A marionete do Sr. D.

Ele foi esculpido com todo amor do mundo. O sr. D. escolheu com muito carinho a cor e a forma dos seus cabelos, lapidou delicadamente cada um dos dez dedos de suas mãos, que poderiam se articular de maneira tão meticulosa que, quem sabe, se ganhassem vida algum dia, poderiam ultrapassar sua função de agarrar meros objetos para criar coisas, sons e palavras. O sr. D. era dedicado e perfeccionista. Esculpiu o rosto da sua criação como uma espécie de falso autorretrato, corrigindo e melhorando aqueles detalhes que fariam dela uma obra superior a ele próprio. Assim são as aspirações de qualquer ser que crie por necessidade, compensar sua imperfeição naquilo que se cria.

Numa tarde chuvosa e quieta de primavera o sr. D. finalmente deu as últimas pinceladas e terminou seu projeto inanimado. A marionete seria um presente-surpresa para seu primeiro neto, filho do seu único filho, que a receberia apenas na noite de Natal, meses mais tarde. Assim, a marionete descansaria algum tempo sentada próxima à lareira, para que seu corpo de madeira secasse e se tornasse forte o suficiente para aguentar as peripécias de um menino de 7 anos. Sua gravatinha vermelha e seus sapatinhos azuis com as pontas vermelhas eram o toque final necessário para dar o ar circense que o sr. D, que fora palhaço durante sua juventude, gostava de projetar nas suas criações. Da paixão do circo veio a paixão pela senhora D., que o assistira muitas vezes maravilhada da plateia. Se apaixonaram antes mesmo que ela pudesse ver o verdadeiro rosto do palhaço. Felicidade era o nome do que veio depois.

Numa noite após o espetáculo mais especial para eles a sra. D. aceitou o pedido de casamento do sr. D. e partiram para sua nova vida em um povoado próximo às montanhas. Ele se tornou o inventor-escultor mais popular do povoado enquanto ela cozinhava os quitutes mais cobiçados. Ambos eram tão populares em seus ofícios que criaram seu filho apenas com aquela renda de modo muito livre e sempre com a mesa muito farta. Mas naquele dia, após concluir a marionete que levara sete semanas para ficar pronta, o Sr. D. não poderia ter previsto o seu azar quando saiu para buscar a lenha para sua lareira. Ele já havia acabado de encher a pequena carrocinha que transportava a madeira para a lareira e suas esculturas e invenções, quando uma terrível fatalidade trouxe uma tempestade que, num dos primeiros relâmpagos que antecederam a chuva brava, um raio magnetizou o machado do Sr. D. Ele caiu duro na floresta, sendo encontrado apenas horas mais tarde por uma sra. D. desesperada e aos prantos.

O funeral do Sr. D. foi um dos acontecimentos mais tristes na história recente do povoado. Diversos familiares e amigos das mais diversas partes vieram para prestar sua última homenagem ao Sr. D. O funeral foi realizado numa tenda armada ao lado da sua cabana, que era também sua famosa oficina onde havia construído os objetos mais curiosos com os quais presenteava as pessoas queridas e vendia para muitas pessoas notáveis que vinham de longe para apreciar suas engenhocas. Todo mundo admirava os objetos do Sr. D. como esculturas, mesmo quando muitas vezes os objetos tinha uma função meramente prática, como um pilão dado ao vizinho do lado, que devia servir para moer sementes, ou o porta-pano-de-pratos dado para a senhora Azaléia que morava do outro lado da rua. Ambos exibiam seus objetos na sala de estar e a maioria das visitas reconheceria: era uma das famosas criações do Sr. D.

Sr. D. foi enterrado com honrarias. O prefeito da cidade decretou luto oficial de três dias pela morte de um dos seus mais ilustres habitantes. As duas famílias mais ricas da cidade enviaram várias coroas de flores, intercaladamente. Cada coroa era maior e mais colorida do que a anterior dada pela outra família, como se – como todo presente dado pelas famílias ricas – aquilo fosse uma competição de quem despenderia a homenagem mais cara ao popular Sr. D. Por todos os lugares naquela semana só se falaria do talento e da falta de sorte do sr. D., tendo morrido com tanta saúde e trabalhando naquilo que tinha sido sua vida nas últimas décadas. Realmente uma triste fatalidade. Uma das famílias, não satisfeita por não ter enviado a maior coroa-de-flores, sugeriu, com total aprovação do prefeito, que uma estátua do sr. D. esculpindo a porta de entrada da cidade seria colocada ao primeiro passo da fronteira. Fazia questão, inclusive, de arcar com os custos da obra. O prefeito insistira que a cidade retirasse o custo da receita dos impostos, sendo essa a última homenagem da população, que condescendente com a dignidade dessa homenagem, aceitaria de pronto. Por fim, uniram esforços e fizeram duas estátuas, uma de cada lado da entrada da cidade.

A família do sr. D. estava arrasada pelo sinistro acontecimento tão repentino com o vovô. Então, após uma longa reunião, a família resolveu, pelo menos por enquanto, deixar a cabana do Sr. D. intocada para preservar suas últimas memórias, e quem sabe servir para unir o avô ao seu único neto no futuro. Assim, ele teria pelo menos uma chance de conhecer a aura das criações do seu famoso avô. Mas naquela noite algo mais sinistro que a morte do sr. D. aconteceu: enquanto o silêncio da noite orava seu ritual através do canto dos grilos e o cair da água no riacho ao longe, uma fagulha da lareira se transformou em fogo e a acendeu. Assim que o primeiro estalo na madeira aconteceu, a marionete deixada sentada ao lado da lareira pelo sr. D. piscou seus olhos e extraordinariamente ganhou vida. Ainda sentada, olhou de um lado a outro da cabana. O fogo da lareira iluminava parte da cabana, e a marionete enxergou diversas formas estranhas. Eram ferramentas, uma mesa abarrotada de pedaços de madeira, pregos, tecidos e latas e mais latas, todos ao mesmo tempo estranhos e reconhecíveis pela marionete. Num impulso instintivo a marionete se colocou sobre seus dois pezinhos e curiosa, a passinhos curtos, saiu a olhar as coisas dentro daquele lugar.

A marionete não sabia que aquilo era uma cabana. Para ela aquele mundo era todo um único mundo que ela acabara de conhecer. Se aproximou da mesa e comparou os pedaços de madeira e tecido sobre ela com as partes do seu corpo e de sua roupa. Viu um retrato do sr. D. e algo dentro de si a fez pensar: ele me criou. A marionete passou a madrugada observando atenta e lentamente cada objeto dentro da oficina. Encontrava uma lata de tinta e se aproximava dela com muito receio, como se a lata pudesse ganhar vida a qualquer momento. Vendo que isso não acontecia, ela começava, curiosa, a investigar cada parte do objeto até, horas depois, identificar que havia uma tampa, retirá-la num susto achando que havia a destruído, e manipulando com curiosidade e um pouco de asco o líquido que havia dentro dela. E assim recomeçava com outros objetos.

