Amanda e os sentimentos

Naquele dia ela acordou estranha. Na realidade, havia algum tempo os dias estavam um pouco estranhos. O choro sempre na porta dos olhos. Momentos de vida sem nenhum sentido eram intercalados por pequenas felicidades dos dois. E quando se sentia assim, ela escrevia até o amanhecer. Amanda antes pensava que a vida era um processo cumulativo. Acumulava decepções, desilusões e desencantos, mas também acumulava sonhos, amores e amigos. Mas agora, olhando para o fundo do lugar de onde veio, parecia apenas que a vida era feita de ciclos que sempre se repetiam. Se acumulavam no seu coração apenas desencantos e dores e marcas. E ela tinha de descobrir sozinha o que fazer com eles. Mas tinha o amor, a grande ironia de todas.

Como se estivesse sobre um carrossel colorido e iluminado que aos poucos foi parando de girar, apagou suas luzes e parou por completo, Amanda sentia. Sentir era uma espécie de refúgio-maldição o qual ela estava fadada a viver. Amanda e seus sentimentos sofriam o fim. Ele estava indo embora. Mas diferente da maioria dos casais, até mesmo o fim estava sendo um passo dado pelos dois, juntos. De mãos dadas e com lágrimas nos olhos, Amanda e Antônio observavam a ruína dos seus sonhos naquele carrossel e se despediam dele como uma criança que dá adeus ao ventre materno, o choro era a manifestação da dor de respirar em um lugar novo e desconhecido. Não era arrependimento, nem apego, mas era como tinha de ser, e havia o medo. E de novo, a saudade do futuro.

Amanda foi para casa com seus sentimentos na bolsa. Eram muitos. Sentimentos e memórias que se entrelaçavam de um modo que ela não conseguia distinguir o que era o quê. Era o grande mistério de amar esmagando seu peito de dentro para fora e era por isso que doía. Ela tentava traduzir cada sentimento no papel, seu único artifício quando a dor lhe batia à porta, e não saía nada. Lembrava como tudo era antes dele chegar. A bagunça dos seus sentimentos já havia estado muito pior: no chão do quarto, sobre as roupas de ontem, jazia um coração em caos que mal sabia como bater. Foi quando Antônio chegou pela primeira vez. E daquelas longas visitas que esparramavam saudade por eles dois, surgiram na parede três palavras: eu te amo. O tempo não mais era contado em horas, nem dias, nem meses. Cada intenso instante era uma vida vivida por cada um deles e pelos dois. A luz azul refletia nas paredes enquanto a água caia no peito de um se espalhando pelo corpo do outro. Encontravam dentro do outro uma porta de saída para o desespero do mundo lá fora. Se protegiam. Se curavam. Tinham inventado um mundo só deles, uma linguagem só deles. E a luz azul transmutava o sexo em poesia.

Por que é que as coisas mudam? Por que a impermanência de todas as coisas podia ser tão injusta, às vezes? Ela não sabia direito o que sentir, e como um escritor que realiza seus maiores sonhos no papel porque acredita neles, ela tentava escrever um final que fosse digno daquele recomeço. Até que Amanda e seus sentimentos perceberam que a parte mais bonita daquele sonho nem ela, nem seus sentimentos, conseguiriam descrever. Era impossível traduzir porque qualquer palavra seria menor do que a vida que realmente haviam vivido. O amor, a cumplicidade, o companheirismo, as discussões, o choro fiel, o silêncio, não poderiam ser transmitidos por linhas de grafite no papel. As fotos, as canções, tudo parecia subestimar a intensidade do que havia sido, e era por isso que doía partir dali. Ir embora daquele lugar que já não era mais nem o mesmo lugar. Então ela descreveu através de uma fina elipse uma órbita no papel em branco e, dentro dela, escreveu: quem eu aprendi a ser com você na minha vida eu nunca vou deixar que saia de mim.

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