta e se aproximava dela com muito receio, como se a lata pudesse ganhar vida a qualquer momento. Vendo que isso não acontecia, ela começava, curiosa, a investigar cada parte do objeto até, horas depois, identificar que havia uma tampa, retirá-la num susto achando que havia a destruído, e manipulando com curiosidade e um pouco de asco o líquido que havia dentro dela. E assim recomeçava com outros objetos.

Amanheceu. A luz tomou a cabana inteira e a marionete continuou no seu ímpeto investigativo sobre cada objeto que encontrava. Assim se passaram vários dias. Quando a cabana se tornava escura ela sentava ao lado da lareira já sem fogo, fechava seus olhos, e mentalmente tornava a pensar no retrato do Sr. D. e todos aqueles objetos estranhos dos quais ela também era feita. Quando a luz voltava a inundar a cabana, ela voltava a examinar cada objeto, cada invenção e pedaço de invenção que encontrava. Acabada a exploração dos objetos, quis entender o que era aquela luz que por uma parte do tempo preenchia a cabana. Observou os vidros da janela, e chegou à conclusão de que era o vidro que fazia a luz acontecer. Teve medo da água que pingava em alguns lugares quando chovia muito. A chuva, aliás, parecia um castigo sonoro por algo que tinha feito dentro da cabana, ela devia se observar mais.

Cansada dos objetos que não a entendiam e que ela não entendia, começou a pensar sobre o homem do retrato. Em um dia pensava, aquele homem era mau, havia a colocado ali e depois havia ido embora, sem se importar em dizer onde estava e quando voltaria. Noutro dia aquele homem era bom, havia a criado e dado a ela a chance de conhecer tantas coisas novas e bonitas, e criado partes do seu corpo que a permitia se locomover e tocar nas mais curiosas criações daquele homem. Aquele homem era mau, havia deixado um retrato apenas para deixá-la curiosa acerca da sua provável vinda, mas nunca viria buscá-la. Aquele homem era bom, havia deixado um retrato para que ela nunca se esquecesse que seu criador um dia apareceria repentinamente e a explicaria detalhadamente o que ela estava fazendo ali. Por fim, ela começava a pensar que aquele homem não existia de verdade. O retrato devia ser uma ilusão, um desenho de alguma outra marionete que vivera ali antes dela.

Até que a marionete começou a sentir que suas articulações já não funcionavam mais como antes. Ela estava enferrujando e não entendia o que era o fim. Como aquele homem no retrato, se existia, podia fazer isso com ela? A jogar naquele mundo, e sair para nunca mais voltar, deixando-a com sua solidão eterna por ser diferente de tudo que havia ali. Ela nunca seria alguém e ninguém nunca a seria. Ela e o mundo viveriam naquela distância, mesmo um estando dentro no outro, como seres separados por um véu invisível. Podiam ver e tocar um ao outro, mas nunca poderiam tocar as almas um do outro, nem se compreender. Estaria o mundo, incompreendido e sozinho, também triste como ela, do outro lado daquele véu invisível? Qual era o propósito de um ser criar um outro ser e não dar a ele qualquer instrução, qualquer sinal? Não, o retrato não era um sinal. Naquele mundo em que as coisas eram reais e poderiam ser vistas e sentidas, ela queria um sinal da bondade do homem do retrato. Mas tudo que tinha era sentir na pele o que significava envelhecer sem nunca saber da existência dessa palavra. Era ver o pó se acumulando pelos cantos, a luz cada vez mais escassa, suas articulações rangendo, suas roupas sujas e rasgadas. Sua gravata e seu sapatinho agora eram pintados do mesmo cinza que o chão daquele lugar. O tempo era uma injustiça. Viver também. E onde estava o homem do retrato? Por que ele estava tão longe de salvá-la? Aquele sorriso no retrato era uma promessa? Ou era uma gozação? Não era nada. O próprio retrato foi se perdendo atrás do pó, e ela teve certeza. O homem do retrato nunca existira.