Amanheceu. A luz tomou a cabana inteira e a marionete continuou no seu ímpeto investigativo sobre cada objeto que encontrava. Assim se passaram vários dias. Quando a cabana se tornava escura ela sentava ao lado da lareira já sem fogo, fechava seus olhos, e mentalmente tornava a pensar no retrato do Sr. D. e todos aqueles objetos estranhos dos quais ela também era feita. Quando a luz voltava a inundar a cabana, ela voltava a examinar cada objeto, cada invenção e pedaço de invenção que encontrava. Acabada a exploração dos objetos, quis entender o que era aquela luz que por uma parte do tempo preenchia a cabana. Observou os vidros da janela, e chegou à conclusão de que era o vidro que fazia a luz acontecer. Teve medo da água que pingava em alguns lugares quando chovia muito. A chuva, aliás, parecia um castigo sonoro por algo que tinha feito dentro da cabana, ela devia se observar mais.

Cansada dos objetos que não a entendiam e que ela não entendia, começou a pensar sobre o homem do retrato. Em um dia pensava, aquele homem era mau, havia a colocado ali e depois havia ido embora, sem se importar em dizer onde estava e quando voltaria. Noutro dia aquele homem era bom, havia a criado e dado a ela a chance de conhecer tantas coisas novas e bonitas, e criado partes do seu corpo que a permitia se locomover e tocar nas mais curiosas criações daquele homem. Aquele homem era mau, havia deixado um retrato apenas para deixá-la curiosa acerca da sua provável vinda, mas nunca viria buscá-la. Aquele homem era bom, havia deixado um retrato para que ela nunca se esquecesse que seu criador um dia apareceria repentinamente e a explicaria detalhadamente o que ela estava fazendo ali. Por fim, ela começava a pensar que aquele homem não existia de verdade. O retrato devia ser uma ilusão, um desenho de alguma outra marionete que vivera ali antes dela.

Até que a marionete começou a sentir que suas articulações já não funcionavam mais como antes. Ela estava enferrujando e não entendia o que era o fim. Como aquele homem no retrato, se existia, podia fazer isso com ela? A jogar naquele mundo, e sair para nunca mais voltar, deixando-a com sua solidão eterna por ser diferente de tudo que havia ali. Ela nunca seria alguém e ninguém nunca a seria. Ela e o mundo viveriam naquela distância, mesmo um estando dentro no outro, como seres separados por um véu invisível. Podiam ver e tocar um ao outro, mas nunca poderiam tocar as almas um do outro, nem se compreender. Estaria o mundo, incompreendido e sozinho, também triste como ela, do outro lado daquele véu invisível? Qual era o propósito de um ser criar um outro ser e não dar a ele qualquer instrução, qualquer sinal? Não, o retrato não era um sinal. Naquele mundo em que as coisas eram reais e poderiam ser vistas e sentidas, ela queria um sinal da bondade do homem do retrato. Mas tudo que tinha era sentir na pele o que significava envelhecer sem nunca saber da existência dessa palavra. Era ver o pó se acumulando pelos cantos, a luz cada vez mais escassa, suas articulações rangendo, suas roupas sujas e rasgadas. Sua gravata e seu sapatinho agora eram pintados do mesmo cinza que o chão daquele lugar. O tempo era uma injustiça. Viver também. E onde estava o homem do retrato? Por que ele estava tão longe de salvá-la? Aquele sorriso no retrato era uma promessa? Ou era uma gozação? Não era nada. O próprio retrato foi se perdendo atrás do pó, e ela teve certeza. O homem do retrato nunca existira.

Foi quando uma nova fagulha, da mesma maneira do seu nascimento, acendeu a lareira. Ela viu o fogo crescer, as chamas refletirem em seus olhinhos de madeira empoeirados, e então ela teve certeza do que devia fazer. Colocou, um a um, seus pés sobre o fogo e ardeu em chamas, tão velha e seca que estava. Nada sentiu, saiu do nada e voltou para o nada. Se entregou para o fim com a mesma não vontade com que lhe entregaram para a vida. O fogo estalou seu corpo de maneira tão rápida que um pedacinho da sua perna saltou para o tapete da sala e colocou a cabana toda em chamas. No outro dia, as pessoas mal acreditaram no que havia acontecido quando viram a fumaça negra e cinza que saía do que restou da velha cabana do sr. D. Agora, esfriada pela leve garoa que cobria a cidade. Um casal de velhinhos abraçados, sob seu guarda-chuva, olhava com tristeza para a ruína da cabana do Sr. D. quando o velhinho disse para sua senhora: “Deus gostava tanto do Sr. D., que levou-o junto dele. Agora, todo esse tempo depois, mandou um raio para levar sua amada oficina da mesma maneira que o levou. Que Deus o tenha.”

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Um pequeno cacto contra sol

Ele andava pelo seu próprio deserto, quando avistou um cacto. Sob o sol escaldante o cacto olhava em frente. Os olhos semicerrados, a testa franzida escorrendo suor. Ele observava. Cansado de caminhar, as miragens se foram todas – será? E o mesmo sol, de uma perturbação não antes percebida, parecia agora queimar ainda mais. O imenso céu azul enganava. Não havia pássaros, e nem mesmo insetos resistiam ali. Ninguém sobrevive à frieza quente de um grande deserto. Só um pequeno cacto contra o sol. E como dizia o poeta: tudo é deserto.

Resistindo nas chances remotas de um dia após o outro, ninguém assistia à batalha silenciosa do cacto. Não porque todos eram apenas distraídos, mas a vida de um cacto era tão diferente que às vezes era mais fácil e confortável fugir à sequidão. Eram só dias e mais dias e mais dias convivendo consigo e tendo de aceitar seus espinhos para poder ter a glória de uma pequena flor entre um espinho e outro de vez em quando. Isso ainda se ela viesse.

Um cacto só pode ser visto de perto. O cacto é só um cacto e isso é tudo. Mas ser cacto reforça o fato de que ele não tem medo de ser um cacto. O deserto é extenso e o cansaço imenso. Água armazenada em cacto é lágrima: se não saísse em gotículas ele morreria de sede. Sabe-se lá qual deus criou os cactos, mas acho que ele pensou nisso muito bem.

Ele gostava de flores mas preferia os cactos. Gostava das borboletas mas preferia as mariposas. Gostava da primavera mas preferia o outono. Era muito mais lunar do que solar. E não chorava de carregar as pedras da sua dor, chorava pela dor dos que não entendiam sua própria dor. Por fim, ele descobriu: ele era o cacto. Eu também.

