A marionete do Sr. D.

Ele foi esculpido com todo amor do mundo. O sr. D. escolheu com muito carinho a cor e a forma dos seus cabelos, lapidou delicadamente cada um dos dez dedos de suas mãos, que poderiam se articular de maneira tão meticulosa que, quem sabe, se ganhassem vida algum dia, poderiam ultrapassar sua função de agarrar meros objetos para criar coisas, sons e palavras. O sr. D. era dedicado e perfeccionista. Esculpiu o rosto da sua criação como uma espécie de falso autorretrato, corrigindo e melhorando aqueles detalhes que fariam dela uma obra superior a ele próprio. Assim são as aspirações de qualquer ser que crie por necessidade, compensar sua imperfeição naquilo que se cria.

Numa tarde chuvosa e quieta de primavera o sr. D. finalmente deu as últimas pinceladas e terminou seu projeto inanimado. A marionete seria um presente-surpresa para seu primeiro neto, filho do seu único filho, que a receberia apenas na noite de Natal, meses mais tarde. Assim, a marionete descansaria algum tempo sentada próxima à lareira, para que seu corpo de madeira secasse e se tornasse forte o suficiente para aguentar as peripécias de um menino de 7 anos. Sua gravatinha vermelha e seus sapatinhos azuis com as pontas vermelhas eram o toque final necessário para dar o ar circense que o sr. D, que fora palhaço durante sua juventude, gostava de projetar nas suas criações. Da paixão do circo veio a paixão pela senhora D., que o assistira muitas vezes maravilhada da plateia. Se apaixonaram antes mesmo que ela pudesse ver o verdadeiro rosto do palhaço. Felicidade era o nome do que veio depois.

Numa noite após o espetáculo mais especial para eles a sra. D. aceitou o pedido de casamento do sr. D. e partiram para sua nova vida em um povoado próximo às montanhas. Ele se tornou o inventor-escultor mais popular do povoado enquanto ela cozinhava os quitutes mais cobiçados. Ambos eram tão populares em seus ofícios que criaram seu filho apenas com aquela renda de modo muito livre e sempre com a mesa muito farta. Mas naquele dia, após concluir a marionete que levara sete semanas para ficar pronta, o Sr. D. não poderia ter previsto o seu azar quando saiu para buscar a lenha para sua lareira. Ele já havia acabado de encher a pequena carrocinha que transportava a madeira para a lareira e suas esculturas e invenções, quando uma terrível fatalidade trouxe uma tempestade que, num dos primeiros relâmpagos que antecederam a chuva brava, um raio magnetizou o machado do Sr. D. Ele caiu duro na floresta, sendo encontrado apenas horas mais tarde por uma sra. D. desesperada e aos prantos.

O funeral do Sr. D. foi um dos acontecimentos mais tristes na história recente do povoado. Diversos familiares e amigos das mais diversas partes vieram para prestar sua última homenagem ao Sr. D. O funeral foi realizado numa tenda armada ao lado da sua cabana, que era também sua famosa oficina onde havia construído os objetos mais curiosos com os quais presenteava as pessoas queridas e vendia para muitas pessoas notáveis que vinham de longe para apreciar suas engenhocas. Todo mundo admirava os objetos do Sr. D. como esculturas, mesmo quando muitas vezes os objetos tinha uma função meramente prática, como um pilão dado ao vizinho do lado, que devia servir para moer sementes, ou o porta-pano-de-pratos dado para a senhora Azaléia que morava do outro lado da rua. Ambos exibiam seus objetos na sala de estar e a maioria das visitas reconheceria: era uma das famosas criações do Sr. D.