Foi quando uma nova fagulha, da mesma maneira do seu nascimento, acendeu a lareira. Ela viu o fogo crescer, as chamas refletirem em seus olhinhos de madeira empoeirados, e então ela teve certeza do que devia fazer. Colocou, um a um, seus pés sobre o fogo e ardeu em chamas, tão velha e seca que estava. Nada sentiu, saiu do nada e voltou para o nada. Se entregou para o fim com a mesma não vontade com que lhe entregaram para a vida. O fogo estalou seu corpo de maneira tão rápida que um pedacinho da sua perna saltou para o tapete da sala e colocou a cabana toda em chamas. No outro dia, as pessoas mal acreditaram no que havia acontecido quando viram a fumaça negra e cinza que saía do que restou da velha cabana do sr. D. Agora, esfriada pela leve garoa que cobria a cidade. Um casal de velhinhos abraçados, sob seu guarda-chuva, olhava com tristeza para a ruína da cabana do Sr. D. quando o velhinho disse para sua senhora: “Deus gostava tanto do Sr. D., que levou-o junto dele. Agora, todo esse tempo depois, mandou um raio para levar sua amada oficina da mesma maneira que o levou. Que Deus o tenha.”

Estranho no Espelho

Mário acordou de madrugada com medo do escuro. Que sensação esquisita, nunca fui de ter medo do escuro, pensou. Tateou em busca dos óculos, calçou os chinelos com os próprios pés que pareciam enxergar na penumbra e acendeu a luz. O quarto parecia um lugar novamente prazeroso e nada assustador. A máquina de escrever imóvel no seu canto, os livros nas prateleiras, sua mesa carregada de cadernos e canetas e tudo o mais que ele utilizava todos os dias. Virou de costas para sua cama e olhou no espelho. Ali estava ele. E dentro dos seus olhos, no reflexo da pupila, ele se viu. Não era ele. Pelo menos não esse ele de cabelos castanhos encaracolados. O que era ele? Era alguém que conheceu há muito tempo, e que pelas circunstâncias, esquecera de falar consigo de novo. E foi se esquecendo, até que esqueceu a fisionomia real que tinha, a cor dos seus verdadeiros olhos, o tamanho dos seus sonhos, a densidade dos seus sentimentos e vontades.

O medo que havia lhe acometido há pouco era um medo trazido pela memória já fria de tanto tempo. A lembrança de quem era e que não era mais o assustava, como um fantasma de lençol assusta a uma criança. Esquecer de si mesmo era a pior coisa que já lhe havia acontecido. De perto, dez minutos depois de toda uma profunda observação reflexiva, ele já não parecia tão assustador. Ele viu que aquele ele podia chorar de tão triste, mas o ser triste ali não significava algo ruim. O eu real é naturalmente triste, porque a realidade é triste. E essa tristeza tinha algo de bonito, porque ela vinha da percepção de que nada dura para sempre. Nem mesmo ele, e isso era triste. Mas enquanto tivesse consciência do seu eu, da tristeza faria imergir todo um colossal sonho feito de realidade, feito do desejo da sua alma colocado em prática.

Feliz por ter entendido a real face da tristeza, apagou a luz, retirou os chinelos, sentou-se por um tempo e depois se deitou na cama. Enquanto cobria seu corpo sentia cada centímetro físico da sua existência e se sentia feliz. Olhava para o teto sem nada enxergar e se lembrava do seu eu dentro da pupila, no espelho. De saber que era triste esse eu até parecia mais feliz que ele mesmo. Como era bom esse sentimento! Queria eterniza-lo para a manhã seguinte e todos os outros dias. Um sentimento de que a morte parecia pequena diante da imensidão do ser nesta vida. Bastaria se lembrar e saberia o que fazer, como agir, como viver. Ali estava o segredo de toda uma existência no escuro, enfim, revelado. Que sorte a dele.

Aos poucos os pensamentos pareciam desaparecer no complexo do ar do sono pelo seu quarto. Quando se está com sono, entre o cá e o lá, pensamentos são fluxos de ideias ininterruptos, que enchem a cabeça e quanto mais você pensa sobre não pensar neles, mais eles se entrelaçam em camadas e camadas de profundidade. Precisava puxar do emaranhado uma pontinha de um pensamento e ir acompanhando-o, tentando entender para onde ele queria levar. Uma piscada mais demorada e pareceria terem ido embora camadas e mais camadas como se nunca tivessem existido. Uma falácia, claro. Eles se escondem e se empoleiram nas gavetas da memória e voltam de repente sem nem ao menos serem chamados. Alguns desses fluxos vão dar no que é a maior escuridão da gente. Ali eu vou só até a porta e raramente tenho coragem de olhar. Permeando essa porta estão todas as coisas que escrevo. Elas são o mais próximo da verdade que meu eu me permite ver sem atravessar aquela porta. Eu poderia atravessar essa porta de uma vez, e ver tudo que existe lá, mas eu tenho uma profunda impressão de que morreria se o fizesse. Então não faço, vou tateando no escuro e buscando não mentir para mim mesmo aquilo que já sei, enquanto tento atingir a verdade estando vivo. Uma tarefa dura, cansativa e que leva uma existência toda.