Estranho no Espelho

Mário acordou de madrugada com medo do escuro. Que sensação esquisita, nunca fui de ter medo do escuro, pensou. Tateou em busca dos óculos, calçou os chinelos com os próprios pés que pareciam enxergar na penumbra e acendeu a luz. O quarto parecia um lugar novamente prazeroso e nada assustador. A máquina de escrever imóvel no seu canto, os livros nas prateleiras, sua mesa carregada de cadernos e canetas e tudo o mais que ele utilizava todos os dias. Virou de costas para sua cama e olhou no espelho. Ali estava ele. E dentro dos seus olhos, no reflexo da pupila, ele se viu. Não era ele. Pelo menos não esse ele de cabelos castanhos encaracolados. O que era ele? Era alguém que conheceu há muito tempo, e que pelas circunstâncias, esquecera de falar consigo de novo. E foi se esquecendo, até que esqueceu a fisionomia real que tinha, a cor dos seus verdadeiros olhos, o tamanho dos seus sonhos, a densidade dos seus sentimentos e vontades.

O medo que havia lhe acometido há pouco era um medo trazido pela memória já fria de tanto tempo. A lembrança de quem era e que não era mais o assustava, como um fantasma de lençol assusta a uma criança. Esquecer de si mesmo era a pior coisa que já lhe havia acontecido. De perto, dez minutos depois de toda uma profunda observação reflexiva, ele já não parecia tão assustador. Ele viu que aquele ele podia chorar de tão triste, mas o ser triste ali não significava algo ruim. O eu real é naturalmente triste, porque a realidade é triste. E essa tristeza tinha algo de bonito, porque ela vinha da percepção de que nada dura para sempre. Nem mesmo ele, e isso era triste. Mas enquanto tivesse consciência do seu eu, da tristeza faria imergir todo um colossal sonho feito de realidade, feito do desejo da sua alma colocado em prática.

Feliz por ter entendido a real face da tristeza, apagou a luz, retirou os chinelos, sentou-se por um tempo e depois se deitou na cama. Enquanto cobria seu corpo sentia cada centímetro físico da sua existência e se sentia feliz. Olhava para o teto sem nada enxergar e se lembrava do seu eu dentro da pupila, no espelho. De saber que era triste esse eu até parecia mais feliz que ele mesmo. Como era bom esse sentimento! Queria eterniza-lo para a manhã seguinte e todos os outros dias. Um sentimento de que a morte parecia pequena diante da imensidão do ser nesta vida. Bastaria se lembrar e saberia o que fazer, como agir, como viver. Ali estava o segredo de toda uma existência no escuro, enfim, revelado. Que sorte a dele.

Aos poucos os pensamentos pareciam desaparecer no complexo do ar do sono pelo seu quarto. Quando se está com sono, entre o cá e o lá, pensamentos são fluxos de ideias ininterruptos, que enchem a cabeça e quanto mais você pensa sobre não pensar neles, mais eles se entrelaçam em camadas e camadas de profundidade. Precisava puxar do emaranhado uma pontinha de um pensamento e ir acompanhando-o, tentando entender para onde ele queria levar. Uma piscada mais demorada e pareceria terem ido embora camadas e mais camadas como se nunca tivessem existido. Uma falácia, claro. Eles se escondem e se empoleiram nas gavetas da memória e voltam de repente sem nem ao menos serem chamados. Alguns desses fluxos vão dar no que é a maior escuridão da gente. Ali eu vou só até a porta e raramente tenho coragem de olhar. Permeando essa porta estão todas as coisas que escrevo. Elas são o mais próximo da verdade que meu eu me permite ver sem atravessar aquela porta. Eu poderia atravessar essa porta de uma vez, e ver tudo que existe lá, mas eu tenho uma profunda impressão de que morreria se o fizesse. Então não faço, vou tateando no escuro e buscando não mentir para mim mesmo aquilo que já sei, enquanto tento atingir a verdade estando vivo. Uma tarefa dura, cansativa e que leva uma existência toda.

Exausto, Mário desistiu inconscientemente de tentar lembrar e dormiu. Voltou para o profundo dos sonhos para no outro dia acordar para a vida. Na vida, cumprindo com tudo o que seu eu não faria se tivesse escolha, ele se esqueceu.

Criado mudo

O menino olhava por entre as pernas da mãe que se mexiam, inconscientemente, para lá e para cá enquanto eles aguardavam o ônibus chegar. O palhaço parecia um mágico! Soprava os balões que se transformavam de longos bastões de ar em coelhinhos, cãezinhos, gatinhos, numa velocidade mágica espantosa. Lindos os animais depois de transformados! Nem pareciam feitos de bexiga e ar.

O menino e a mãe, em silêncio na vida durante a maior parte do tempo, tinham uma conexão que só faltaria ser umbilical para ser completa. Essa, se desmanchara sete anos atrás, mas a conexão continuava ali. O menino que sentia, mas não sabia o que sentia naquele mundo. E a mãe que sentia, mas achava que o que sentia era, de fato, como deveria ser o mundo. E pronto.

Olhando o palhaço rodeado de crianças alegres, o menino tentava se esconder atrás da perna da sua mãe, de segundos em segundos, como se não ver pudesse reprimir o desejo de ter um animalzinho de balão daqueles, e confiante de que olhando só de vez em quando, a mãe não interpretaria aquela ação como a de um menino mal-criado que pedia para a mãe comprar tudo o que via. Até que em um instante, acabando com toda a sua estratégia, a mãe lhe perguntou:

– Junior, você quer um balão daqueles?

O menino sabia que não podia querer. Querer aliás era coisa errada. Ele deveria se contentar com o que tinha. Mas demorou tanto tempo para formular uma resposta que não envolvesse mentir para sua mãe (mentir também era coisa de menino mal-criado, e se mentisse para uma mãe o agravante acarretaria no fato de perder o convite de Deus para um dia morar no céu com a vovó) que sua mãe lhe disse em seguida:

– Olha, fique aqui com a tia Vani cuidando destas sacolas que eu vou ali e já volto.

Esconder alegria de mãe também devia de ser um pecado dos bem grandes. Sem esforço, Junior sorriu. Enquanto imaginava as brincadeiras que poderia fazer com aquele animalzinho mágico que tinha o poder de, nas mãos do palhaço, se transformar em qualquer coisa, a mãe já voltava com um balão em formato de alguma coisa em cada mão. Ela chegou e colocou um deles encaixado sobre a cabeça do menino. Era uma coroa! Enquanto o balão roçava sua orelha ele sentiu um arrepio gostoso seguido de um barulho engraçado. Os sons do mundo eram todos novos com aquela coroa. Ou outro balão lembrava Fofinho, seu primeiro cãozinho que fora roubado havia pouco tempo. A mãe contava as moedas e colocava na bolsinha dentro da sua outra bolsa grande. “Olha, ainda sobraram várias moedinhas, podemos comer um pastel amanhã, Junior.” Ou seja, semanas das boas e raras.

O menino ainda não sabia o que era ser pobre, mas ouviria dos outros por muitos anos que sonhar não era para gente como ele. Assistindo a mãe contar as moedinhas sob o som da coroa de balão e um Fofinho nas mãos, ele sentiu vontade de chorar mas não sabia bem por que. Ele e a mãe ainda permaneceriam em um gelado silêncio que ecoava de dentro de sua casa, e por muito tempo ainda não entenderiam porque a vida tinha que ser assim. A coroa murcharia em três dias. O Fofinho feito de ar estouraria no dia seguinte, quando sem querer, o menino o deixaria cair na grama pontiaguda. Mas o que existia entre ele e a mãe era como o ar que preenchia os mágicos balões do palhaço: estaria por toda parte, onde quer que eles estivessem no mundo.