Sr. D. foi enterrado com honrarias. O prefeito da cidade decretou luto oficial de três dias pela morte de um dos seus mais ilustres habitantes. As duas famílias mais ricas da cidade enviaram várias coroas de flores, intercaladamente. Cada coroa era maior e mais colorida do que a anterior dada pela outra família, como se – como todo presente dado pelas famílias ricas – aquilo fosse uma competição de quem despenderia a homenagem mais cara ao popular Sr. D. Por todos os lugares naquela semana só se falaria do talento e da falta de sorte do sr. D., tendo morrido com tanta saúde e trabalhando naquilo que tinha sido sua vida nas últimas décadas. Realmente uma triste fatalidade. Uma das famílias, não satisfeita por não ter enviado a maior coroa-de-flores, sugeriu, com total aprovação do prefeito, que uma estátua do sr. D. esculpindo a porta de entrada da cidade seria colocada ao primeiro passo da fronteira. Fazia questão, inclusive, de arcar com os custos da obra. O prefeito insistira que a cidade retirasse o custo da receita dos impostos, sendo essa a última homenagem da população, que condescendente com a dignidade dessa homenagem, aceitaria de pronto. Por fim, uniram esforços e fizeram duas estátuas, uma de cada lado da entrada da cidade.

A família do sr. D. estava arrasada pelo sinistro acontecimento tão repentino com o vovô. Então, após uma longa reunião, a família resolveu, pelo menos por enquanto, deixar a cabana do Sr. D. intocada para preservar suas últimas memórias, e quem sabe servir para unir o avô ao seu único neto no futuro. Assim, ele teria pelo menos uma chance de conhecer a aura das criações do seu famoso avô. Mas naquela noite algo mais sinistro que a morte do sr. D. aconteceu: enquanto o silêncio da noite orava seu ritual através do canto dos grilos e o cair da água no riacho ao longe, uma fagulha da lareira se transformou em fogo e a acendeu. Assim que o primeiro estalo na madeira aconteceu, a marionete deixada sentada ao lado da lareira pelo sr. D. piscou seus olhos e extraordinariamente ganhou vida. Ainda sentada, olhou de um lado a outro da cabana. O fogo da lareira iluminava parte da cabana, e a marionete enxergou diversas formas estranhas. Eram ferramentas, uma mesa abarrotada de pedaços de madeira, pregos, tecidos e latas e mais latas, todos ao mesmo tempo estranhos e reconhecíveis pela marionete. Num impulso instintivo a marionete se colocou sobre seus dois pezinhos e curiosa, a passinhos curtos, saiu a olhar as coisas dentro daquele lugar.

A marionete não sabia que aquilo era uma cabana. Para ela aquele mundo era todo um único mundo que ela acabara de conhecer. Se aproximou da mesa e comparou os pedaços de madeira e tecido sobre ela com as partes do seu corpo e de sua roupa. Viu um retrato do sr. D. e algo dentro de si a fez pensar: ele me criou. A marionete passou a madrugada observando atenta e lentamente cada objeto dentro da oficina. Encontrava uma lata de tinta e se aproximava dela com muito receio, como se a lata pudesse ganhar vida a qualquer momento. Vendo que isso não acontecia, ela começava, curiosa, a investigar cada parte do objeto até, horas depois, identificar que havia uma tampa, retirá-la num susto achando que havia a destruído, e manipulando com curiosidade e um pouco de asco o líquido que havia dentro dela. E assim recomeçava com outros objetos.

Amanheceu. A luz tomou a cabana inteira e a marionete continuou no seu ímpeto investigativo sobre cada objeto que encontrava. Assim se passaram vários dias. Quando a cabana se tornava escura ela sentava ao lado da lareira já sem fogo, fechava seus olhos, e mentalmente tornava a pensar no retrato do Sr. D. e todos aqueles objetos estranhos dos quais ela também era feita. Quando a luz voltava a inundar a cabana, ela voltava a examinar cada objeto, cada invenção e pedaço de invenção que encontrava. Acabada a exploração dos objetos, quis entender o que era aquela luz que por uma parte do tempo preenchia a cabana. Observou os vidros da janela, e chegou à conclusão de que era o vidro que fazia a luz acontecer. Teve medo da água que pingava em alguns lugares quando chovia muito. A chuva, aliás, parecia um castigo sonoro por algo que tinha feito dentro da cabana, ela devia se observar mais.