Exausto, Mário desistiu inconscientemente de tentar lembrar e dormiu. Voltou para o profundo dos sonhos para no outro dia acordar para a vida. Na vida, cumprindo com tudo o que seu eu não faria se tivesse escolha, ele se esqueceu.

O conto da raposa vermelha – parte III

(leia a parte I aqui e a parte II aqui)

Alface explicou que há muitos anos os animais conviviam no que se poderia hoje chamar de harmonia. O leão não sabia que podia se chamar rei, nem a ovelha sabia que era fisicamente frágil e que precisaria fugir do leão. Existia um sentimento de proteção que nascia com todos os seres, e dentro de seus corações eles entendiam que viviam num espaço sagrado, sem dono e sem deus, um mundo onde tudo estava disponível para todos e não havia necessidade de brigar para conquistar o seu espaço. Cada ser, desde a formiga mais insignificantemente pequena, até as flores que viviam apenas por alguns dias, eram uma manifestação da vida, e sabiam que tudo isso só fazia sentido se estivessem todos juntos, cumprindo aquilo pelo qual haviam nascido para fazer todos os seres: viver e desabrochar.

O girassol sabia que iria despetalar, mas nem por isso entregava um sorriso menor para o sol de todos os dias de sua existência. Ele sabia que deveria servir do seu pólen para a abelha, que fecundaria um novo girassol que por sua vez sorriria para o sempre novo sol de todos os dias. O girassol não pensava que a abelha lhe tirava algo, e sim que ele fornecia algo de si. Todos sabiam que era preciso entregar algo puro e valioso de si para o mundo sem pensar em receber nada em troca, e sabiam que só assim teriam direito àquela vida feliz que não precisavam pensar, porque não conheciam a infelicidade. O conceito de felicidade, se existisse, não passaria de um conceito, porque seria impossível traduzir em uma só palavra a sensação de ser pleno e desabrochar todos os dias. De que glória era feita a sensação de ser para o sol algo em que ele gastaria sua luz para iluminar e fazer crescer? Em que sonhos poderia se sentir a transcendência de existir por algum tempo e saber que esse tempo era único, precioso, exato e suficiente para que cada ser cumprisse seu papel para com a imensidão da existência?

Mas um dia, o sol que se punha sentiu que desejava um pouco daquele céu que durante a escuridão era só da lua. A luz de sua imponente grandeza ofuscava a luz das milhares de estrelas com quem a lua dividia seu céu, e sem saber disso, o sol quis ser aquilo que não era, e colocou uma coroa em sua própria cabeça, e se chamou de o Sol. Naquela madrugada, após o amanhecer que parecia o mesmo de todos os outros dias, o leão percebeu que era mais forte, rápido e feroz que os outros animais. Percebeu que ao som do seu rugido ensurdecedor os outros animais se curvariam para ele e o chamariam de rei. Assim, ele decidiu colocar uma coroa sobre sua própria cabeça, e se chamou de o Leão. A abelha descobriu que podia ferroar, e diante de qualquer aproximação, usaria sua arma para causar dor ao ser que demonstrasse avançar nas flores que mais cobiçava. Seu mel, a partir daquele dia, perdeu o sabor que tinha, e assim, ela colocou sobre sua pequena cabeça, a coroa, e se chamou de a Abelha. A cascavel descobriu que o som que podia produzir com sua cauda poderia ser condicionado à dor e morte causada pelo seu veneno. A partir de agora, os outros grandes animais iriam temer as cascavéis e assim ela teria sua coroa, a Cascavel.