O conto da raposa vermelha – parte III

(leia a parte I aqui e a parte II aqui)

Alface explicou que há muitos anos os animais conviviam no que se poderia hoje chamar de harmonia. O leão não sabia que podia se chamar rei, nem a ovelha sabia que era fisicamente frágil e que precisaria fugir do leão. Existia um sentimento de proteção que nascia com todos os seres, e dentro de seus corações eles entendiam que viviam num espaço sagrado, sem dono e sem deus, um mundo onde tudo estava disponível para todos e não havia necessidade de brigar para conquistar o seu espaço. Cada ser, desde a formiga mais insignificantemente pequena, até as flores que viviam apenas por alguns dias, eram uma manifestação da vida, e sabiam que tudo isso só fazia sentido se estivessem todos juntos, cumprindo aquilo pelo qual haviam nascido para fazer todos os seres: viver e desabrochar.

O girassol sabia que iria despetalar, mas nem por isso entregava um sorriso menor para o sol de todos os dias de sua existência. Ele sabia que deveria servir do seu pólen para a abelha, que fecundaria um novo girassol que por sua vez sorriria para o sempre novo sol de todos os dias. O girassol não pensava que a abelha lhe tirava algo, e sim que ele fornecia algo de si. Todos sabiam que era preciso entregar algo puro e valioso de si para o mundo sem pensar em receber nada em troca, e sabiam que só assim teriam direito àquela vida feliz que não precisavam pensar, porque não conheciam a infelicidade. O conceito de felicidade, se existisse, não passaria de um conceito, porque seria impossível traduzir em uma só palavra a sensação de ser pleno e desabrochar todos os dias. De que glória era feita a sensação de ser para o sol algo em que ele gastaria sua luz para iluminar e fazer crescer? Em que sonhos poderia se sentir a transcendência de existir por algum tempo e saber que esse tempo era único, precioso, exato e suficiente para que cada ser cumprisse seu papel para com a imensidão da existência?

Mas um dia, o sol que se punha sentiu que desejava um pouco daquele céu que durante a escuridão era só da lua. A luz de sua imponente grandeza ofuscava a luz das milhares de estrelas com quem a lua dividia seu céu, e sem saber disso, o sol quis ser aquilo que não era, e colocou uma coroa em sua própria cabeça, e se chamou de o Sol. Naquela madrugada, após o amanhecer que parecia o mesmo de todos os outros dias, o leão percebeu que era mais forte, rápido e feroz que os outros animais. Percebeu que ao som do seu rugido ensurdecedor os outros animais se curvariam para ele e o chamariam de rei. Assim, ele decidiu colocar uma coroa sobre sua própria cabeça, e se chamou de o Leão. A abelha descobriu que podia ferroar, e diante de qualquer aproximação, usaria sua arma para causar dor ao ser que demonstrasse avançar nas flores que mais cobiçava. Seu mel, a partir daquele dia, perdeu o sabor que tinha, e assim, ela colocou sobre sua pequena cabeça, a coroa, e se chamou de a Abelha. A cascavel descobriu que o som que podia produzir com sua cauda poderia ser condicionado à dor e morte causada pelo seu veneno. A partir de agora, os outros grandes animais iriam temer as cascavéis e assim ela teria sua coroa, a Cascavel.

Assim, os seres trocaram aquela vida plena e feliz pela sensação de ter uma coroa sobre suas cabeças. Eles acreditavam piamente que a tinham. Inventaram um deus que lhes havia providenciado essa soberania, e esse deus seria a justificativa para todo tipo de destruição que causariam a si mesmos e ao mundo. Cada ser, do seu ponto de vista, acreditava que era algum tipo de escolhido. Se esqueceram que não havia um escolhido, porque todos estavam ali e eram escolhidos. A coroa era uma ilusão que de tanto alimentada, se tornou verdade e foi uma não-verdade reproduzida por centenas de gerações. Havia muitos reis para poucos súditos, mas ninguém percebera isso. Assim, cada ser, usando da superioridade sagrada que cada um tinha sobre uma característica própria, isolaram-se em seus castelos de terra, areia, madeira e grama, como reis e rainhas presos em seus próprios palácios. Os poucos que nasciam filhos da liberdade, e que queriam sair e conhecer o mundo, nunca retornavam. O mundo havia se tornado um lugar impossível de ser livre. Havia se tornado um lugar impossível para ser.

Até que, em algum momento muito tempo depois, a Leoa, carregando o filho do Leão em seu corpo, correndo atrás de sua caça, ao saltar de um grande caule incrustado em uma pedra por força do tempo e da natureza, deu à luz seu filho acidentalmente, morrendo minutos depois com um graveto invisível cravado em seu coração. O pequeno filhote de leão passou algumas horas ali, até que foi encontrado pelo pai ovelha, que por instinto, levou o pequeno animal indefeso e irreconhecível para sua cabana, onde junto de seus outros filhos, tomou conta e o criou como se fosse seu. Seu nome agora era Ovelha.

A Ovelha carregou em seu peito a dor de não caber e ser diferente em um mundo que penalizava as diferenças. Era alvo do despeito das outras ovelhas e nunca se sentiu pertencendo àquele e nem a lugar algum, mas acreditava que estava fadada a ser assim, era essa a sua vida. A vida que deus havia lhe dado, a vida que por algum motivo cósmico, merecia e teria de suportar até que o sol não mais nascesse no horizonte. Resignadamente aceitava e crescia junto de seus irmãos, se sentindo inferior, feia e sozinha.

Por muito tempo ela tentou participar dos trabalhos junto dos seus irmãos, quando o velho senhor ovelha os faziam aceitá-la. Até que o velho pai partira desse mundo e a Ovelha foi completamente ignorada já que, para seus irmãos, sua feiura e excentricidade espantava as outras ovelhas. Após a morte do velho senhor ovelha, ela havia crescido muito mais que seus irmãos, de modo que caso eles resolvessem aceitá-la junto deles, então seriam eles isolados pelas outras ovelhas, por terem em seu grupo alguém tão estranho. Antes uma ovelha sozinha, do que eles todos. Seus irmãos que a carregavam por pena diante da presença do pai, passaram a nem pena mais sentir, e deixá-la entregue aos trabalhos que não fossem “coisas de ovelha normal”.