Cansada dos objetos que não a entendiam e que ela não entendia, começou a pensar sobre o homem do retrato. Em um dia pensava, aquele homem era mau, havia a colocado ali e depois havia ido embora, sem se importar em dizer onde estava e quando voltaria. Noutro dia aquele homem era bom, havia a criado e dado a ela a chance de conhecer tantas coisas novas e bonitas, e criado partes do seu corpo que a permitia se locomover e tocar nas mais curiosas criações daquele homem. Aquele homem era mau, havia deixado um retrato apenas para deixá-la curiosa acerca da sua provável vinda, mas nunca viria buscá-la. Aquele homem era bom, havia deixado um retrato para que ela nunca se esquecesse que seu criador um dia apareceria repentinamente e a explicaria detalhadamente o que ela estava fazendo ali. Por fim, ela começava a pensar que aquele homem não existia de verdade. O retrato devia ser uma ilusão, um desenho de alguma outra marionete que vivera ali antes dela.

Até que a marionete começou a sentir que suas articulações já não funcionavam mais como antes. Ela estava enferrujando e não entendia o que era o fim. Como aquele homem no retrato, se existia, podia fazer isso com ela? A jogar naquele mundo, e sair para nunca mais voltar, deixando-a com sua solidão eterna por ser diferente de tudo que havia ali. Ela nunca seria alguém e ninguém nunca a seria. Ela e o mundo viveriam naquela distância, mesmo um estando dentro no outro, como seres separados por um véu invisível. Podiam ver e tocar um ao outro, mas nunca poderiam tocar as almas um do outro, nem se compreender. Estaria o mundo, incompreendido e sozinho, também triste como ela, do outro lado daquele véu invisível? Qual era o propósito de um ser criar um outro ser e não dar a ele qualquer instrução, qualquer sinal? Não, o retrato não era um sinal. Naquele mundo em que as coisas eram reais e poderiam ser vistas e sentidas, ela queria um sinal da bondade do homem do retrato. Mas tudo que tinha era sentir na pele o que significava envelhecer sem nunca saber da existência dessa palavra. Era ver o pó se acumulando pelos cantos, a luz cada vez mais escassa, suas articulações rangendo, suas roupas sujas e rasgadas. Sua gravata e seu sapatinho agora eram pintados do mesmo cinza que o chão daquele lugar. O tempo era uma injustiça. Viver também. E onde estava o homem do retrato? Por que ele estava tão longe de salvá-la? Aquele sorriso no retrato era uma promessa? Ou era uma gozação? Não era nada. O próprio retrato foi se perdendo atrás do pó, e ela teve certeza. O homem do retrato nunca existira.

Foi quando uma nova fagulha, da mesma maneira do seu nascimento, acendeu a lareira. Ela viu o fogo crescer, as chamas refletirem em seus olhinhos de madeira empoeirados, e então ela teve certeza do que devia fazer. Colocou, um a um, seus pés sobre o fogo e ardeu em chamas, tão velha e seca que estava. Nada sentiu, saiu do nada e voltou para o nada. Se entregou para o fim com a mesma não vontade com que lhe entregaram para a vida. O fogo estalou seu corpo de maneira tão rápida que um pedacinho da sua perna saltou para o tapete da sala e colocou a cabana toda em chamas. No outro dia, as pessoas mal acreditaram no que havia acontecido quando viram a fumaça negra e cinza que saía do que restou da velha cabana do sr. D. Agora, esfriada pela leve garoa que cobria a cidade. Um casal de velhinhos abraçados, sob seu guarda-chuva, olhava com tristeza para a ruína da cabana do Sr. D. quando o velhinho disse para sua senhora: “Deus gostava tanto do Sr. D., que levou-o junto dele. Agora, todo esse tempo depois, mandou um raio para levar sua amada oficina da mesma maneira que o levou. Que Deus o tenha.”