Assim, os seres trocaram aquela vida plena e feliz pela sensação de ter uma coroa sobre suas cabeças. Eles acreditavam piamente que a tinham. Inventaram um deus que lhes havia providenciado essa soberania, e esse deus seria a justificativa para todo tipo de destruição que causariam a si mesmos e ao mundo. Cada ser, do seu ponto de vista, acreditava que era algum tipo de escolhido. Se esqueceram que não havia um escolhido, porque todos estavam ali e eram escolhidos. A coroa era uma ilusão que de tanto alimentada, se tornou verdade e foi uma não-verdade reproduzida por centenas de gerações. Havia muitos reis para poucos súditos, mas ninguém percebera isso. Assim, cada ser, usando da superioridade sagrada que cada um tinha sobre uma característica própria, isolaram-se em seus castelos de terra, areia, madeira e grama, como reis e rainhas presos em seus próprios palácios. Os poucos que nasciam filhos da liberdade, e que queriam sair e conhecer o mundo, nunca retornavam. O mundo havia se tornado um lugar impossível de ser livre. Havia se tornado um lugar impossível para ser.

Até que, em algum momento muito tempo depois, a Leoa, carregando o filho do Leão em seu corpo, correndo atrás de sua caça, ao saltar de um grande caule incrustado em uma pedra por força do tempo e da natureza, deu à luz seu filho acidentalmente, morrendo minutos depois com um graveto invisível cravado em seu coração. O pequeno filhote de leão passou algumas horas ali, até que foi encontrado pelo pai ovelha, que por instinto, levou o pequeno animal indefeso e irreconhecível para sua cabana, onde junto de seus outros filhos, tomou conta e o criou como se fosse seu. Seu nome agora era Ovelha.

A Ovelha carregou em seu peito a dor de não caber e ser diferente em um mundo que penalizava as diferenças. Era alvo do despeito das outras ovelhas e nunca se sentiu pertencendo àquele e nem a lugar algum, mas acreditava que estava fadada a ser assim, era essa a sua vida. A vida que deus havia lhe dado, a vida que por algum motivo cósmico, merecia e teria de suportar até que o sol não mais nascesse no horizonte. Resignadamente aceitava e crescia junto de seus irmãos, se sentindo inferior, feia e sozinha.

Por muito tempo ela tentou participar dos trabalhos junto dos seus irmãos, quando o velho senhor ovelha os faziam aceitá-la. Até que o velho pai partira desse mundo e a Ovelha foi completamente ignorada já que, para seus irmãos, sua feiura e excentricidade espantava as outras ovelhas. Após a morte do velho senhor ovelha, ela havia crescido muito mais que seus irmãos, de modo que caso eles resolvessem aceitá-la junto deles, então seriam eles isolados pelas outras ovelhas, por terem em seu grupo alguém tão estranho. Antes uma ovelha sozinha, do que eles todos. Seus irmãos que a carregavam por pena diante da presença do pai, passaram a nem pena mais sentir, e deixá-la entregue aos trabalhos que não fossem “coisas de ovelha normal”.

Um dia a Ovelha acordou muito cedo, como fazia todos os dias e ali ficava, esperando o tempo passar, sozinha. Dessa vez ela saiu sem que ninguém a visse e subiu a pedra cinza. Já no topo, assistiu em silêncio o nascer do sol. Observando a lenta aparição da bola de fogo sagrada no horizonte, ela pensou que nada podia ser realmente. Era insignificante diante da magnificência de um astro como aquele. O sol surgia e iluminava tudo enquanto os animais adormecidos se espreguiçavam de seus imponentes lares construídos com força e presunção. E ela ali, uma pedra sobre a outra pedra. Um ser que vinha de um provável erro de deus. Sentindo pela primeira vez o calor do sol avermelhar sua face, uma lágrima desceu o rosto da Ovelha e ela acabava de descobrir o que era chorar. Desceu a pedra lentamente, olhando suas patas marrons feias em comparação com os brancos pelos das outras ovelhas. Podia sentir a feiura vivendo em seu corpo e agarrada a ele como uma doença incurável que teria de suportar. Caminhou pela margem do lago até o máximo que podia ir sem ser presa fácil dos predadores, e só queria desaparecer dali, do mundo e da vida. Parou. Olhou em volta, nenhum sinal indicava que os outros animais haviam começado seu dia. Então a Ovelha olhou seu reflexo na água, e descobriu que era um Leão.

(continua.)

O segredo de Alicia

Alicia, minha afilhadinha, do altíssimo dos seus seis anos e alguns dias de idade e pura experiência, no sentido mais infante da palavra, olhou fundo em meus olhos, mas da forma despretensiosa de uma criança, e disse:

– Padrinho, vou te contar um segredo. Uma coisa que eu e as minhas amigas fazemos todos os dias quando a gente chega da aula.