Um dia a Ovelha acordou muito cedo, como fazia todos os dias e ali ficava, esperando o tempo passar, sozinha. Dessa vez ela saiu sem que ninguém a visse e subiu a pedra cinza. Já no topo, assistiu em silêncio o nascer do sol. Observando a lenta aparição da bola de fogo sagrada no horizonte, ela pensou que nada podia ser realmente. Era insignificante diante da magnificência de um astro como aquele. O sol surgia e iluminava tudo enquanto os animais adormecidos se espreguiçavam de seus imponentes lares construídos com força e presunção. E ela ali, uma pedra sobre a outra pedra. Um ser que vinha de um provável erro de deus. Sentindo pela primeira vez o calor do sol avermelhar sua face, uma lágrima desceu o rosto da Ovelha e ela acabava de descobrir o que era chorar. Desceu a pedra lentamente, olhando suas patas marrons feias em comparação com os brancos pelos das outras ovelhas. Podia sentir a feiura vivendo em seu corpo e agarrada a ele como uma doença incurável que teria de suportar. Caminhou pela margem do lago até o máximo que podia ir sem ser presa fácil dos predadores, e só queria desaparecer dali, do mundo e da vida. Parou. Olhou em volta, nenhum sinal indicava que os outros animais haviam começado seu dia. Então a Ovelha olhou seu reflexo na água, e descobriu que era um Leão.

(continua.)

O conto da raposa vermelha – parte II

(leia a parte I aqui.)

Abriu seus olhinhos não entendendo aquilo que via. Bocejou lentamente e esticou todos os músculos que podia num impulso só. Onde estava? Quanto tempo havia se passado? O chão do lugar onde estava era um tanto inclinado, que precisou colocar força em suas patinhas para deixar aquele lugar. Ah sim! O barquinho! Risquinhos finos de água ainda desciam impulsionados pela gravidade até um ponto onde aquela pequenina poça havia se tornado uma grande poça. A raposa saiu do compartimento e antes que seus olhos se acostumassem à luminosidade ela só via um cinza sem fim e molhado. Ainda garoava e o barquinho havia se encrustado na areia da margem, e ali ficado preso dentre as conchinhas brancas e o amarelo do chão. Chovia. Era só o que conseguia ver. Chovia e chovia. A raposa vermelha saltou do barquinho e correu até debaixo de uma grande tenda verde a alguns passos dali.

– Bom dia, dona raposa! Qual é mesmo o seu nome?

Nome? O que era um nome? E desde quando podia entender palavras de uma foca falante? A raposa vermelha estava achando tudo muito estranho.

– Ah sim, os novatos… – disse a foca olhando por cima dos seus oclinhos como se aquilo tudo acontecesse corriqueiramente. – Você está na Terra dos Que Fazem Chover. Aqui você vai precisar de um nome. Ser só uma raposa vermelha não pode ser o que você é. Deixe me ver… Se quiser eu posso te ajudar. Sim, sim! Sou muito criativo ajudando os novos moradores da Terra. Hum… deixe me ver… – a foca andava em torno da raposa, com seus corpulentos movimentos, tentando sentir de que nome era aquele cheiro. – Hum, você tem cheiro de Goiaba! A propósito, meu nome é Peixe.

– Goiaba. Um nome. Eu nunca tive um, acho que serve. – disse a raposa enquanto refletia sobre o que significava aquilo tudo. Refletir aliás, ela refletia, se tornou uma atividade depois da noite no barquinho. Refletir e ter um nome já era um bom começo para uma raposa vermelha na Terra dos Que Fazem Chover.

– Goiaba, me diga. O que te traz aqui? Fugindo de casa, trabalho novo na horta do Senhor Alface, ou também está perdida?

– Acho que… hum… Acho que estou perdida. Mas acho que vou esperar a chuva passar e então descobrir como voltar para casa.

Peixe começou a rir inescrupulosamente. Ria enquanto seu corpo todo balançava em movimentos ritmados. Se segurava, colocando as patinhas perto da boca, o que fazia o som que ele emitia parecer um grunhido de sufocamento. – Minha cara Goiaba, não vai parar de chover. Aqui é a Terra dos Que Fazem Chover. Todos são acostumados com essa garoa e isso nos faz muito bem. Olhe em volta, quanto verde e colorido de nossas flores, nosso ar úmido e leve, nada disso existia antes d’Os Que Fazem Chover criarem esse lugar. Mas olha, não se preocupe, vou te dizer como fazer para encontrar o Senhor Alface. Ele é o mais sábio deste lugar e com certeza sabe o que deve fazer para você voltar para casa.

Todo mundo na Terra Dos Que Fazem Chover parecia feliz. Como assim, num lugar em que chovia constantemente? A raposa estava ali há poucas horas e ter de se proteger da água que caia do céu parecia uma atividade chata. Mas enquanto isso, ela percebia, todas as espécies pareciam conviver em harmonia com a chuva. Dois lagartos passavam e passeavam remando de cima de uma folha a superficial camada de água que os fazia deslizar pelas ruas. Uma borboleta passou por ele planando carregando perto de suas asas coloridas um sorriso úmido de quem era feliz por ser feliz, não por algum motivo. A raposa caminhava seguindo os apontamentos do mapa que Peixe havia lhe desenhado. Já toda encharcada da garoa, ela não mais tentava se proteger e estranhava o desconforto que não sentia como em normais dias de chuva no lugar onde morava.

O Senhor Alface era um senhor coruja, todo velho por baixo de suas penas acinzentadas. Ele tomava conta da Grande Horta que alimentava toda a Terra dos Que Fazem Chover. Ele também fora um dos primeiros habitantes da Terra. A raposa avistou de longe a Grande Horta, e como apontava o mapa desenhado por Peixe, debaixo da Pedra da Lua ela encontrou o senhor Alface deitado sob uma grande roda de madeira. Naquele momento o senhor Alface estava martelando enquanto ao seu lado um grande cano despejava água em um recipiente de pedra que lembrava um poço, que por sua vez canalizava a água que corria por tubos gigantes e alcançavam em seu comprimento mais do que a visão de raposa dela conseguia enxergar. Como se adivinhasse o momento em que sua solidão de todos os dias estava quebrada pela presença de outro ser, o Senhor Alface saiu debaixo da roda e olhou sorrindo para a raposa.

– Bom dia, o Senhor é o Senhor Alface? – disse a raposa um tanto tímida por ainda não estar habituada a dizer coisas que simplesmente saíam de sua boca e eram entendidas por outro ser.

– A pequena raposa vermelha… Então era verdade… – disse o Senhor Alface sorrindo misteriosamente.

– Ahn? O que? O se… senhor já me conhece?

– Ah não minha cara raposa! – gritou o Senhor Alface numa grande gargalhada que parecia ainda mais potente dentro daquele vozeirão de coruja velha – você eu não conhecia… mas já esperava que uma raposa vermelha viesse parar aqui na Terra. Minhas estórias nunca falham! Nunca! – continuou o Senhor Alface no que parecia uma gargalhada permanente a partir do primeiro segundo que abria sua bocarra.

– O Peixe me disse que o senhor saberia como fazer para me mandar de volta para casa.

– Para casa… pois bem… sim, sei como você poderia voltar para casa. E em algum momento isso vai ter que acontecer. Sempre acabamos no lugar de onde viemos. Mas eu tenho uma pequena desconfiança de que se você veio parar na Terra, você estava precisando dela.