Anúncios

Estranho no Espelho

Mário acordou de madrugada com medo do escuro. Que sensação esquisita, nunca fui de ter medo do escuro, pensou. Tateou em busca dos óculos, calçou os chinelos com os próprios pés que pareciam enxergar na penumbra e acendeu a luz. O quarto parecia um lugar novamente prazeroso e nada assustador. A máquina de escrever imóvel no seu canto, os livros nas prateleiras, sua mesa carregada de cadernos e canetas e tudo o mais que ele utilizava todos os dias. Virou de costas para sua cama e olhou no espelho. Ali estava ele. E dentro dos seus olhos, no reflexo da pupila, ele se viu. Não era ele. Pelo menos não esse ele de cabelos castanhos encaracolados. O que era ele? Era alguém que conheceu há muito tempo, e que pelas circunstâncias, esquecera de falar consigo de novo. E foi se esquecendo, até que esqueceu a fisionomia real que tinha, a cor dos seus verdadeiros olhos, o tamanho dos seus sonhos, a densidade dos seus sentimentos e vontades.

O medo que havia lhe acometido há pouco era um medo trazido pela memória já fria de tanto tempo. A lembrança de quem era e que não era mais o assustava, como um fantasma de lençol assusta a uma criança. Esquecer de si mesmo era a pior coisa que já lhe havia acontecido. De perto, dez minutos depois de toda uma profunda observação reflexiva, ele já não parecia tão assustador. Ele viu que aquele ele podia chorar de tão triste, mas o ser triste ali não significava algo ruim. O eu real é naturalmente triste, porque a realidade é triste. E essa tristeza tinha algo de bonito, porque ela vinha da percepção de que nada dura para sempre. Nem mesmo ele, e isso era triste. Mas enquanto tivesse consciência do seu eu, da tristeza faria imergir todo um colossal sonho feito de realidade, feito do desejo da sua alma colocado em prática.

Feliz por ter entendido a real face da tristeza, apagou a luz, retirou os chinelos, sentou-se por um tempo e depois se deitou na cama. Enquanto cobria seu corpo sentia cada centímetro físico da sua existência e se sentia feliz. Olhava para o teto sem nada enxergar e se lembrava do seu eu dentro da pupila, no espelho. De saber que era triste esse eu até parecia mais feliz que ele mesmo. Como era bom esse sentimento! Queria eterniza-lo para a manhã seguinte e todos os outros dias. Um sentimento de que a morte parecia pequena diante da imensidão do ser nesta vida. Bastaria se lembrar e saberia o que fazer, como agir, como viver. Ali estava o segredo de toda uma existência no escuro, enfim, revelado. Que sorte a dele.

Aos poucos os pensamentos pareciam desaparecer no complexo do ar do sono pelo seu quarto. Quando se está com sono, entre o cá e o lá, pensamentos são fluxos de ideias ininterruptos, que enchem a cabeça e quanto mais você pensa sobre não pensar neles, mais eles se entrelaçam em camadas e camadas de profundidade. Precisava puxar do emaranhado uma pontinha de um pensamento e ir acompanhando-o, tentando entender para onde ele queria levar. Uma piscada mais demorada e pareceria terem ido embora camadas e mais camadas como se nunca tivessem existido. Uma falácia, claro. Eles se escondem e se empoleiram nas gavetas da memória e voltam de repente sem nem ao menos serem chamados. Alguns desses fluxos vão dar no que é a maior escuridão da gente. Ali eu vou só até a porta e raramente tenho coragem de olhar. Permeando essa porta estão todas as coisas que escrevo. Elas são o mais próximo da verdade que meu eu me permite ver sem atravessar aquela porta. Eu poderia atravessar essa porta de uma vez, e ver tudo que existe lá, mas eu tenho uma profunda impressão de que morreria se o fizesse. Então não faço, vou tateando no escuro e buscando não mentir para mim mesmo aquilo que já sei, enquanto tento atingir a verdade estando vivo. Uma tarefa dura, cansativa e que leva uma existência toda.

Exausto, Mário desistiu inconscientemente de tentar lembrar e dormiu. Voltou para o profundo dos sonhos para no outro dia acordar para a vida. Na vida, cumprindo com tudo o que seu eu não faria se tivesse escolha, ele se esqueceu.