Uau, pensei comigo mesmo. Será que havia chegado algum momento fatídico da existência dela e que ela queria dividir comigo? Não sabia o que sentir. Apreensivo, surpreso, curioso, lhe disse:

– Pode dizer, meu amor – tentando soar o menos curioso possível. Estávamos na rua, num momento de pausa do nosso passeio de bicicleta. Era um dia azul, sem uma nuvem de chuva, daqueles dias perfeitos para compartilhar segredos entre uma afilhada e seu padrinho.

– Não posso dizer aqui, tem muita gente. E é muito segredo, você não pode contar para ninguém! – Disse ela, séria, tentando gesticular uma seriedade adulta. Eu, adulto que sou, acreditava todo no seu mistério. Certo dia ela me havia dito que não era mais um bebê, era um “adulto que fala”, segundo as palavras dela. Acreditei.

Meu Deus, pensei, sem pensar em Deus. Que será que ela vai me dizer? Havia uma semana ela tinha dito que eu era seu melhor amigo, aquela parecia uma porta aberta. Uma porta aberta para o infinito de uma menina de pouco mais de seis anos e que eu não tinha a mínima ideia do que tinha atrás. Antes daquele momento, os nossos, mais íntimos, eram enfeitados com lápis-de-cor, desenhos, piscina e sorvete. Agora eu estava diante da minha afilhadinha, que havia crescido e tinha um grande segredo para me contar.

– Acho que vou te contar agora, padrinho, que não tem ninguém por perto – disse ela, de cima da garupa enquanto pedalando, eu ouvia e até pedalava com os ouvidos para não perder nada.

Eu nada disse, reticente, apenas esperando.

– Então, é o seguinte. Eu tenho um poder de gelo. A Manu tem um poder de fogo, e a Mariana tem um poder de terra. A gente sempre solta esse poder depois que a gente chega da escola. Não conta para ninguém, viu padrinho?

Eu prometi, mas quebrei a promessa. Que triste! Mas eu juro que o próximo segredo eu vou honrar a sete chaves. Afinal, é isso que os melhores amigos devem fazer.

 

Clarice e eu

“- Clarice, morrer dói tanto quanto viver?”

Eu comecei nossa conversa assim. Ela em silêncio, ainda me surpreendia, como se não estivesse ali por todos aqueles anos me fazendo companhia. Então Clarice levantou e foi até a cozinha. Voltou com dois chás de camomila sem açúcar, um para mim e outro para ela. Sentou-se novamente na poltrona e me atingiu com aquele olhar eterno, duro e leve. Nem sei quanto tempo ficamos daquele jeito, apenas olhando um para o outro.

Ela também sentira que fosse morrer jovem demais, e cá estávamos nós. Vivos e para sempre jovens, apesar das rugas que cada dia mais se afirmavam no espelho, ou os cabelos brancos que induziam o outro a nos encontrar envelhecendo. Nossa alma seguia infante e precisando escrever para se fazer comunicar, porque nossos sonhos nasciam sempre embrionários, para que pudéssemos fazê-los crescer na medida em que a nossa dual realidade permitia.

“- Clarice, qual a função dessa angústia que a gente sente e não sabe de onde vem?”

Mas que necessidade era essa que tínhamos de sempre querer achar nomes e personalidades para os capítulos da nossa vida? Escrevíamos essas linhas sem saber se teríamos tempo de relê-las. E isso não era um pensamento suicida. Era só um jeito de admitir a nós mesmos que mesmo jovens, não ignorávamos a força da impermanência das coisas. Eu e ela, que a meu exemplo, também sonhava em um dia se tornar escritora. Nunca nos tornaríamos.

“Clarice, escrever é o lugar onde me encontro com todas as minhas fraquezas abraçadas calorosamente pela minha força. É a voz que fala de mim e comigo, mas não sou eu. O exercício da pena em cumprimento. Minha auto condenação para me perdoar de tudo que as palavras faladas não podem alcançar. Meu portal de entrada para o meu passado e minha saída para o meu futuro. Meu único e universal jeito de acreditar em Deus sem precisar acreditar que Ele realmente exista.”

Clarice me pegou no colo, passou a mão nos meus cabelos e me passou o bastão dizendo:

“Está com você meu menino querido. Doer é só um jeito de viver que é bem melhor do que passar a vida anestesiado pela ignorância e sorrisos falsos.”

E então, eu dormi.