– Como assim Senhor Alface? Acho que o senhor está me confundindo, foi um acidente, eu entrei naquele barquinho por curiosidade e saí de lá falando e refletindo, coisas que eu não tinha consciência de que poderia fazer. Olha só! Consciência! De onde vieram essas palavras estranhas? De repente acordei e estava aqui, e toda essa coisa de terra em que só chove, e meu nome ser Goiaba e eu realmente sentir que esse nome é familiar para mim. Não faz sentido algum. O senhor pode me explicar o que está acontecendo?

– Veja bem senhor Goiaba, não existem coincidências na Terra Dos Que Fazem Chover. É por isso que a palavra “sentido” é o passado de “sentir”. Só aquilo que podemos sentir pode fazer algum sentido, mesmo que na maior parte das vezes não saibamos explicar. Alguns chamam isso de intuição, eu prefiro pensar que a alma sabe mais da gente do que nós mesmos. Sente-se aqui, vou lhe contar o que muito provavelmente você já sabe mas ainda não sabe que sabe. Só podemos aprender nossas próprias coisas adormecidas dentro da gente. Como seu nome e essa Terra que já lhe espera a partir do dia em que passou a existir.

A raposa vermelha estava confusa, e ainda assim, a cada palavra do senhor Alface era como se ela fosse recuperando uma memória perdida. Algo podia explicar aquele sentimento que agora, ela sabia, podia chamar de saudade. Saudade de que? De quem? Ela se sentia cada vez mais perto de compreender. O senhor Alface sentado, olhava um ponto invisível à sua frente como se enxergasse o que estava contando, e por isso, Goiaba via também.

(continua).

O conto da raposa vermelha – parte I

Era uma raposa desde a primeira primavera depois que nasceu, quando viu seu reflexo pela primeira vez. Uma raposa vermelha, como todas as raposas que eu já vi, que diferia de todas as raposas daquele lugar. Seus olhos de luz faziam parecer que buscava sempre uma direção para onde apontar, mas não, eram olhos sem segredos e cheios de mistério, que nos reflexos de poças d’água, se auto hipnotizavam por instantes que pareciam horas. Aquela noite, ela caminhava como quem vai para algum lugar. Digo aquela noite porque sendo eu o que escreve, posso apontar o tempo com o dedo indicador e dizer: é este! Dera eu ter podido ver o tempo assim quando ainda não escrevia, mas eu estava ocupado vivendo. Como ia dizendo, aquela noite a raposa caminhava, e procurava por um lugar que não sabia direito onde era. Anterior àqueles dias, se eu pudesse mostrar em imagens, veríamos traços elípticos em volta de nada, que se cruzavam e entrecruzavam, enquanto todos os dias, ela só caminhava para lá e para cá.

A pequena raposa dormia e acordava e gastava suas horas no campo que de tão esverdeado era quase amarelo, principalmente nos dias do outono. Quando se cansava de andar, subia ao topo da colina e começava a observar os outros animais em seus afazeres, caçando, fazendo buracos, demarcando territórios. Nenhum outro animal era vermelho também, o que fazia a pequena raposa aproveitar seus olhos de luz para só se alimentar à noite, enquanto os outros dormiam, para que não fosse vista. Quando jovem, caçava os pequenos roedores, coelhos e lebres, que mais lhe amedrontavam do que tinham medo dela. Foi ficando mais velha e descobrindo que algumas das flores do campo tinham um sabor e um cheiro infinitamente melhor em sua língua, e foi trocando seus velhos hábitos carnívoros por uma seletividade vegetariana. Claro que não sabia o que era ser vegetariana, era uma raposa.

Ela tinha vergonha de ser vermelha. Tinha vergonha de se alimentar das flores e ser tão diferente dos outros animais e das outras raposas de um modo tão dolorosamente natural. Tinha vergonha de ter vergonha. Ela não queria ser assim, mas não trocaria sua vida de raposa por nenhuma outra: ser é um fardo que devia ser carregado com dignidade. Havia algum tempo a raposa vinha até as redondezas de um lago, onde descobriu cavernas secretas escondidas entre uma pedra e outra. Em uma caverna em especial, ela vinha sempre que sua cauda de espécie de cão triste não queria mais subir, ou quando, em meio à caminhada, a chuva lhe pegava de surpresa. Certo dia, num desses passeios noturnos, percebeu um barquinho de madeira amarrado à margem do rio que ficava do outro lado da floresta, depois de passar os jardins e as grandes pedras cinzas. Era um barquinho que para as raposas, era de um azul descascado. Ainda me pergunto se para espécies como os seres humanos ou os escritores, o azul das raposas era o mesmo azul. A raposa olhou em volta, nada se movia, só o pequeno barquinho, se movendo microscopicamente no balançar da água turva, criando desenhos de circunferências que se ampliavam gradualmente, até sumir no azul escuro quase negro do rio. A raposa, curiosa para saber se alguém dormia dentro do pequeno barquinho, num salto raposal, mas feito um gato, entrou nele.

O barco cheirava a feno. Um cheiro que lembrava as cores das flores que mais gostava quando corria no campo em busca de comida. O barco, que parecia tão pequenininho do lado de fora, não era tão pequeno assim quando se estava dentro dele. A raposa dava passinhos de raposa dentro do barco, focinhando os restos de feno que encontrava e com o resto dos sentidos mais cheirando do que vendo. Além da estação primaveral no ar dentro do barco, nada mais se movia. Entrou numa pequena ponte de comando no meio do barquinho, aproveitando o mistério para tentar descobrir mais alguns novos cheiros, quando sentiu que o barco se movia. O barco, com seus detalhes curiosos aos olhos de uma raposa, a despeito do tamanho, mais parecia um navio em miniatura. A raposa correu para o lado de fora do compartimento e quando percebeu o barco já se encontrava no meio do rio, bem longe da margem, lentamente navegando. Ela ficou alvoroçada, como assim uma raposa no meio do rio? Correu de um lado para o outro dentro do barco, buscando um meio de fazê-lo parar e apesar da inteligência acima da média, não lhe passava pela sua cabeça de raposa o que era e qual a função de um leme. A única ideia que mais parecia uma ideia de não raposa, era esperar, e esperar, como se espera quando se quer crescer, que de tanto se medir nunca se percebe que já se cresceu um bom tanto.

Exilada no meio do rio sem conseguir enxergar quaisquer das margens a pequena raposa voltou à pequena ponte de comando e deitou no cantinho mais distante, olhando para a porta. Ficaria ali, escutando os silêncios enquanto o barco se movia lentamente, esperando para ver onde a levaria. Estava tão longe de casa que agora começava a refletir, coisa que raposa normal não sabe fazer. Deu-se conta que nunca antes havia ido tão longe. Onde quer que as águas profundas do rio que até aquele momento não tinha fim, a levassem, seria o mais longe que havia chegado em toda sua existência. De repente, uma garoa fina se tornou uma pesada chuva, que tocava sua sinfonia enquanto deslizava na madeira do barquinho. Enquanto isso, a luz da lua saiu de trás das árvores da floresta onde estava se escondendo, e a raposa conseguiu enxergar novamente seus olhos de hipnose numa poça d’água que se formava no chão. Ser uma raposa vermelha tinha suas vantagens de estar no meio da noite dentro de um barco no meio de um lago: como sua cor era bonita ali sob aquela luz! Sendo uma raposa vermelha ainda mais vermelha pela luz da lua, ela adormeceu pensando que não. E a chuva, que deixou de ser pesada para se tornar canção de ninar, continuou o seu concerto.

(continua.)

O segredo de Alicia

Alicia, minha afilhadinha, do altíssimo dos seus seis anos e alguns dias de idade e pura experiência, no sentido mais infante da palavra, olhou fundo em meus olhos, mas da forma despretensiosa de uma criança, e disse:

– Padrinho, vou te contar um segredo. Uma coisa que eu e as minhas amigas fazemos todos os dias quando a gente chega da aula.

Uau, pensei comigo mesmo. Será que havia chegado algum momento fatídico da existência dela e que ela queria dividir comigo? Não sabia o que sentir. Apreensivo, surpreso, curioso, lhe disse:

– Pode dizer, meu amor – tentando soar o menos curioso possível. Estávamos na rua, num momento de pausa do nosso passeio de bicicleta. Era um dia azul, sem uma nuvem de chuva, daqueles dias perfeitos para compartilhar segredos entre uma afilhada e seu padrinho.

– Não posso dizer aqui, tem muita gente. E é muito segredo, você não pode contar para ninguém! – Disse ela, séria, tentando gesticular uma seriedade adulta. Eu, adulto que sou, acreditava todo no seu mistério. Certo dia ela me havia dito que não era mais um bebê, era um “adulto que fala”, segundo as palavras dela. Acreditei.

Meu Deus, pensei, sem pensar em Deus. Que será que ela vai me dizer? Havia uma semana ela tinha dito que eu era seu melhor amigo, aquela parecia uma porta aberta. Uma porta aberta para o infinito de uma menina de pouco mais de seis anos e que eu não tinha a mínima ideia do que tinha atrás. Antes daquele momento, os nossos, mais íntimos, eram enfeitados com lápis-de-cor, desenhos, piscina e sorvete. Agora eu estava diante da minha afilhadinha, que havia crescido e tinha um grande segredo para me contar.

– Acho que vou te contar agora, padrinho, que não tem ninguém por perto – disse ela, de cima da garupa enquanto pedalando, eu ouvia e até pedalava com os ouvidos para não perder nada.

Eu nada disse, reticente, apenas esperando.

– Então, é o seguinte. Eu tenho um poder de gelo. A Manu tem um poder de fogo, e a Mariana tem um poder de terra. A gente sempre solta esse poder depois que a gente chega da escola. Não conta para ninguém, viu padrinho?

Eu prometi, mas quebrei a promessa. Que triste! Mas eu juro que o próximo segredo eu vou honrar a sete chaves. Afinal, é isso que os melhores amigos devem fazer.

 

Felicidade cinza

Aurora olhava pela enorme janela aberta do alto prédio de sessenta andares, o maior da cidade. Enquanto fumava, ali no quinquagésimo sexto andar, o vento empurrava a fumaça para o alto e para fora, e junto com ela flutuavam seus pensamentos, um atrás do outro, enganchados como uma corrente de desesperanças, medos, momentos efêmeros de alegria e fracassos. O céu, como embrulhado em jornal por um Deus que descartava aquele mundo todas as tardes tristes como aquela, acusava uma tempestade iminente. Aurora sentia na testa, depois na mão esquerda que se apoiava no parapeito da grande janela da varanda, uma enorme gota d’água se esparramar na sua pele, com tal força como se tivesse sido lançada por alguém impaciente de esperar ela concretizar seus pensamentos.

Quando a garoa começou a se tornar pesada, Aurora se afastou da janela, deixando-a aberta. A cortina branca dançava e fazia sombras fantasmagóricas na parede oposta da sala, sob a luz amarelada do abajur em forma de globo terrestre entre a cortina e a parede. Com um só toque no som, Aurora fez Nina Simone cantar, enquanto ela bebericava aquele vinho intimamente guardado para ocasiões de solidão como aquela. Aurora tirou os sapatos e pôs-se a girar de olhos fechados no centro da sala, sobre o tapete, abraçando sua tristeza com dignidade e vivendo-a naquele momento ao som da música. Ela sabia que tinha um notável talento de girar e ainda assim não desperdiçar uma só gota de vinho no tapete, e de minuto em minuto entreabria os olhos para conferir seu feito. Ela girava, Nina cantava e Aurora passeava nas suas lembranças em preto e branco, esfumaçadas pelo tempo, como nos filmes setentistas.

Ela lembrava do passado, ainda menina, naquela cidade pequena e despovoada. Voltava todos os dias do escritório às seis da tarde, muitas vezes carregando a pilha de papéis que nada tinham do seu verdadeiro sentimento de futura escritora, apesar de terem passado pela habilidosa datilografia das suas jovens mãos. Aquilo, para ela, era uma habilidade e tanto. Dedos ágeis que facilmente poderiam entoar as mais clássicas melodias em um piano de cauda, se ela tivesse aquela vida que não era dela, e não desperdiçasse seus dedos de segunda a sexta-feira com papéis sem importância. Aurora partia no trem das seis e meia para a cidade vizinha, onde estudava Direito na maior universidade da região. Foi naquele mesmo trajeto que conhecera Antônio. Numa daquelas tardes, o charme de Antônio e ele mesmo sentaram-se ao lado de Aurora, perguntaram sobre o livro que ela estava lendo.

Afoita no galanteio do primeiro namorado, filho de um grande fazendeiro da cidade, o que era motivo de orgulho para seu pai, Aurora desistira do Direito e se casara seis meses depois naquela igrejinha da esquina, quase em frente à sua antiga universidade. O que era o caminho de sucesso para uma mulher naqueles tempos difíceis. Lhe doía ter abandonado seus planos, seu futuro de escritora, sua carreira no Direito que a tornaria bem sucedida e a permitiria escrever por amor ao que fazia, mas se ao menos o tempo não tivesse gasto o amor que ainda sentia por Antônio, talvez Aurora pudesse ser feliz. Do alto das suas lembranças Aurora podia recordar facilmente a igreja vista da janela da biblioteca, apesar de na realidade, a visão fosse apenas uma ordinária silhueta que poderia tanto ser uma igreja, um sobrado ou um grande supermercado. Olhando muito atentamente conseguia perceber o formato de uma cruz irrompendo do telhado, inclinada, como se estivesse há mais de cem anos prestes a cair. Ao menos a cruz, em mais de um século, nunca havia sequer mexido um centímetro, ao contrário do seu destino inglório.

Hoje, o que fazer consigo mesma quando tudo que lhe restava era meio curso de Direito e um ex-marido que prometera lhe fazer feliz e o máximo que fizera foi deixar contas a pagar e um filho, para depois sumir e ela nunca mais saber onde estava. Nina continuava a cantar e a pesada e rápida tempestade dava lugar à garoa novamente. Aurora voltou para a janela, sentindo o chão molhado sob seus pés descalços, acendeu outro cigarro. Em alguns momentos, ela odiava a si mesma, quase na quantidade em que se odeia a morte, simplesmente por ela ser desconhecida o suficiente para fazer doer. Várias vezes, a ideia de tirar a própria vida passava emaranhada em outros pensamentos de desesperança, mas então, se rompesse com seu destino, talvez nunca saberia que um dia pudesse ser feliz.

Aurora se perdeu em seus devaneios de tal forma que esqueceu do cigarro que começou a queimar seus dedos. Sem querer, deixou cair lá de cima a guimba, ainda acesa, do restinho de cigarro que minutos antes pintava seus pulmões de cinza. Aquele fogo era como a sua vida. Totalmente consumido, não mais tinha para onde ir, e ainda assim tinha a capacidade de queimar. Deve ser por isso que as pessoas se drogavam, pensou ela. A ideia de desaparecer de si mesma por algum tempo era um tanto atraente. Mas ela precisaria de alguns dias, talvez anos, para esquecer de quem era por tempo suficiente para poder descansar. Talvez mesmo só a morte a pudesse fazer sofrer esse suplício, e quando a sua vez chegasse, ela aceitaria de bom grado.

De repente tocou a campainha. Num rompante Aurora percebeu que a música já havia acabado há algum tempo, a garoa cessara, e o copo secara. Aurora correu calçar seus sapatos, conferiu se sua bolsa estava sobre o sofá e abriu a porta. Antônio sorria bondosamente para ela e, surpresa, Aurora se lembrou de como aquele rapaz que conhecera no mês anterior era bonito e, como diziam nos filmes, um gentleman. Envolto num ar de simplicidade e ao mesmo tempo profundidade que valeria a pena ter toda uma vida para adentrar naquelas obscuridades, Antônio a convidara para jantar dois dias antes. Não era um namorado, mas bem que poderia ser, na opinião de Aurora. Provavelmente será, pensou ela.

– Boa noite Aurora, o táxi chega em dez minutos, mas se quiser, já podemos descer. – disse um Antônio, um tanto surpreendido pelo ar surpreso da garota que lhe esperava no horário em que ele teve o devido cuidado de chegar pontualmente.

– Nossa, me perdoe Antônio, cheguei da biblioteca e me distraí completamente enquanto lhe esperava. É olhar cinco minutos para o caos dessa cidade e me perco totalmente de mim. Pode me dar cinco minutos enquanto termino a maquiagem no meu quarto? – disse Aurora mimetizando a expressão de mistério que, tinha muito orgulho disso, buscava mostrar quando ainda não lhe conheciam intimamente.

– Claro, posso lhe esperar na varanda?, disse Antônio já sabendo da resposta e, portanto, já andando em direção à grande janela da varanda.

– Sim, aceita uma água ou um suco? Estive bebendo esse aqui, é muito bom – Aurora indicou com o dedo, colocando a taça de vinho que usara para beber o suco, disfarçadamente dentro do armário.

– Sim, pode deixar que me sirvo, obrigado.

Aurora andou para o quarto, o ar mais naturalmente possível, e trancou a porta à chave tomando o cuidado de não ser ouvida ao fazer isso. De dentro da gaveta de seu criado-mudo retirou seu pequeno caderno amarelo, onde anotava fragmentos do que um dia, talvez, se tornaria seu primeiro romance. Sentou-se no chão, apoiando as costas na cama e escreveu em seu manuscrito perfeccionista:

“A felicidade me assusta. Ela chega de repente e eu não sei nem muito bem como me portar. Olho para um lado, para o outro, sorrio. Às vezes até mesmo choro como num estado de graça que dura alguns minutos apenas. Mas na verdade, na última camada dos meus sentimentos, eu sinto medo. Um medo enorme porque no fundo não sabemos muito o que fazer com a felicidade. A tristeza nos provoca e esse desassossego faz nossos pés apontarem para algum norte, nem que esse norte seja, por vezes, deliberadamente estar parado e só. Mas a felicidade, essa nos congela na devida posição em que nos encontrou. E como uma fotografia brilha seu sorriso de mistério que traz saudade desde já por aquele momento que está passando. Eu queria ser feliz, mas se eu for, talvez não saiba ser direito. Ou será que sou?”

– Aurora, o táxi acabou de chegar, viu Antônio da janela do sexto andar.

Clarice e eu

“- Clarice, morrer dói tanto quanto viver?”

Eu comecei nossa conversa assim. Ela em silêncio, ainda me surpreendia, como se não estivesse ali por todos aqueles anos me fazendo companhia. Então Clarice levantou e foi até a cozinha. Voltou com dois chás de camomila sem açúcar, um para mim e outro para ela. Sentou-se novamente na poltrona e me atingiu com aquele olhar eterno, duro e leve. Nem sei quanto tempo ficamos daquele jeito, apenas olhando um para o outro.

Ela também sentira que fosse morrer jovem demais, e cá estávamos nós. Vivos e para sempre jovens, apesar das rugas que cada dia mais se afirmavam no espelho, ou os cabelos brancos que induziam o outro a nos encontrar envelhecendo. Nossa alma seguia infante e precisando escrever para se fazer comunicar, porque nossos sonhos nasciam sempre embrionários, para que pudéssemos fazê-los crescer na medida em que a nossa dual realidade permitia.

“- Clarice, qual a função dessa angústia que a gente sente e não sabe de onde vem?”

Mas que necessidade era essa que tínhamos de sempre querer achar nomes e personalidades para os capítulos da nossa vida? Escrevíamos essas linhas sem saber se teríamos tempo de relê-las. E isso não era um pensamento suicida. Era só um jeito de admitir a nós mesmos que mesmo jovens, não ignorávamos a força da impermanência das coisas. Eu e ela, que a meu exemplo, também sonhava em um dia se tornar escritora. Nunca nos tornaríamos.

“Clarice, escrever é o lugar onde me encontro com todas as minhas fraquezas abraçadas calorosamente pela minha força. É a voz que fala de mim e comigo, mas não sou eu. O exercício da pena em cumprimento. Minha auto condenação para me perdoar de tudo que as palavras faladas não podem alcançar. Meu portal de entrada para o meu passado e minha saída para o meu futuro. Meu único e universal jeito de acreditar em Deus sem precisar acreditar que Ele realmente exista.”

Clarice me pegou no colo, passou a mão nos meus cabelos e me passou o bastão dizendo:

“Está com você meu menino querido. Doer é só um jeito de viver que é bem melhor do que passar a vida anestesiado pela ignorância e sorrisos falsos.”

E então, eu dormi.